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A revolução chegou, vamos à revolução

Amadurecido, o Brasil vive um novo momento histórico, meio século depois do Comício da Central do Brasil
Amadurecido, o Brasil vive um novo momento histórico, meio século depois do Comício da Central do Brasil

Eu vi um velho comunista chorar, na tarde desse domingo, quando o Brasil fez um gol contra a Itália e ninguém em volta, nos apartamentos, nos carros que passavam na rua, entre o grupo que vinha com as compras do supermercado, exceto um bêbado que assistia ao jogo, comemorou, soltou fogos, gritou a plenos pulmões, parou para ver o replay do lance.

“Chegou a revolução!”, gritava ele.

Óbvio que ninguém no boteco deu a mínima. Um até pedia para que ele saísse da frente, para continuar assistindo à partida.

Naquele instante eu percebi que, sim, o momento em que vivemos é grave. A disposição com que o MPL foi para as ruas, disposto a tomar tiro de borracha, respirar gás lacrimogêneo e parar cassetete no braço foi uma demonstração de que “o copo está cheio e já não dá mais pra engolir”, com a permissão do Gonzaguinha. O ponto de gravidade desse novo tempo ao qual chegamos, no Brasil, foi naquele instante. Depois, o que se viu foi a cauda do cometa, recheada de ‘coxinhas’ e fascistas escrotos.

Percebi que a luta daqueles meninos foi o que os levou até ao Palácio do Planalto, hoje, e é essa luta que precisa ser respeitada. A luta de quem sempre esteve de pé pelas grandes reformas nesse país, a começar pela reforma política, que é a mãe de todas as demais. Quanto mais avançamos, mais grave fica o embate com a extrema-direita que, em meio século, nunca havia visto tamanha vontade popular em transformar a sociedade.

Aí eu compreendi o nó na garganta do velho comuna, que viu o discurso do Jango na Central do Brasil, foi perseguido pela ditadura, votou no Lula, votou na Dilma, e chegou vivo até agora, quando pátria de chuteiras, Galvão Bueno, TV Globo e tantas outras goiabas oferecidas para adoçar o povo já não surtem mais o menor efeito.

Vamos à revolução.

Gilberto de Souza é jornalista e editor-chefe do Correio do Brasil.