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Alemanha tenta aplacar tensão com Turquia

Berlim diz ser inaceitável declaração de Erdogan sobre “práticas nazistas” na Alemanha atual. Mas exalta relações bilaterais como especiais e pede que “cabeças frias” prevaleçam

Por Redação, com DW – de Berlim:

Autoridades alemãs rebateram nesta segunda-feira as declarações do presidente turco, Recep Tayyip Erdogan, que comparou o cancelamento de comícios na Alemanha sobre o referendo constitucional na Turquia, com a presença de ministros turcos, a “práticas nazistas”.

Erdogan atribuiu o cancelamento de comícios na Alemanha sobre o referendo constitucional na Turquia a "práticas nazistas"
Erdogan atribuiu o cancelamento de comícios na Alemanha sobre o referendo constitucional na Turquia a “práticas nazistas”

Nos últimos dias, diversas cidades alemãs cancelaram os eventos alegando preocupações com a segurança. Os ministros do governo de Erdogan fariam campanha a favor da reforma constitucional que visa introduzir o sistema presidencialista no país. Ampliando os poderes do presidente. A Alemanha abriga a maior diáspora turca, e em torno de 1,4 milhão de pessoas poderão votar no referendo no dia 16 de abril.

O governo turco acusou Berlim de atuar contra a campanha a favor da reforma constitucional por não querer uma Turquia estável.

– Alemanha, você não tem qualquer relação com a democracia e você deveria saber que suas práticas atuais não são diferentes das do período nazista – disse o presidente em Istambul. Num evento de campanha para o referendo. “Eu pensava que a Alemanha havia abandonado práticas nazistas há muito tempo. Estávamos enganados.”

Steffen Seibert, porta-voz da chanceler federal Angela Merkel. Ele afirmou que “comparações com o nazismo são sempre absurdas e fora de lugar. Uma vez que leva a apenas uma coisa: a banalização dos crimes contra a humanidade cometidos pelos nazistas”.

“Absolutamente inaceitável”

Ao mesmo tempo em que encorajou a Turquia a “falar abertamente e de modo crítico”. Seibert disse que os dois países devem lembrar o “significado especial” de suas relações próximas e “deixar que as ‘cabeças frias’ prevaleçam”.

Horas antes, o chefe de gabinete da chancelaria, Peter Altmaier, afirmou que a comparação com o nazismo é “absolutamente inaceitável”. “O governo deixará isso bem claro”, afirmou. “Não há qualquer razão para permitir que sejamos repreendidos dessa maneira.”

Erdogan alertou que Berlim não deve tentar impedi-lo de falar em solo alemão. “Se não me deixarem entrar ou não me deixarem falar. Farei com que o mundo se levante”, ameaçou.

No domingo, o ministro alemão da Justiça. Heiko Maas, afirmou que os comentários de Erdogan eram “absurdos, lamentáveis e grotescos”. E que tinham como objetivo provocar reações de Berlim. “Temos que cuidar para que não nos deixemos ser provocados”, observou.

Ele alertou contra romper relações diplomáticas ou não permitir a entrada de Erdogan no país. Afirmando que essas medidas jogarão a Turquia “diretamente nos braços de (presidente russo) Vladimir Putin, o que ninguém deseja”.

Acirramento das tensões

O ministro alemão do Exterior e vice de Merkel, Sigmar Gabriel, disse que, apesar de a Alemanha respeitar os valores da liberdade de expressão, os que fizerem pronunciamentos no país devem “respeitar as regras”.

O líder da comunidade turca na Alemanha, Gökay Sofuoglu, condenou a fala do presidente turco, afirmando que desta vez Erdogan foi longe demais.

As tensões entre Berlim e Ancara já haviam se agravado nos últimos dias com a prisão do jornalista teuto-turco Deniz Yücel na Turquia, que gerou uma onda de indignação por parte do governo, políticos e intelectuais alemães. Erdogan acusou o correspondente do jornal Die Welt de ser um agente da Alemanha e integrante do banido Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK).

Alemanha e Turquia são, além disso, parceiros importantes na crise migratória. Mais de um milhão de refugiados – em sua maioria sírios – entraram na Alemanha desde 2015. E foi só o acordo firmado entre a União Europeia e a Turquia para impedir a chegada de migrantes ao continente, em vigor desde março de 2016, conseguiu sustar decisivamente o fluxo migratório.