O vergonhoso convite da Hebráica carioca ao Bolsonaro

Nota do Editor – Existem iniciativas que são imperdoáveis – é o caso do convite da Hebráica do Rio de Janeiro ao deputado Jair Bolsonaro para pronunciar uma palestra aos seus associados. Luiz Mairovitch, presidente da Hebráica carioca, fez esse convite depois da Hebráica paulista ter cancelado o convite, e, segundo a Folha, Mairovitch tem mesmo simpatia pelo homofóbico, machista e defensor dos torturadores do regime militar, regime que torturou e matou, em 1975, o jornalista Vladimir Herzog. Realmente, Hanna Arendt tinha razão ao falar em banalização do mal. Esse convite não só é vergonhoso como um insulto a todos os judeus que tombaram na luta contra o nazismo e contra a ditadura militar brasileira, como Iara Iavelberg. Rui Martins, editor.

Por Mário Augusto Jakobskind, do Rio de Janeiro:

A Hebráica insulta a emória de Vladimir Herzog e Iara Iavelberg
A Hebráica do Rio de Janeiro insulta a memória de Vladimir Herzog e de Iara Iavelberg

O extremista Jair Bolsonaro está sendo convidado pela Hebraica do Rio de Janeiro a participar de um debate. É vergonhoso que isso aconteça, na prática uma afronta a tantas vítimas de atrocidades cometidas no Brasil e durante o nazismo na Alemanha. Uma afronta a figuras como Vladimir Herzog, assassinado pela mesma ditadura que Bolsonaro apoia até hoje elogiando torturadores, como aconteceu na Câmara dos Deputados quando o parlamentar homenageou a figura do assassino Brilhante Ustra na votação do impeachment de Dilma Rousseff.

É vergonhoso uma entidade judaica dar espaço a um facínora nazifascista defensor público de torturadores. Não se pode aceitar. É mais do que necessário pressionar a direção da Hebraica-RJ a voltar atrás. Se na fizer isso, sob o falso argumento de que pretende ouvir todos os lados, a Hebraica simplesmente repetirá o erro histórico proporcionado por alguns segmentos da colônia judaica na Alemanha, que chegaram no início da ascensão nazista, a apoiar Adolf Hitler, inclusive realizando entrevista com o assassino chefe dos nazistas em publicações judaicas.  E deu no que deu.

Recentemente, em um programa da comunidade judaica intitulado Menorah, foi dado grande espaço à família Bolsonaro, inclusive com imagens do defensor de torturadores quando visitava Israel.

Na comunidade judaica vozes se levantaram em São Paulo contra o convite feito a Bolsonaro pela Hebraica-SP. A mobilização levou a diretoria a voltar atrás e suspender a atividade que seria uma grande vergonha se fosse realizada.

Agora, a tentativa de levar adiante a atividade vergonhosa de dar espaço a um também racista, volta à tona. É mais do que lamentável que uma comunidade que foi tão discriminada ao longo da história, repita o erro ocorrido no início da ascensão do nazismo. Se não se corta o mal pela raiz, o mal pode avançar e em breve espaço de tempo atingir exatamente quem lhe deu a mão.

Ou alguém tem dúvidas sobre o que representa Bolsonaro? Uma pergunta que deve ser feita à comunidade judaica: ter ido a Israel absolve um defensor de torturadores de alguma coisa?   

O fato pode remeter também a outra discussão. Ao se criticar a política de guerra do atual governo de Israel, apoiado pelo racista Donald Trump, não é um dever de todos que pelo mundo defendem os direitos humanos? Por que o silêncio ou mesmo o apoio a um governo que comete tantas atrocidades contra os palestinos? Bolsonaro deve ser um apoiador incondicional, como Trump, desse tipo de procedimento e por isso a Hebraica deve convidá-lo para debater?

Esse raciocínio revela ignorância histórica e a vitória do senso comum, o que não pode se tolerado por quem se propõe a defender os direitos humanos em qualquer parte do mundo.

Nesse sentido, a comunidade judaica do Rio de Janeiro e os defensores dos direitos humanos de um modo geral devem cerrar fileiras e se mobilizar para impedir que seja concedido espaço a uma figura que pode amanhã com maior poder repetir os métodos do nazismo. Até porque, quem apoia publicamente torturadores é capaz de tudo em matéria de violação dos direitos humanos.

Mário Augusto Jakobskindjornalista e escritor, correspondente do jornal uruguaio Brecha; membro do Conselho Curador da Empresa Brasil de Comunicação (TvBrasil). Consultor de História do IDEA Programa de TV transmitido pelo Canal Universitário de Niterói, Sede UFF – Universidade Federal Fluminense Seus livros mais recentes: Líbia – Barrados na Fronteira; Cuba, Apesar do Bloqueio e Parla , lançados no Rio de Janeiro.

Direto da Redação é um fórum democrático de debates editado pelo jornalista Rui Martins.

A desnecessária e absurda carta ao General

Nota do Editor  – Faz alguns dias, recebi um email me propondo assinar e aderir a um abaixo-assinado caucionado por três nomes ilustres, primeiros signatários, Fernando Morais, João Pedro Stedile e Beto Almeida, cumprimentando o Comandante do Exército, Eduardo Dias da Costa Villas Boas, por sua entrevista à revista Valor Econômico.

Me certifiquei de que não se tratava de um email falso, fake como se diz, ou de uma brincadeira de mau gosto, ou de uma provocação. Diante do absurdo, tive de concluir ser um equívoco ou um delírio, para não utilizar expressão mais severa. Em todo caso, um acinte para todos quantos lutaram contra a ditadura militar e uma infeliz constatação da derrapagem ideológica da atual esquerda brasileira, sem memória e sem rumo.

Felizmente, me chegou uma interpretação desse deslize, assinada pelo petista dissidente Valter Pomar, cuja ortodoxia poderia ter evitado ao PT tantas trilhas falsas até à atual derrocada, ao arrepio de tantas esperanças populares agora perdidas.
Convido os leitores do Direto da Redação ao exercício comparativo da inqualificável Carta aberta ao Comandante do Exército com a análise dela feita por Valter Pomar, dentro do espírito do debate e do exercício da liberdade de informação que animam este Direto da Redação.

Boa leitura e boas reflexões, Rui Martins, Editor do DR.

Por  Valter Pomar, de São Paulo:   

É aconselhável pedir ajuda a um militar na atual crise política brasileira?
É aconselhável pedir ajuda a um militar na atual crise política brasileira?

O comandante do exército brasileiro, general Eduardo Dias da Costa Villas Boas, concedeu no dia 17 de fevereiro uma longa entrevista ao jornal Valor.      

A entrevista pode ser lida no endereço http://www.valor.com.br/cultura/4872438/somos-um-pais-que-esta-deriva

O pretexto da entrevista são as greves de policiais militares e os massacres em presídios.

A entrevista foi percebida de diferentes maneiras, na esquerda brasileira.

Alguns apreciaram certas passagens da entrevista. E consideram tornar o general um interlocutor.

Outros lembraram certas atitudes recentes do general, por exemplo contra o memorial dedicado a Jango. Ademais, consideram que esta entrevista não deveria ter sido pedida, nem concedida.

Afinal, não compete a um general da ativa dar opiniões sobre a situação política do país. 

Não importa quais opiniões. 

Aliás, para que mesmo temos um ministro da Defesa?

A extrema-direita quer os militares como protagonistas ativos da situação política do país.

Não quaisquer militares, obviamente.

Aos que ocupam posição subalterna, vale a hierarquia mais dura.

A esquerda deve adotar outra postura: os militares têm o direito de votar. 

Mas se querem participar da luta política enquanto protagonistas, precisam ir para a reserva. 

A entrevista do general Villas Bôas é protagonismo político direto. E, por isto, inaceitável.

Quanto ao mérito — pois já que a entrevista foi concedida, pode e deve ser lida — confirmam-se os motivos de preocupação.

O general obviamente não quer as Forças Armadas substituindo a policia.

Mas considera que “empregos pontuais” são inevitáveis, devido à deterioração da estrutura de segurança nos estados.

Entretanto, diz ele, falta proteção jurídica adequada, que só existiria em caso de Estado de Defesa ou Estado de Sítio.

Cada um entenda como quiser esta parte.

Mas a parte seguinte é explícita.

O general considera que somos um “país à deriva”.

Diferente de antes. Mas o “antes” dele não refere-se aos governos Lula e Dilma.

Segundo o general, até os anos 1970, 1980, tínhamos “identidade forte”, “sentido de projeto”, “ideologia de desenvolvimento”.

Ou seja, quanto mais perto da redemocratização, mais nossa “identidade” estaria se acabando.

O general não esconde o que pensa. 

Ele considera que a Lava Jato é a “esperança”, que o “protagonismo” do Ministério Público e da Justiça são são importantes.

E — se alguém não entendeu — diz que os que pedem a intervenção das Forças Armadas, pedem porque consideram que as Forças Armadas são o “reduto” que preservou os “valores”.

Ou seja: os que clamam pela intervenção militar não são cavernícolas, são pessoas de valores.

Não perguntaram — ou não publicaram — qual a opinião do general sobre a contribuição do golpe de 1964 para garantir esta “identidade forte”, este “sentido de projeto”, esta “ideologia de desenvolvimento” que ele aclama.

Mas o general fala claramente que a diferença entre 1964 e os dias de hoje, é que agora as instituições estariam funcionando. Como e para quem, sua resposta sobre a Lava Jato já deixou claro.

Agora, se as instituições deixarem de funcionar…

Aliás, sobre 2018 o general achou por bem manifestar sua preocupação com o surgimento de candidaturas “populistas”.

Se populistas de direita ou de esquerda, a entrevista não esclarece.

Mas seja como for, é inaceitável que um general na ativa dê opinião sobre supostas candidaturas presidenciais.

As demais respostas que o general dá — sobre as drogas, sobre as fronteiras, sobre a Colombia e sobre a previdência — são previsíveis. E vão no mesmo rumo geral das anteriores, com um claro componente corporativista no caso da previdência.

A entrevista como um todo é muito grave.

Que ela tenha sido dada neste momento, em que o governo Temer está sob fogo cerrado, é ainda mais grave. Pois objetivamente joga água no moinho dos que querem uma saída não democrática para a crise.

A esquerda não pode aceitar que um general da ativa intervenha no debate político. Nem deve alimentar ilusões acerca da postura das Forças Armadas. Especialmente num país com a história recente do Brasil.

 

Valter Pomar, foi jornalista no Brasil Agora e na revista Teoria e Debate e Linha Direta antigas publicações ligadas do PT,  ex-dirigente da Secretaria Internacional das Relações Internacionais do PT, doutor em História Econômica, derrotado nas eleições para a direção nacional do PT. Atualmente é secretário-executivo do Foro de São Paulo.

 
SEGUE A CARTA ABERTA AO GENERAL

Carta aberta 

Ao Sr. Eduardo Dias da Costa Villas Bôas

Comandante do Exército

“O melhor do Brasil é seu Povo.

E o pior, é um governo golpista!”                                       

Exmo. Sr. General,

Queremos cumprimentá-lo por sua entrevista, “Somos um país que está a deriva”, concedida ao jornal Valor Econômico e publicada dia 17 de fevereiro/2017.

Alegra-nos sua coragem e discernimento e a postura cívica das Forcas Armadas do Brasil, de respeito à Constituição Federal, nesses tempos em que os três poderes de Estado não hesitaram em desrespeitá-la com o processo de impechment ilegítimo e vergonhoso.

Sua entrevista traz diversos aspectos que merecem atenção de todo povo brasileiro e é com eles que queremos dialogar. Suas declarações, lastreadas pela investidura do cargo que ocupa e em sua vasta experiência pessoal, conhecedor da nossa dura realidade social, adquirem uma importância ainda maior.

  1. Uma crise Profunda. Vivemos um momento complexo, difícil, em que a sociedade brasileira enfrenta uma grave crise econômica, política, social e ambiental.  

É realmente estarrecedor que este grande país, dotado de um povo trabalhador, com invejável conhecimento e capacidade técnica,com riquezas naturais fantásticas e uma estrutura produtiva situada entres as dez primeiras economias do planeta, registre dificuldades para encontrar um rumo emancipatório, soberano e de prosperidade social para toda sua gente, e não apenas para um minoria de 76 mil milionários, entre 204 milhões que vivem do trabalho.

Lamentavelmente os grandes meios de comunicação, um dos principais responsáveis pela crise política que se instalou no país, monopolizados e partidarizados, não se interessaram em informar a população e em repercutir seu grave alerta sobre o rumo do nosso país.

  1. A defesa dos interesses do povo e da soberania nacional. Somamo-nos à sua apreciação, e acreditamos que a mesma é unânime dentro das Forças Armadas, quando afirma que a tarefa da Defesa Nacional não cabe apenas aos militares. Manifestamos, assim, a nossa preocupação com a Defesa Nacional e com a Soberania do Brasil e de nosso povo.

Enxergamos perigos quando projetos estratégicos, gestados à décadas e realizados em parceria com empresas de engenharia nacional, são minados e encontram-se sob intenso bombardeio promovido pelo mesmo grupo politico que açambarcou os poderes do Estado.

Ataques que são incentivados e potencializados pelo oligopólio mediático, que sempre hostilizou as empresas publicas, o Programa Nuclear Brasileiro, a Petrobrás, a Vale do Rio Doce, a Telebrás.

Querem finalizar, agora, o que o antinacional governo de Fernando Henrique Cardoso iniciou na década de 1990.

Nossa maior empresa estatal, a Petrobrás, está sendo esquartejada, suas funções estratégicas estão sendo reduzidas e, até, paralisada em vários de seus projetos indispensáveis à sua sobrevivência e crescimento.

Não é segredo para ninguém que programa do submarino nuclear está em vias de paralisação.Um projeto que atesta nossa capacidade científica e de planejamento estratégico, ameaçado por um governo golpista, antipopular e entreguista.

Também,é motivo de profunda apreensão junto aos movimentos populares, aos sindicatos dos trabalhadores, nos meios intelectuais e estudantis, as informações indicando que está sendo elaborado um acordo que prevê a transferência do controle da Base de Lançamentos de Foguete de Alcântara para o Estados Unidos.

Se tal acordo for aprovado por decisão política desse governo golpista, mais uma vez, estaremos entregando aos interesses estrangeiros as vantagens e privilégios que a natureza legou ao nosso país, como é a localização geográfica da Base de Alcântara.

Pior, anuncia-se que o governo golpista enviara ao congresso nacional Medida provisória autorizando a venda de nossas terras ao capital estrangeiro, e ainda nos ridicularizam ao estabelecer os limites de  até , apenas, 200 mil hectares.   Desafiamos os seus defensores tentarem comprar igual quantidade de terras nos Estados Unidos eou na Europa!

A engenharia nacional está sendo entregue de bandeja aos concorrentes estrangeiros o que, direta e indiretamente,  prejudica projetos essenciais na Indústria de Defesa Brasileira.   Todas essas investidas atendem a interesses de capital estrangeiro e de governos imperiais, como foram claramente revelados e comprovados nas denuncias do Wikileads, sobre a espionagem realizada em nosso país.

Desafiamos a encontrar nos países ditos desenvolvidos a adoção dos mesmos métodos e praticas adotadas aqui para penalizar empresas nacionais envolvidas em processos de corrupção.  

Como movimentos populares e pessoas engajadas de nosso povo não permitiremos que se entregue nossas riquezas, nossas terras e a base de Alcântara, nem a soberania da Petrobras.

  1. A crise política e  a necessária democracia das urnas. Também nos preocupa muito a crise política em que vive o pais, por causa da irresponsabilidade dos partidos políticos derrotados nas ultimas eleições presidenciais.

A democracia, imprescindível para o desenvolvimento político, econômico, social e cultural do nosso país, só pode ser construída pelas urnas, pela participação e pelo respeito à vontade da maioria do povo brasileiro.

O desrespeito com que o Poder Legislativo e setores do Poder Judiciário – inclusive com a conivente omissão do STF (Supremo Tribunal Federal) – trataram a Constituição Federal para que tivesse êxito o golpe contra a presidenta Dilma Rousseff, legitimamente eleita, pode não ocupar espaços nos noticiários da mídia, também, golpista. 

Mas esse ataque à Democracia e ao Estado de Direito está presente na memória do povo e já faz parte dos anais da história do nosso país.

No futuro a sociedade brasileira será capaz de responsabilizar e punir os protagonistas do crime cometido.

Já, agora, o povo não reconhece no atual governo a legitimidade para construir um novo projeto de país. 

  1. A corrupção é um modo permanente de governar das elites. Toda e qualquer corrupção deve ser combatida e punida, de acordo com nossas leis. No entanto, aqui o combate à corrupção está servindo para atender interesses políticos partidarizados, destruir as empresas nacionais que disputam o mercado internacional e facilitar a ingerência externa em nosso país.

Muitos ministros e parlamentares se notabilizam pelo enriquecimento ilícito, pela desmoralização da política e das instituições do Estado. Estão mais empenhados em não aparecer nas manchetes policiais do que em construir uma Nação e cuidar do bem-estar do povo brasileiro.

  1. O papel das Forças Armadas. Diante desse momento histórico que vivemos, cabe reconhecer e parabenizar as Forças Armadas pela acertada decisão em rejeitar os pedidos, feitos por uma minoria da sociedade brasileira mas amplificados pela mídia golpista,  de intervenção militar na crise  política do país.

Como o Sr menciona na citada entrevista, há a necessidade do Exército participar nos debates dos temas importantes da sociedade brasileira.

Partilhamos de sua visão e preocupação quanto a equivocada decisão política de empregar as Forças Armadas em comunidades carentes, assumindo atribuições de policia ,com o pretexto combater a criminalidade.  Ou para exercer apenas o ridículo papel de policia. 

Os problemas de criminalidade, tem raízes estruturais e sociais e não se resolvem apenas com repressão militar. É preciso medidas políticas que enfrentem os problemas de fundo, que levam a nossa juventude à criminalidade. É preciso combater, estruturalmente, a miséria, a desigualdade social e o desemprego crônico da juventude.

Como o Sr sinaliza, para resolver os problemas fundamentais da sociedade, o emprego das Forças Armadas contra o narcotráfico será sempre ineficiente, contraproducente,  com efeitos temporários e ilusórios. 

O que de fato reduz a captura da juventude pobre pelo narcotráfico e o crime, é a geração massiva de empregos, acesso à educação e condições dignas de vida.

Para isso é preciso a retomada do crescimento, com o indispensável investimento público em obras, como a construção de moradias, hospitais, ferrovias, hidrovias, estradas, saneamento básico, e, fundamentalmente, com uma reforma agrária  que interrompa o êxodo rural e promova um desenvolvimento social e econômico em nosso vasto território nacional.

  1. As raízes da crise do país. No entanto, Sr. General, a crise instalada hoje no país, não tem suas causas restrita às esferas da política e das instituições do Estado.

O monopólio dos meios de comunicação de massas, inexpugnável em nosso país, certamente é um dos fatores, senão o principal, da crise politica existente.

A democracia, e a política, vem sendo sistematicamente vilipendiada para atender e preservar os interesses particulares das famílias que monopolizam a mídia e seus braços político-partidários.

Além disso, meios de comunicação privados de maior alcance, descumprem o previsto na Constituição no que tange a difusão dos valores humanistas e de nacionalidade; não primam pela missão educativa da informação como um bem social; mantem no esquecimento, ou relegada ao silencio, a nossa cultura própria eos personagens relevantes da nossa história; promovem um verdadeiro culto à violência, ao consumismo e a um exacerbado individualismo, promovendo um esgarçamento da vida social.

Precisamos urgentemente rever as diretrizes constitucionais para a concessão publica dos serviços de radiodifusão, democratizando a produção e o acesso à comunicação no Brasil.

Assim, temos vigorosas razões para estarmos preocupados e , também, para entender a gravidade de seu alerta quando afirma que “Somos um país que está à deriva”.

Diante da gravidade da situação e da urgência em encontrar saídas para a crise, é imprescindível a ocorrência de novas eleições gerais no país e as mudanças Constitucionais que assegurem o fortalecimento do Estado Democrático de Direito. Que sabemos, virá, apenas quando instalada uma nova Assembleia Constituinte, eleita sem as influencias do poder econômico e respeitando a verdadeira diversidade e pluralidade existente na sociedade.

Enfim, temos tudo para não estar à deriva.

Queremos construir um novo projeto para o pais, que enfrente a raiz dos problemas e  proponha soluções verdadeiras para os problemas do povo.

Exmo. Sr. General, queremos nos colocar à disposição para debater todos os pontos mencionados em sua entrevista.

Consideramos muito salutar que possamos ter um canal para debater tais temas, principalmente, aqueles que, afetam perigosamente a soberania brasileira e colocam em risco as condições de vida e o futuro de nosso povo.

Assim, receba os cumprimentos pela relevância dos temas abordados e ao apelo à reflexão sobre os graves problemas que nos cercam.

Atenciosamente…

Seguem-se adesões de dirigentes de movimentos populares e intelectuais comprometidos com nosso povo.

  1. Fernando Morais, escritor
  2. Beto Almeida, Jornalista
  3. João Pedro Stedile,  ativista do MST e da Frente Brasil Popular.

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Direto da Redação é um fórum de debates editado pelo jornalista Rui Martins

 
 

Trump prepara a guerra

Uma coisa Trump não disse, mas seu orçamento aumentando as despesas militares –  enquanto corta as despesas com diplomacia,  proteção ao meio ambiente e contribuição a agências internacionais como a ONU – deixa claro que muito em breve os Estados Unidos estarão envolvidos em mais uma guerra no planeta.

Por José Inácio Werneck, de Bristol, EUA:

O aumentando das despesas militares prenuncia  guerra
O aumentando das despesas militares prenuncia guerra

No mesmo dia em que fez um discurso ao Congresso  – tecnicamente não é o State of the Union Address porque ele ainda não tem um ano no governo – em que caía em contradição entre as promessas que fez e os atos que vem perpetrando, Donaldo Trump encaminhou um orçamento prevendo em 54 bilhões de dólares os aumento das despesas das Forças Armadas.

Trump  quer também “modernizar” o arsenal nuclear dos Estados Unidos, “colocando-o no mesmo nível de outras nações”.

A realidade é que o arsenal atômico dos Estados Unidos é o maior do mundo, capaz de extinguir diversas vezes a vida humana no planeta.

As despesas militares dos Estados Unidos atualmente já são maiores do que as dos oito países seguintes.

Entre as muitas contradições do discurso de Trump estava a de que iria propor uma lei de reforma da imigração que permitiria a presença nos Estados Unidos de muitos imigrantes atualmente ameaçados de deportação.

Mas tal promessa, feita durante o dia, esteve ausente no discurso à noite. Terão os assessores de Trump convencido-o a mudar de ideia ou a promessa, como tantas outras, não era para valer?

Trump disse que o aumento da criminalidade nos Estados Unidos é o maior “do último meio século”. Na realidade, em 1991, há 26 anos, houve 24.703 assassinatos nos Estados Unidos, contra 15.691 em 2015.

Trump prometeu acabar com a epidemia de drogas no país construindo um muro que impeça a entrada dos “homens maus” nos Estados Unidos. O que veio primeiro, o ovo ou a galinha? A sede pelo consumo de drogas da população americana serve de imenso estímulo à entrada ilegal delas no país.

É, digamos, um claro exemplo da “força do mercado”.

Todos gostariam de ver um aprimoramento do chamado Obamacare, o plano de saúde adotado no governo Barack Obama.

A realidade é que Obama gostaria de ter adotado a “Opção Pública”. Ela daria ao cidadão o direito de ir ao consultório de um médico particular (e pagar caro por ele), se não quisesse ir a um médico empregado pelo governo.

É o sistema que existe, por exemplo, na Inglaterra. Quem não está satisfeito com o National Health Service sempre pode pagar para ir a um médico particular.

Obama não conseguiu adotar a “Public Option” porque a morte do senador Ted Kennedy e a subsequente perda da vaga no Senado pela eleição do republicano Scott Brown em Massachusetts privaram os democratas de uma maioria à prova de “filibuster”.

Trump abriu seu discurso com uma invocação “contra o ódio”. Lamentou o ódio conra os imigrantes, lamentou o ódio contra os judeus e lamentou o assassinato de um imigrantre indiano por um supremacista branco, na semana passada.

Mas persistiu em sua declaração de que vai erguer o “imenso muro” na fronteira sul, embora desta vez não tenha dito que vai obrigar os mexicanos a pagar por ele.

Como obrigaria?

Disse que “milhões de empregos” estão sendo criados porque está obrigando empresas americanas a trazer de volta suas montadoras para o país.

Na verdade, empresas americanas que trazem montadoras de volta para os Estados Unidos estão cada vez mais usando robôs e computadores para automatizar suas operações, contratando menos força humana.

Uma coisa Trump não disse, mas seu orçamento aumentando as despesas militares –  enquanto corta as despesas com diplomacia,  proteção ao meio ambiente e contribuição a agências internacionais como a ONU – deixa claro que muito em breve os Estados Unidos estarão envolvidos em mais uma guerra no planeta.

Vale lembrar que uma crítica que Trump fez ao governo de George W. Bush é de que ele “invadiu o Iraque mas não se apossou do petróleo”.

Na verdade, Bush pode não ter fisicamente se apoderado dos poços petrolíferos, mas deixou-os em mãos de um governo dócil às necessidades americanas.

Trump deixa claro que com ele a história será diferente. Quais são os três países na mira de seu imcremento em despesas militares?

O Irã, o Iraque e a Venezuela, todos riquíssimos em petróleo. Ele não vai simmplesmente estabelecer regilmes dóceis. Ele vai mesmo tomar o petróleo.

José Inácio Werneck , jornalista e escritor com passagem em órgãos de comunicação no Brasil, Inglaterra e Estados Unidos. Publicou “Com Esperança no Coração: Os imigrantes brasileiros nos Estados Unidos”, estudo sociológico, e “Sabor de Mar”, novela. É intérprete judicial do Estado de Connecticut. Trabalha na ESPN e na Gazeta Esportiva.

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Foi o homem quem acabou com o sonho

Porque não foi o sonho que acabou, mas o homem que escolheu o pesadelo.

Por Maria Lúcia Dahl, do Rio de Janeiro:

Depois do sonho, entramos no pesadelo
Depois do sonho, entramos no pesadelo

Estive pensando muito na minha geração, da qual fui fã e tiete. Admirei e defendi ardorosamente toda  a sua virada de mesa dentro de um contexto geral: politico, social, sexual , bissexual, feminista, libertário e até na revolução da moda , das saias, dos cabelos, reflexo imediato do pensamento revolucionário.  

Mas agora, depois de essa mesma geração estar no poder comecei a repensar nossas atitudes.  Pra mim, 68 não tinha erro, embora fosse  uma geração experimental e nem toda experiência seja fadada ao sucesso, mesmo que eu continue achando muito melhor tentar do que ficar parado, até prova em contrario.

Pra mim, 68 não tinha erro, embora fosse uma geração experimental e nem toda experiência esteja fadada ao sucesso, mesmo que em contrário.

Quando o pai da minha filha, líder estudantil e exilado político, discursava na Cinelândia, ao lado de Vladimir Palmeira, dizendo: “ Nós vamos tomar o poder”, eu me preocupava, porque os achava jovens demais, sem experiência nem prática, apenas terminando a faculdade.

Então, trinta anos depois, quando finalmente tomamos o poder, pensei: “ agora tudo vai dar certo. Está todo mundo mais velho, mais sábio, mais experiente e amadurecido em suas ideias. O que eu não podia imaginar era que, pelo menos a maioria não pensava mais daquele jeito. Como posso admitir que alguém vá preso e torturado por um ideal se realmente não acredita nele acima de tudo?  

Ninguem é crucificado pra ficar rico, privando o povo de escolas, hospitais, aposentadoria, dignidade. Isso pra mim não bate. Ou se está de um lado ou de outro. Será que, diferentemente do que eu achava, se tivessem tomado o poder quando jovens, teria sido diferente? Que só jovem tem ideologia? Que com a idade troca-se a ideologia pelo poder? Que a força  da grana, como diz Caetano, ergue e destrói coisas belas?

Que éramos apenas  sonhadores, como dizia Bertolucci? Libertários na ficção, na imaginação e que a teoria, na prática era outra ?

Por um momento fiquei confusa, até constatar que continuo acreditando nos mesmos valores: democráticos, políticos, sociais, bissexuais, feministas, libertários. Continuo acreditando em “liberdade sem medo”, que era o lema de Summerhill, o que havia de mais amoroso e avançado em matéria de educação, continuo acreditando no amor e na paz como condições definitivas para o progresso, continuo apoiando a verdade contra os fingimentos da década de 50, cheios de garçonnières, esconderijos, traições, mentiras.

Mas infelizmente, não acredito mais no ser humano. Não era o pensamento  nem o ideal da minha geração que estavam errados, ambos estavam certíssimos, e não tenho dúvidas de que pertencia a uma juventude que queria mudar o mundo de verdade.

Não acho que tenhamos sido apenas sonhadores. Nossa teoria estava certa e o sonho só acabou, como disse Lênin e depois Lennon, porque o homem continua bárbaro e não evolui  um segundo da Idade da Pedra, até agora, em matéria de consciência. Prefere a guerra, o desamor e o sofrimento em nome do dinheiro e do conforto.

Mas que conforto, se o feitiço virou contra o feiticeiro? Quem espalha miséria, sofrimento, escravidão, receberá tudo isso de volta. É a lei do retorno, da consciência, dos atos. Para que vivêssemos em paz,  bastaria amar o próximo como a nós mesmos. Por isso acho que não foi Summerhill que errou em dar liberdade sem medo às crianças , não é a opção sexual que nos faz melhores ou piores, mas o fingimento, a mentira.

Tudo o que não for verdadeiro sairá do fundo do poço, felizmente sobrando a esperança, como na caixa de Pandora. Basta saber o que fazer com ela.

Porque não foi o sonho que acabou, mas o homem que escolheu o pesadelo.

Maria Lúcia Dahl , atriz, escritora e roteirista. Participou de mais de 50 filmes entre os quais – Macunaima, Menino de Engenho, Gente Fina é outra Coisa – 29 peças teatrais destacando-se- Se Correr o Bicho pega se ficar o bicho come – Trair e coçar é só começar- O Avarento. Na televisão trabalhou na Rede Globo em cerca de 29 novelas entre as quais – Dancing Days – Anos Dourados – Gabriela e recentemente em – Aquele Beijo. Como cronista escreveu durante 26 anos no Jornal do Brasil e algum tempo no Estado de São Paulo. Escreveu 5 livros sendo 2 de crônicas – O Quebra Cabeça e a Bailarina Agradece-, um romance, Alem da arrebentação, a biografia de Antonio Bivar e a sua autobiografia,- Quem não ouve o seu papai um dia balança e cai. Como redatora escreveu para o Chico Anisio Show.Como roteirista fez recentemente o filme – Vendo ou Alugo – vencedor de mais de 20 premios em festivais no Brasil.

Direto da Redação, editado pelo jornalista Rui Martins.

Berlim distribui os Ursos

Por Rui Martins – A lista completa dos filmes premiados com Ursos no Festival Internacional de Cinema de Berlim. O filme Joaquim , como previsto, não ganhou nenhum ouro e nem prata e nem menções nos júris independentes.

Por Rui Martins, do Festival Internacional de Cinema de Berlim:

Cineasta húngara ganhou o Urso de Ouro
Cineasta húngara ganhou o Urso de Ouro

O estranho filme húngaro Sobre Corpo e Alma, da cineasta Ildikó Enyedi, no qual um homem e uma mulher têm o mesmo sonho, embora não se conheçam e só trabalhem no mesmo lugar, ganhou o Urso de Ouro de melhor filme, no festival Internacional de Cinema de Berlim.

Os sonhos ocorrem numa floresta. Maria, controladora num matadouro moderno da qualidade da carne bovina e da presença de gordura, sonha ser uma alce fêmea; Endre, o patrão do matadouro sonha ser o alce macho.

Essa coincidência de relações entre eles e o casal de alces, intriga uma psicóloga ao descobrir que ambos sonham a mesma coisa – uma atração entre os animais, que se aproximam mas não copulam. Informados pela psicóloga, ambos passam a se perguntar sobre os sonhos da noite anterior, se aproximam e chegam a dormir no mesmo quarto, a pretexto de conferir os sonhos.

Maria tem tudo de uma mulher fria, solitária, que, mesmo na cantina, procura ficar só para comer. Tem tudo de uma frígida, que vê pornografia por curiosidade e não par se excitar. Endre procura entrar nesse mundo frio e reservado.

Esse mesmo tema de mulher frígida ou com problemas de relacionamento sexual surgiu no filme romeno Ana Meu Amor, revelando ser provavelmente uma consequência do isolamento das pessoas na sociedade moderna.

O Urso de Prata do Grande Prêmio do Júri foi para o filme do cineasta franco-senegalês Alain Gomis, Félicité, nome de uma mulher congolesa em Kinshasa, cantora num bar, cujo filho motoqueiro sofre um acidente e perde uma perna. Entre cantos e músicas, perda de emprego, falta de dinheiro para tratar do filho, Félicité, cujo nome quer dizer felicidade, se mantém forte, decidida, lutadora, social e exuberante, nada tendo a ver com a Maria apagada e fria do filme Urso de Ouro.

O terceiro prêmio pela ordem de importância, é o Urso de Prata Prêmio Alfred Bauer para filmes que trazem alguma inovação. No caso, o filme da polonesa Agniezka Holland, cujo título A Pista, consiste numa trama entre policial e naturalista, envolvendo uma engenheira aposentada Duszejko, vivendo numa região montanhosa perto da fronteira com a República Checa.

Vidrada em astrologia, ela garante poder dizer a data de sua morte, com base na data do seu nascimento e signo astral. Bem na moda, ela é vegetariana e não suporta temporadas de caçadores, de carnívoros em geral e muito menos quem mata cachorro para medir a pontaria. Por isso, fotos de caçadores com seus troféus podem se transformar num guia para assassinatos em série, cometidos discretamente e de maneira orgânica e biológica.

O Urso de Prata de Melhor Direção foi para o filme o Outro lado da Esperança, dirigido pelo finlandês Aki Kaurismaki, no qual o papel principal é de um sírio clandestino acolhido por um dono de restaurante, enquanto a Finlândia se alinha entre os países sem solidariedade.

O Urso de Prata de melhor interpretação feminina foi para a coreana Kim Minhee, no filme Sozinha de Noite na Praia, de Hong Sangsoo.

O Urso de Prata de melhor interpretação masculina foi para Georg Friedrich, no papel de um pai numa viagem pelas montanhas desertas norueguesas, junto com o filho que o detesta por ter se separado da mãe. Filme Noites Claras, de Thomas Arslan.

O Urso de Prata do Melhor Roteiro foi para Sebastian Lelio e Gonzalo Maza, pelo filme transgênero Uma Mulher Fantástica de Sebastian Lelio, com a atriz  transsexual Daniela Vega.

O Urso de Ouro para o melhor curta-metragem foi para o cineasta português Diogo Costa Amarante com o filme Cidade Pequena.

O filme Pendular, de Julia Murat, ganhou o premio da crítica internacional FIPRESCI.

Como previmos, o filme brasileiro Joaquim não ganhou nenhum prêmio, nem dos oficiais  e nem dos júris independentes.

Depois das manifestações político-partidárias em Cannes, Locarno e agora em Berlim, fica nossa sugestão para os cineastas e atores brasileiros suspenderem essas iniciativas que vão se tornando ridículas e, se continuarem, acabarão virando piada. Deixem o manifesto, as faixas e os slogans para quando o filme ganhar algum prêmio, não antes. Não utilizem pretextos políticos para chamar atenção sobre seus filmes.

Rui Martins esteve em Berlim, convidado pelo Festival Internacional de Cinema.

Blockbuster Logan encerra Festival de Cinema de Berlim

No Festival Internacional de Cinema de Berlim não há só filmes de arte. desta vez, foi um blockbuster (filmes de alto custo de produção e rendimento destinados ao grande público) americano, Logan, que encerrou a principal mostra, a da Competição Internacional, mas sem dela participar.

Por Rui Martins, do Festival Internacional de Cinema de Berlim:

Festival termina com um blockbuster
Festival termina com um blockbuster

Logan é o terceiro filme da série criada e dirigida por James Mangold, especialista super heróis. Tem um enorme sucesso de bilheteria, principalmente junto ao público jovem, tanto que o cinema exibido para a crítica e a sala reservada para a coletiva ficaram lotados.

O filme mostra Logan, um mutante dotado de extraordinária força e resistência, mas vivendo, na maturidade, uma vida comum de chofer de táxi e ligado ao álcool.

Embora não tendo pretensões políticas, o filme mostra algumas coincidências. É uma mexicana quem vai pedir ajuda a Logan, pois uma adolescente Laura está ameaçada perto da fronteira com o México e deve ser levada para a fronteira com o Canadá. Laura é mutante, também com capacidades especiais, uma verdadeira arma de guerra. Perto da fronteira canadense vive um grupo de adolescentes com os mesmos poderes, criados pelo mesmo programa, e agora ameaçados de extinção.

O filme, já destinado nos EUA, a um público maior de 18 anos, tem cenas de grande violência, o que fez um dos críticos a afirmar que não levaria sua filha para ver, criando um certo constrangimento. Ao mesmo tempo, diante da presença de adolescentes que participam das lutas e mortes, perguntou o crítico como James Mangold via o uso de atores menores em filmes de extrema violência.

Mangold argumenta que, embora a limitação da idade dos espectadores para maiores de 18 anos, limite também a bilheteria, tem um efeito positivo: o realizador e sua equipe podem fazer o filme com maior liberdade, sem a preocupação do que poderia causar tal cena de violência numa criança menor. Em outras palavras, essa preocupação com cenas de violências passa a ser dos pais, ele tem outra preocupão: a de fazer um bom filme do gênero.

Quanto às crianças participando do filme, Mangold disse não se confundir as cenas do cinema com o visto no local das filmagens. A percepção é outra e, nas pausas de filmagens, as crianças eram tratadas com a maior atenção e afeto, tendo havido muitos jogos e entretenimento nas longas pausas sem entrar em cena.

O ator Hugh Jackman (Logan) desconhece esse tipo de preocupação, pois afirma que ao chegar aos 80 anos, irá dar aos seus netos esse terceiro filme da série por considerá-lo o melhor e o mais bem acabado. Para ele, as histórias de super heróis são uma maneira de se sair do cotidiano humano.

James Mangold contou ser um viciado em histórias em quadrinhos desde a adolescência, fontes de inspiração para seus filmes.

Amanhã serão conhecidos os filmes vencedores nas diversas competições.

Rui Martins está em Berlim, convidado pelo Festival Internacional de Cinema.

Berlim, nem Joaquim e nem Marcelo acharam o ouro

Há um aspecto bastante positivo no filme Joaquim – é quando ele insere os escravos, que eram vítimas do colonizador mas igualmente dos brancos brasileiros que formariam mais tarde a elite branca dominante.

Por Rui Martins, do Festival Internacional de Cinema de Berlim:

Paradoxo: Tiradentes queria a independência mas não o fim da escravidão

Joaquim, o personagem principal do filme brasileiro no Festival Internacional de Cinema de Berlim, não achou o ouro tão desejado pelo colonisador português. Marcelo Gomes, o realizador, também não. Mas o filme tem um filão precioso: o de incorporar a presença negra, no relato do episódio histórico daquela que seria a primeira tentativa de rebelião contra Portugal.

Porque, geralmente, quando se fala em libertação brasileira da colonização portuguesa são esquecidos os escravos, submetidos tanto aos portugueses quanto aos brasileiros da elite branca em formação. Ao criar a figura imaginária de Preta, a mulher por quem se apaixonara Joaquim, o realizador Marcelo Gomes, criou na condição da escrava que  Joaquim não podia comprar, o fator detonador da revolta de Titadentes.

Como costuma ocorrer, as explicações e mesmo um certo debate do realizador com a crítica, na tradicional entrevista coletiva posterior à exibição do filme, completaram a compreensão de alguns aspectos da nossa colonização, não muito claros no filme. Durante algumas dezenas de minutos, o filme se perde no garimpo do ouro, tornando-se mesmo um documentário desnecessário.

Marcelo Gomes na apresentação do filme descreveu a colonização portuguesa com uma das piores, provocando explicações contrárias de um crítico de origem eritreia, que enumerou os excessos cometidos pelos italianos contra as populações africanas. A própria produtora portuguesa e um crítico português reagiram contra à má catalogação dos colonizadores portugueses. Na verdade, não existiram bons ou menos maus colonizadores, tanto espanhóis, holandeses, ingleses, italianos como franceses tratavam os colonizados como seres inferiores, igualando-se embora de maneiras diversas nas suas políticas e crueldades.

Embora critique o filme, convido a ouvir o anexo em MP3, minha declaração durante a entrevista coletiva sobre uma parte do filme bastante positiva- a participação do negro no processo da independência brasileira. clicar no anexo em MP3: 170216_002

Rui Martins está em Berlim convidado pelo Festival Internacional de Cinema.

Filme mostra, em Berlim, a crise portuguesa

A cineasta portuguesa Teresa Villaverde estreou seu filme Colo, no Festival Internacional de Cinema de Berlim, afirmando que a crise não é só econômica mas igualmente de falta de comunicação entre as pessoas, decorrente da primeira.

Por Rui Martins, do Festival Internacional de Cinema:

Crise em Portugal é muito mais grave do que se pensa
Crise em Portugal é muito mais grave do que se pensa

A lusofonia este ano bateu um recorde no Festival Internacional de Cinema de Berlim – são 18 filmes brasileiros e portugueses nas diversas competições.

Nesta quarta-feira, foi a vez do longa-metragem da cineasta portuguesa Teresa Villaverde, Colo, mostrando a repercussão da crise econômica numa família portuguesa. O filme tem o título de Colo que, entre coisas quer dizer afeto, porque – diz Villaverde – falta também afeto no casal e filha do seu filme.

Para ela, a crise não é só econômica, mas envolve igualmente um clima de falta de comunicação, porque se de um lado gera o desemprego, outra pessoas são obrigadas a acumular empregos, faltando-lhes tempo para curtir a família.

No filme Colo, o desemprego leva o pai ao desespero e a filha não avalia a gravidade da crise vivida pela família, onde até a luz é cortada por falta de pagamento. Filmado na maior parte do tempo nos interiores e sem muita luz, Colo transmite a sensação de falta de perspectivas de seus personagens.

Teresa Villaverde permanece fiel aos filmes de cenas longas que sempre caracterizam as produções portuguesas. Uma exceção foi, há quatro anos e também com estreia em Berlim,o filme Tabu, de Miguel Gomes, com uma agilidade ainda rara no cinema português.

Embora o tema de Colo seja dos melhores, o     que a crítica chamou de “silêncios”, os planos fixos demorados e a falta de movimento em contraposição às cenas mais rápidas da moderna cinematografia, não foram bem recebidos pela crítica internacional que abandonou a projeção e não foi à coletiva para a imprensa.

Resta a questão da pronúncia do português da antiga metrópole, diferente da maneira mais aberta própria do “brasileiro”, que dificultará sempre a comercialização dos filmes portugueses no Brasil, o mesmo não ocorra com os filmes brasileiros em Portugal, haja visto o sucesso das telenovelas da Globo.

Ocorre praticamente o mesmo com os filmes canadenses, cuja pronúncia é fiel ao francês antigo, geralmente com legendas nas exibições na França. Talvez por influência das telenovelas, a pronúncia portuguesa nas antigas colonias é mais próxima do “brasileiro”.

Rui Martins está em Berlim convidado pelo Festival Internacional de Cinema.

Cineasta Kaurismaki defende refugiados em Berlim

Bastante esperado, o novo filme do cineasta finlandês Aki Kaurismaki  conta como um refugiado sírio chegou à Finlaândia, onde se tornou clandestino com documentos falsos, numa vibrante defesa dos refugiados. Um dos filmes favoritos ao Urso de Ouro.

Por Rui Martins,  do Festival Internacional de Cinema de Berlim:

Os dois personagesns do filme de Kaurismaki, o refugiado clandestino e o empresário
Os dois personagesns do filme de Kaurismaki, o refugiado clandestino e o empresário (DR)

O cineasta finlandês Aki Kaurismaki fez uma clara defesa dos refugiados no encontro com a crítica, chegando a elogiar a chanceler Angela Merkel ” a única política que se mostrou realmente interessada pelos refugiados, criticando a minoria finlandesa que insiste em estigmatizar os estrangeiros e mesmo a agredi-los fisicamente.

Pouco antes, seu novo filme O outro lado da esperança” tinha sido mostrado para a crítica, recebido com aplausos. O filme conta a história de duas pessoas diferentes, cujas vidas se cruzem num determinado momento.

A primeira é Khaled, refugiado sírio que consegue chegar à Europa, via Grécia, faz enormes caminhadas com outros refugiados, depois da Hungria ter fechado suas fronteiras. Com a confusão gerada, acabou perdendo de vista sua irmã, que fugira com ele da Síria. Chega à Finlândia de navio, escondido no compartimento de carvão.

Vai rapidamente se apresentar à polícia para pedir o estatuto de refugiado. Entretanto, o serviço de emigração rejeita sua demanda pretextando não haver perigo e nem clima de guerra em Alepo, onde vivia. Por ironia dasorte, nesse mesmo dia o telejornal finlandês mostra Alepo sendo bombarbeada com morte de civis.

O outro personagem é um empresário finlandês deixando o ramo das confecções para homens para se dedicar ao setor de restaurantes. É quando encontra Khaled, imigrante clandestino, e o emprega no restaurante, pagando a um especialista a fabricação de um documento de residente provisório.

“Eu gostaria de poder mudar o mundo, disse Kaurismaki para a crítica. Mas meus filmes são contribuições muito pequenas, por isso me contento em tentar mudar os finlandeses. a participação de todos é importante porque se tivesse sido maior, nos anos 30, poderia ter evitado a Segunda Guerra”.

No ano de 1490, a região de Sevilha, na Espanha, vivia em paz até ser criada a lei para se expulsar árabes e judeus, disse Kaurismaki referindo-se à decretação da Inquisição. até faz pouco tempo, havia na Europa uma posição clara em defesa dos valores humanitários, mas isso começa a desaparecer com o surgimento da intolerância”

Kaurismari informou também ter mudado seu projeto de uma trilogia sobre os portos. “será uma trilogia sobre os refugiados”.

Diante da força das imagens do novo filme de Aki Kaurismaki e levando-se em conta ser Berlim um Festival de preocupações políticas, O outro lado da esperança está entre os favoritos ao Urso de Ouro.

Rui Martins, estä em Berlim conviado pelo Festival Internacional de Cinema.

O desafio de Berlim com filme transsexual

O filme Gloria, de Sebastian Lelio, ganhou o Urso de Prata de melhor interpretação feminina

“Será que os espectadores estão preparados para ver um filme com uma transsexual no papel principal? Eu acho que não”, diz o cineasta Sebastián Lelio, realizador do filme que é também uma provocação até no título Uma Mulher fantástica.

Por Rui Martins, do Festival Internacional de Cinema de Berlim:

A mulher personagem do filme é a amante de um empresário, que morre subitamente de um aneurisma; a mulher atriz do filme é a colombiana Daniela Vega, ambas são transsexuais.

O filme Gloria, de Sebastian Lelio, ganhou o Urso de Prata de melhor interpretação feminina
O filme Gloria, de Sebastian Lelio, ganhou o Urso de Prata de melhor interpretação feminina

Sebastian Lelio é conhecido em Berlim, onde seu terceiro filme Glória, ganhou o Urso de Prata de melhor interpretação feminina. Para ele, fazer filme com personagem principal feminino é alguma coisa intuitiva. fora a fascinação e a atração provocada por filmar alguém diferente de sua condição masculina.

Assim como Glória, a mulher fantástica Marina é do gênero forte, marcante e autosuficiente, como definiu a atriz Daniela Vega sua personagem, vítima de acusações e perseguições da família do amante falecido, por ser algo diferente dentro dos conceitos admitidos.

Marina era a amante do empresário Orlando, que provocara a separação do casal legal, mas não era uma amante como tantas outras existentes nas melhores famílias burguesas. Marina tinha nascido homem e se transformara numa mulher, bela mulher por sinal, era uma transsexual, fazendo parte, portanto, do catálogo de rejeições dos conservadores. E isso inclui não apenas pessoas, como religiões e mesmo países, que confundem transsexualismo como homossexualismo.

Durante a entrevista com a crítica, o cineasta Sebastián Lelio aproveitou para se pronunciar em favor das difrenças sexuais. “Nosso mundo ocidental parece ser mais civilizado e defende uma bandeira humanista que aceita nossas diferenças inclusive sexuais. Mas as famílias burguesas talvez não estejam preparadas para aceitar a inclusão na família dos transsexuais”.

E diante do surgimento do populismo, mesmo sem citar Donald Trump, Sebastián Lelio coloca uma questão atual: “Como sociedade global vivemos um momento delicado, diante da contracorrente que ameaça fazer recuar todos os avanços por nós obtidos nos últimos tempos. que mundo estamos construindo: um mundo de muralhas e guetos ou um mundo de inclusão e vida comum? Assistimos atualmente ao choque dessa colisão de forças e de energias. E o resultado dirá para onde iremos, não só no Chile mas no mundo inteiro, sobre os amores possíveis e impossíveis. Meu filme não pretende dar uma resposta para tudo, mas quer saber qual será a reação dos espectadores”.

Na linha das provocações, Daniela Vega, respondendo a uma resposta sobre qual seu próximo papel, responde: “gostaria de viver o papel de uma mulher grávida”.

Qual a história do filme Uma Mulher Fantástica, que irá provocar reações e escândalos?

Um empresário de 57 anos, Orlando, tem um caso de amor com Marina, mulher transsexual, com quem vive e pela qual rompeu o casamento legal. No aniversário de Marina, bem mais nova, depois de uma comemoração no restaurante e de terem se amado, Orlando acorda de noite se sentindo mal, acaba rolando pela escada e, embora levado ao hospital com urgência, morre.

Marina não é aceita como uma amante de Orlando, cuja família lhe impede mesmo de ir à cerimônia do entêrro. Num encontro no qual Marina entrega a chave do carro de Orlando à esposa legal, esta lhe fala que a opção de Orlando poderia ser considerada uma perversão.

Rui Martins está em Berlim, convidado pelo Festival Internacional de Cinema.