Amigo de Temer conta história bem diferente a Moro para livrar Padilha

Temer e Yunes declaram-se amigos de longa data e dividem um histórico de negócios muito bem sucedidos

Caso prevaleça essa versão do amigo de Temer, Padilha estaria distante dos fatos e caberia a Cunha, em última análise, responder por mais este crime

Por Redação – de São Paulo

A versão do empresário José Yunes, amigo e ex-assessor do presidente de facto, Michel Temer, de que teria sido ‘mula’ do chefe da Casa Civil afastado Eliseu Padilha, não bate com o depoimento do ex-diretor da Odebrecht José Carvalho Filho. Ele teria autorizado o pagamento de R$ 4 milhões, dos R$ 11 milhões negociados, diretamente, com o dono da empreiteira, Marcelo Odebrecht, num jantar com Temer e Padilha. Temer saiu da sala e deixou Padilha para negociar a divisão do butim, confessou o ex-executivo em sua delação premiada.

Quadrilha

Temer e Yunes declaram-se amigos de longa data e dividem um histórico de negócios muito bem sucedidos
Temer e Yunes declaram-se amigos de longa data, com um histórico de negócios muito bem sucedidos

No repasse do dinheiro, Carvalho Filho disse aos investigadores da Operação Lava Jato, em uma versão vazada para a mídia conservadora, que um operador da Odebrecht levou uma parte dos recursos combinados ao escritório de advocacia de Yunes, em São Paulo. O mensageiro, porém, não era o doleiro Lúcio Funaro. Este seria ligado ao presidiário Eduardo Cunha, ex-deputado do PMDB fluminense. O ex-executivo foi chamado a depor, nesta sexta-feira, para explicar melhor a história de José Yunes.

Caberá ao preposto da empreiteira citar o nome do homem que transportou um pacote de dinheiro, supostamente, ao escritório de Yunes, no centro financeiro da capital paulista, em 2014, que procurou, espontaneamente, a Procuradoria-Geral da República (PGR) para detalhar, segundo seu ponto de vista, o trânsito de recursos obtidos de forma criminosa, da principal empresa que integrou a quadrilha montada para desviar recursos da Petrobras.

Dinheiro sujo

Yunes disse aos investigadores que Lúcio Funaro, ligado Cunha, deixou um pacote a seu escritório a pedido de Padilha. Garantiu, no entanto, desconhecer o conteúdo. Caso prevaleça essa versão, Padilha estaria distante dos fatos e caberia a Cunha, em última análise, responder por mais este crime.

Carvalho Filho admite a entrega do pacote e informa que continha cerca de R$ 1 milhão, em notas de R$ 100, segundo versão passada à mídia aliada ao governo. Mas quem levou o dinheiro ao escritório de Yunes foi um funcionário do Departamento de Operações Estruturadas (propinas). E ele não era Lúcio Funaro.

Quem citou Carvalho Filho à polícia foi Cláudio Melo Filho, em depoimento ao TSE na segunda-feira. Segundo Melo Filho, cabia a José Filho distribuir os R$ 4 milhões iniciais, do total de R$ 11 milhões, para o PMDB comandado por Michel Temer, nas eleições de 2014. Uma outra parte desses recursos foi entregue, segundo o ex-executivo, no escritório de Padilha, na capital gaúcha, alguns dias depois.

A história contada por Yunes foi negada também por Funaro, que também presta uma delação premiada à PGR. encaminhou ofício em que pede para prestar depoimento. Ele nega ter feito qualquer entrega no escritório do amigo de Temer. Seus advogados disseram a jornalistas que ele pretende processar Yunes por calúnia e difamação, pelas declarações prestadas, em juízo. Funaro está preso, em Curitiba, por determinação do juiz Sérgio Moro. Funaro admite que esteve, certa vez, no escritório de Yunes, mas a agenda não incluía um pacote milionário.

As respostas

José Yunes afirmou aos vários jornalistas que o procuraram, nesta manhã, por meio de seu advogado, que “jamais recebeu qualquer documento de algum representante da empresa Odebrecht”.

“(Yunes) não sabe, não conhece, nunca viu a pessoa de José Filho. A única pessoa que esteve em seu escritório foi o senhor Lúcio Funaro. Conforme esclareceu à PGR, José Yunes está à disposição para prestar qualquer outro esclarecimento. Inclusive uma acareação, conforme ele mesmo já se antecipou em dizer em sua declaração”, disseram os defensores, em nota.

José Padilha ainda não se manifestou sobre o assunto. Ele evita a pauta desde que Yunes falou à PGR. Quanto à delação de Cláudio Melo, em dezembro, negou qualquer irregularidade.

O advogado de Lúcio Funaro, Bruno Espiñera, diz que seu cliente “jamais foi operador da Odebrecht”. E “jamais foi levar dinheiro da construtora” no escritório de José Yunes.

O vergonhoso convite da Hebráica carioca ao Bolsonaro

Nota do Editor – Existem iniciativas que são imperdoáveis – é o caso do convite da Hebráica do Rio de Janeiro ao deputado Jair Bolsonaro para pronunciar uma palestra aos seus associados. Luiz Mairovitch, presidente da Hebráica carioca, fez esse convite depois da Hebráica paulista ter cancelado o convite, e, segundo a Folha, Mairovitch tem mesmo simpatia pelo homofóbico, machista e defensor dos torturadores do regime militar, regime que torturou e matou, em 1975, o jornalista Vladimir Herzog. Realmente, Hanna Arendt tinha razão ao falar em banalização do mal. Esse convite não só é vergonhoso como um insulto a todos os judeus que tombaram na luta contra o nazismo e contra a ditadura militar brasileira, como Iara Iavelberg. Rui Martins, editor.

Por Mário Augusto Jakobskind, do Rio de Janeiro:

A Hebráica insulta a emória de Vladimir Herzog e Iara Iavelberg
A Hebráica do Rio de Janeiro insulta a memória de Vladimir Herzog e de Iara Iavelberg

O extremista Jair Bolsonaro está sendo convidado pela Hebraica do Rio de Janeiro a participar de um debate. É vergonhoso que isso aconteça, na prática uma afronta a tantas vítimas de atrocidades cometidas no Brasil e durante o nazismo na Alemanha. Uma afronta a figuras como Vladimir Herzog, assassinado pela mesma ditadura que Bolsonaro apoia até hoje elogiando torturadores, como aconteceu na Câmara dos Deputados quando o parlamentar homenageou a figura do assassino Brilhante Ustra na votação do impeachment de Dilma Rousseff.

É vergonhoso uma entidade judaica dar espaço a um facínora nazifascista defensor público de torturadores. Não se pode aceitar. É mais do que necessário pressionar a direção da Hebraica-RJ a voltar atrás. Se na fizer isso, sob o falso argumento de que pretende ouvir todos os lados, a Hebraica simplesmente repetirá o erro histórico proporcionado por alguns segmentos da colônia judaica na Alemanha, que chegaram no início da ascensão nazista, a apoiar Adolf Hitler, inclusive realizando entrevista com o assassino chefe dos nazistas em publicações judaicas.  E deu no que deu.

Recentemente, em um programa da comunidade judaica intitulado Menorah, foi dado grande espaço à família Bolsonaro, inclusive com imagens do defensor de torturadores quando visitava Israel.

Na comunidade judaica vozes se levantaram em São Paulo contra o convite feito a Bolsonaro pela Hebraica-SP. A mobilização levou a diretoria a voltar atrás e suspender a atividade que seria uma grande vergonha se fosse realizada.

Agora, a tentativa de levar adiante a atividade vergonhosa de dar espaço a um também racista, volta à tona. É mais do que lamentável que uma comunidade que foi tão discriminada ao longo da história, repita o erro ocorrido no início da ascensão do nazismo. Se não se corta o mal pela raiz, o mal pode avançar e em breve espaço de tempo atingir exatamente quem lhe deu a mão.

Ou alguém tem dúvidas sobre o que representa Bolsonaro? Uma pergunta que deve ser feita à comunidade judaica: ter ido a Israel absolve um defensor de torturadores de alguma coisa?   

O fato pode remeter também a outra discussão. Ao se criticar a política de guerra do atual governo de Israel, apoiado pelo racista Donald Trump, não é um dever de todos que pelo mundo defendem os direitos humanos? Por que o silêncio ou mesmo o apoio a um governo que comete tantas atrocidades contra os palestinos? Bolsonaro deve ser um apoiador incondicional, como Trump, desse tipo de procedimento e por isso a Hebraica deve convidá-lo para debater?

Esse raciocínio revela ignorância histórica e a vitória do senso comum, o que não pode se tolerado por quem se propõe a defender os direitos humanos em qualquer parte do mundo.

Nesse sentido, a comunidade judaica do Rio de Janeiro e os defensores dos direitos humanos de um modo geral devem cerrar fileiras e se mobilizar para impedir que seja concedido espaço a uma figura que pode amanhã com maior poder repetir os métodos do nazismo. Até porque, quem apoia publicamente torturadores é capaz de tudo em matéria de violação dos direitos humanos.

Mário Augusto Jakobskindjornalista e escritor, correspondente do jornal uruguaio Brecha; membro do Conselho Curador da Empresa Brasil de Comunicação (TvBrasil). Consultor de História do IDEA Programa de TV transmitido pelo Canal Universitário de Niterói, Sede UFF – Universidade Federal Fluminense Seus livros mais recentes: Líbia – Barrados na Fronteira; Cuba, Apesar do Bloqueio e Parla , lançados no Rio de Janeiro.

Direto da Redação é um fórum democrático de debates editado pelo jornalista Rui Martins.

Como deter o avanço do fascista Bolsonaro

Por Celso Lungaretti, de São Paulo:

Bolsonaro é uma perigosa ameaça à nossa democracia
Bolsonaro é uma perigosa ameaça à nossa democracia
Às vezes me sinto como a Cassandra troiana, amaldiçoada com a indiferença do seu povo aos alertas que lançava, tão corretos quanto inúteis em termos práticos.
 
No segundo semestre de 2014, p. ex., eu já tinha percepção clara de que o novo mandato presidencial transcorreria sob aguda recessão. Tudo fiz para abrir os olhos da companheirada, no sentido de que Dilma Rousseff não tinha competência para administrar uma crise dessas e seu fracasso anunciado seria catastrófico para a esquerda brasileira. 
 
Vi como preferível, primeiramente, a candidatura de Marina Silva, pois, com ela no poder, a responsabilidade pelo desastre econômico ficaria ao menos diluída. 
 
Depois que Marina foi destruída pela mais torpe campanha de calúnias e falácias já vista na política brasileira, incentivei o Volta Lula!, pois ele, com todos os defeitos, ainda seria capaz de amenizar um pouco a devastação que se prenunciava. Mas, os petistas vacilaram miseravelmente, encaminhando-nos para a perda total.
 
Mal assumiu, Dilma jogou as promessas de campanha no lixo e empossou o neoliberal Joaquim Levy como ministro da Fazenda. Imediatamente lembrei que estava repetindo o erro de João Goulart, cujas tentativas de adotar a política econômica do inimigo sempre foram inviabilizadas pelo fogo amigo do Brizola e do PCB, lançando o país na confusão e preparando o terreno para a intervenção militar. Dito e feito, Dilma também acabaria sendo derrubada, desta vez não pelos tanques, mas por um peteleco parlamentar.

Tão logo a Câmara Federal aprovou a abertura do processo de impeachment, escrevi que a batalha no Congresso já estava perdida e o único contra-ataque com alguma possibilidade de êxito seria sua imediata renúncia, seguida pelo lançamento de uma nova campanha por diretas-já, unindo toda a esquerda. Mas, Dilma, sempre berrando que não iria cair, marchou de derrota em derrota até o mais amargo fim.

Fiz esta introdução porque novamente há um cenário horroroso se desenhando no horizonte e a esquerda está fazendo tudo errado mais uma vez.
 
Ao invés de depurar-se e reciclar-se como é inescapável após fiascos tão acachapantes como o de 2016, continua apostando no populismo, ao lançar uma campanha sebastianista pela candidatura de Lula que é simplesmente asnática: a direita, por via judicial, o fulminará quando bem entender.
 
E não percebe que, se o confronto for entre o populismo decadente do Lula e o populismo ascendente de Jair Bolsonaro, afinado com o espírito da era Trump, é o segundo que prevalecerá.
 
As lambanças do PT já levaram a direita ao poder. Se persistirem, acabarão conduzindo um fascista explícito ao Palácio do Planalto, enquanto quatro centenas de signatários de um manifesto altamente inoportuno ficarão tentando justificar sua estreiteza de visão política.
 
Eis os trechos principais de um artigo do Vladimir Safatle que dá uma boa noção do inimigo que temos pela frente:

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UM FASCISTA MORA AO LADO
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Por Vladimir Safatle
…poderíamos dizer que todo fascismo tem ao menos três características fundamentais.
 
Primeiro, ele é um culto explícito da ordem baseada na violência de Estado e em práticas autoritárias de governo. 
 
Segundo, ele permite a circulação desimpedida do desprezo social por grupos vulneráveis e fragilizados. O ocupante desses grupos pode variar de acordo com situações históricas específicas. Já foram os judeus, mas podem também ser os homossexuais, os árabes, os índios, entre tantos outros. 
 
Por fim, ele procura constituir coesão social através de um uso paranoico do nacionalismo, da defesa da fronteira, do território e da identidade a eixo fundamental do embate político.
 
Neste sentido, não seria difícil demonstrar todo o fascismo ordinário do sr. Bolsonaro. Sua adesão à ditadura militar é notória, a ponto de saudar e prestar homenagens a torturadores. Não deixa de ser sintomático que pessoas capazes de se dizerem profundamente indignadas contra a corrupção reinante afirmem votar em alguém que louva um regime criminoso e corrupto como a ditadura militar brasileira (vide casos Capemi, Coroa-Brastel, Paulipetro, Jari, entre tantos outros).
 
Bem, quem começa tirando selfie com a Polícia Militar em manifestações só poderia terminar abraçando toda forma de violência de Estado.
 
Por outro lado, sua luta incansável contra a constituição de políticas de direito, reparação e conscientização da violência contra grupos vulneráveis expressa o desprezo que parte da população brasileira sempre cultivou, mas que agora se sente autorizada a expressar.
 
Por fim, o primarismo de um nacionalismo que expressa o simples culto do direito secular de mando, algo bem expresso no slogan devolva o meu país, fecha o círculo.
 
Ora, o fato significativo é que a maioria da classe média brasileira, com sua semi-formação característica, assumiu de forma explícita uma perspectiva simplesmente fascista.
 
Ela operou um desrecalque, já que até então se permitia representar por candidatos conservadores mais tradicionais. Essa escolha é resultado de uma reação à desordem e à abertura produzida pela revolta de 2013.
 
Todo evento real produz um sujeito reativo, sujeito que, diante das possibilidades abertas por processos impredicados, procura o retorno de alguma forma de ordem segura capaz de colocar todos nos seus devidos lugares. Nesse contexto, a última coisa a fazer é acreditar que devamos dialogar com tal setor da população.
Faz parte de um iluminismo pueril a crença de que o outro não pensa como eu porque ele não compreendeu bem a cadeia de argumentos. Logo, se eu explicar de forma pausada e lenta, você acabará concordando comigo.
 
Bem, nada mais equivocado. O que nos diferencia é a adesão a forma de vida radicalmente diferentes. Quem quer um fascista não fez essa escolha porque compreendeu mal a cadeia de argumentos. Ele o escolheu porque adere a formas de vida e afetos típicos desse horizonte político. Não é argumentando que se modifica algo, mas desativando os afetos que sustentam tais escolhas.
 
De toda forma, há de se nomear claramente o caminho que parte significativa dos eleitores tomou. Essa radicalização não desaparecerá, mas é embalada pelo espírito do tempo e suas regressões. Na verdade, ela se aprofundará. Contra ela, só existe o combate sem trégua
 
Celso Lungaretti, jornalista e escritor, foi resistente à ditadura militar ainda secundarista e participou da Vanguarda Popular Revolucionária. Preso e processado, escreveu o livro Náufrago da Utopia (Geração Editorial). Tem um ativo blog com esse mesmo título.

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Quando os índios davam bordunadas

Nosso colunista dá um mergulho no passado e lembra agosto de 1980, quando índios reagiram contra a invasão de suas terras por posseiros, e republica um entrevista histórica com Raoni, o mesmo que, no Carnaval, defendeu, no Sambodromo, os índios ameaçados pelo agronegócio.

Por José Ribamar Bessa Freire, de Niterói, RJ:

De 1980 para cá, mesmo durante o governo petistaq, as reservas indígenas sempre foram invadidas por posseiros
De 1980 para cá, mesmo durante o governo petista, as reservas indígenas sempre foram invadidas

Oito de agosto de 1980. Meio dia. Cerca de 20 peões, a mando de um fazendeiro, armados com motosserras, derrubavam árvores no Norte do Xingu. Já haviam sido advertidos que ali era área indígena. Reincidiram. Onze deles foram, então, mortos abordunadas numa ação unificada de noventa índios de seis nações, que teve repercussão internacional. Dias depois, Paulo Suess e eu entrevistamos para o Porantim vários líderes indígenas que negociavam em Brasília a paz com o general Nobre da Veiga, presidente da FUNAI. Entre eles, Raoni, que deu parte da entrevista num quartinho na Casa do Ceará, onde estava hospedado. Uma aula de sabedoria, de diplomacia, de solidariedade e de humor que merece ser reproduzida aqui no momento em que Raoni acaba de defender o Xingu no sambódromo do Rio. Em alguns trechos, mantivemos marcas da oralidade e do português xinguano.

UMA ENTREVISTA COM RAONI: LIBERDADE FICA COMIGO

P. Como é que onze peões foram mortos de repente? Quando começou esse conflito?

R. Quando fazendeiro começou a derrubar o mato, faz tempo. Fazendeiro derrubou dois km. de mato aqui (indica com o dedo no mapa perto do posto de Jarina). Então o meu povo foi caçar. Ai, o Bedjai, meu sobrinho, foi lá e escutou o barulho da moto-serra. Aí ele perguntou para o Aníbal (o balseiro da Br-080). O Aníbal disse: eu escutei barulho de moto-serra. Então o Bedjai contou pra mim, né: “Olha, tem gente derrubando mato lá no Piraraju”. Então eu fui com o branco, o Aníbal, mais seu companheiro. Nós descemos aqui (indica no mapa). Aí encontramos o pessoal derrubando mato. Chegamos lá, os caras com medo de mim, tudo com medo de mim. Falei pra eles: “Não, não tem medo não. Pode voltar aqui que eu quero falar com você”. Então, ele voltou. O Aníbal conversou com ele, depois eu conversei com ele assim: “Você pode procurar outro lugar, pode encontrar mato, terra, pode fazer roça, fazer casa, plantar capim, criar boi. Mas fora daqui. Aqui não! Aqui você não pode voltar mais, você não pode fazer isso na beira do Xingu”. Então o cara falou pra mim: “Você é o dono das terras, né, mas foi patrão nosso que mandou a gente trabalhar aqui”. Então eu disse: “Essa terra é nossa mesmo. Aí eles saíram, arrumaram as coisas e foram embora. Nós voltamos pra aldeia e falamos pra Funai, pro diretor do Parque, o Cico (Chico, Francisco de Assis Silva, administrador do PNX).

P. Quer dizer que a Funai já sabia de tudo há muito tempo? Então, porque não fez nada para impedir a guerra?

R. É. Um dia o diretor do Parque foi lá, o Cico. Nós descemos junto com ele. Procuramos, procuramos e não encontramos ninguém no acampamento que estava desmatando. Então, o diretor do Parque falou pra mim: “Eu já vou embora, mas aqui a terra é de vocês”. Ele falou assim e foi embora.

P. Ele não resolveu nada?

R. Não.

P. O que você fez?

R. Dez dias depois subi pra outro lugar, pro Diauarum. Eu fiquei esperando pra mim visitar o presidente da Funai e contar tudo pra ele. Então eu mandei o rádio duas vezes pro presidente da Funai mandar avião pra mim ir falar com ele. Esperei três semanas, o avião não foi lá. Então tava aqui no Diauarum um primo meu, o Moikora. Ai ele disse que os caras tinham voltado pra derrubar o mato. Aí ele foi e contou pro pessoal lá. Então o Bedjai – ele fala rádio, né? – contou pra mim: “Meu tio, os caras já voltou de novo, não foi embora não”. Então ele perguntou pra mim: “Meu tio, o que a gente pode fazer?”  Aí eu falei: “Você que sabe”. Ai ele falou: “Não, você que toma conta de nós, você que sabe”. Aí eu pensei, né: bom, eu vou falar uma coisa pra você. Você vai junto com outras pessoas também – Kaiabi, Suiá, Trumai, Juruna – pra ajudar vocês a botar pra fora os fazendeiros. Eu pensei que eles não iam matar. Eu gostaria de ter ido junto com o meu pessoal, mas eu estava no Diauarum esperando avião.Então o pessoal meu foi embora. O Cico então disse: você não vai. Peça avião e vá para Brasília. Ai eu fiquei com o Cico e fui lá pra cima, pra minha aldeia, esperar o avião. Cheguei lá às 8 horas da noite. Lá minha mulher falou pra mim: “Nosso filho foi junto com o pessoal”. Então, 9 horas da noite, eu fui descer ainda atrás do meu criança. E desci e encontrei o pessoal que estava voltando. Já tinham brigado, Foi assim. Foi assim”.

P. – Depois o pessoal afundou a balsa…

R. É. Afundou. Afundamos a balsa prá não deixar mais gente passar nas estradas.

P. Então, vieram pra Brasília, reuniram com o presidente da Funai –  o general Nobre da Veiga e ele prometeu desviar o traçado da Br-080?

R. Olha, a Funai falou pra mim que vai mudar a Br-080. Aí ninguém passa mais lá. Antes o mato não foi demarcado muito bem. Tá errado. Queremos que demarque direito, direitinho. Aí seria bom pra nós, índios do Xingu, como antigamente nosso avô que morava no mato.

P. Você acreditou nessa promessa da Funai?

R. Olha, eu acredito um pouco e eu não acredito muito não. Eu acredito só um pouquinho. Eu vou ver se ele vai fazer bem pra nós. Só acredito mesmo quando fizer.

P. E por onde vai passar a estrada, segundo a promessa da Funai?

R. (indicando no mapa) Está aqui a Br-080. A cachoeira primeira é aqui (aponta a Von Martius). Nós tamos pedindo que demarque depois da segunda cachoeira, aqui (aponta com o dedo) senão vai dar problema.

P. Mas os fazendeiros dizem que a terra é deles…

R. (irônico) Olha, eu aprendi o português, a língua de vocês e sei nossa língua, eu sei o que é bom e o que é triste, o que é verdade e o que é mentira. Meu pessoal sabe que os brancos tão acabando nós, nosso mato, nossa terra, triste mesmo. Fazendeiro quer briga, nós não quer briga. O presidente da Funai disse: “Olha, você tá acostumado com o branco, você já mudou. Agora temos de acabar com essa briga”. Então eu falei pro presidente da Funai: “Você acredita em nós agora. Muito tempo que você não acredita. Eu sei, a vida de vocês é diferente, a nossa vida é diferente dos brancos. Eu sei isso. Você pensa que índio não pensa nenhuma coisa? Índio pensa coisa boa, coisa ruim, coisa triste. Então eu falei com o presidente da Funai, então o branco muito tempo tava matando índio, matando muito índio mesmo, como minha avó. Mataram o avô de meu pai. Se a Funai toma conta de nosso índio, precisa entender bem nossa tribo, onde ela mora, o que ela quer. Quando fazendeiro entrar em nossa terra, Funai deve dizer: por favor, procura outro lugar, volta prá lá. Isto aqui é terra dos índios. Você procura outro lugar, Eu gostaria que  Funai vai falar assim com os fazendeiros”.

P. E você acha que o presidente da Funai entende vocês?

R. Capaz que sim. Eu não sei. Eu entendo bem ele. Não sei se ele entende bem de mim. Eu não sei. Eu vou ver. Ele fala bom, depois ele fala coisa ruim,

P. O que ele falou de ruim nessa última reunião?

R. Ele falou que o meu primo, o Aruiavi, Trumai, que ele não devia ter ido contra os peões pra defender nossa terra. Ele disse: “A Polícia Federal tá procurando quem levou pessoas lá pra matar os peões. Aí eu não gostei do que ele falou. Aí eu falei pra ele: “Bom, presidente da Funai, você quer que a gente seja preso aqui, você chama a polícia e prende todos nós aqui. Eu tou aqui. Eu sou homem. Você também é homem. Falei assim, né? Ai ele disse: “Você não pode gritar assim”. Eu disse: “Você que falou isso. Você pensa que eu é menino. Eu sou homem e vim conversar com você. sério, sobre nosso problema.

P. Você diz que os brancos mataram seus avós. Mas que brancos?

R. Foi os portugueses, né. Português matou muito índio.

P. Mas e agora?

R. Agora é fazendeiro, seringueiro, castenheiro, garimpeiro que matam os índios. Índio Kaingang morreu. Terena morreu. Guajajara morreu agora na mão dos fazendeiros. Os fazendeiros estão acabando com todo índio. Agora estou muito preocupado com o meu povo, com todo mundo, não é só o meu pessoal Txukarramae, tou preocupado com todo mundo, todo índio.

P. Você nasceu onde?

R. Eu nasceu em Kapoto. Por ai tem Kapoto (procura no mapa). Kapoto é aqui (indica perto do Posto Jarina).

P. Mas esta terra está fora da área do Parque?

R. Pois é. Ficou fora. Foi aí que eu nasceu. Meu pai e minha mãe moravam aqui, no rio Liberdade. Sempre meu pai morou aqui, no rio Liberdade. Depois, meu pai morreu no rio Liberdade. Minha mãe morreu no rio Liberdade. Minha filha nasceu no rio Liberdade.

P. E por que vocês saíram do rio Liberdade?

R. Ah, porque chegou uma fazenda aqui; ai eu saí pra morar aqui (mostra no mapa), depois Funai pediu que a gente saísse de lá e fosse pra onde a gente está.

P. Os jornais disseram que você quer a estrada desviada para passar em cima da primeira cachoeira. Agora você diz que quer em cima da segunda, pegando o Liberdade. Como é isso?

R. Eu quero. Aqui é o rio Liberdade, onde eu nasci. Então a estrada deve mudar para cá (indica no mapa) por cima do rio Liberdade. Aí é muito bom pra nós. LIBERDADE VAI FICAR COMIGO AQUI. Quando passar aqui (aponta o rio Liberdade), aí não tem mais problema, não tem confusão. Se não, um fica triste, outro triste, outro triste, confusão demais.

P. E essa festa depois da morte dos peões? Como é a festa?

R. Ah, sim. Sei. Nós, quando a gente pinta de preto, é que vai fazer guerra com outro gente; depois vai pra aldeia, cantando, cantando, até chegar na aldeia. Então cada parente….depois fica só homem. Ai fica todo mundo junto pra fazer festa. (Durante cinco minutos, Raoni canta em Txukarramae o primeiro Akarokri da noite).

P. É uma festa alegre?

R. É uma festa de luta, quando a gente vai fazer mais força.

P. Você ficou alegre com a morte dos peões?

R. Quem matou os peões foram os fazendeiros. Coitados né? Mas como eu falei pra vocês, se eu vai junto, eu não deixava peões morrer. Coitadinho, né? Então eu falei pro meu pessoal: vocês não podem matar peão da fazenda, coitado né? Eles tem de trabalhar com patrão deles pra ganhar dinheirinha pra comprar coisa pra vida deles. Eu falei isso né. Mas quando o pessoal chegou lá, teve dois caras que falou que índio é bobagem, vagabundo, galinha, cachorro. Então o pessoal ficou brabo e matou logo. Mas eu não gostei. Se fosse um fazendeiro, não tinha problema. Eu pode brigar com fazendeiro sem problema.

P. Raoni, pra terminar, gostaria que você falasse de você. Quantos anos você tem?

R. Eu não sei. Quando eu era rapaz novo já conhecia o Orlando e o Cláudio (Vilas Boas).

P. E filhos, quantos você tem?

R. (conta nos dedos) Nove filhos (volta a contar) 3 homens, 3 mulheres e morreu dois homens e uma mulher. Um homem e uma mulher morreram de malária. O outro morreu de trovão, pegou um choque, um raio e morreu.

P. Como é que vocês chamam isso (aponta para o batoque)

R. Ah, em nossa língua chama akokakô.

P. E porque você usa o akokakô?

R. A gente usa pra ficar mais valente, ter mais força, mais coragem.

P. Mas o Mekaronty, seu sobrinho, é Txukarrame e não usa o akokakô…

R. Ah, o Mekaronty não tem, porque agora ninguém mais que é jovem usa. Depois que apareceu o branco, ninguém mais usa o akokakô.

P. (Provocando) Quer dizer, então, que com a chegada do branco e a perda do akokakô os jovens não tem a mesma coragem que você tem?

R. (uma longa e prolongada risada)

P. Você deu uma borduna de presente ao Nobre da Veiga?

R. Eu dei. Ele pediu, eu dei.

P. Você não tem medo que ele use contra você?

R. (outra longa risada). Capaz que sim. Capaz que sim.

OBS – (Ribamar Bessa e Paulo Suess, para o Porantim, jornal em defesa dos povos indigenas. CIMI. Manaus, ano III, no. 22, setembro de 1980. As fotos originais em preto e branco foram tiradas há 37 anos. Numa delas, o mapa original foi trocado aqui por um mapa colorido mais recente do Xingu numa montagem feita por Amaro Júnior da Ugagogo de Manaus.

José Ribamar Bessa Freire, professor da Pós-Graduação em Memória Social da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UNI-Rio), onde orienta pesquisas de doutorado e mestrado e da Faculdade de Educação da UERJ, coordena o Programa de Estudos dos Povos Indigenas (UERJ), pesquisa no Programa de Pós-Graduação em Memória Social (UNIRIO) e edita o site-blog Taqui Pra Ti. Tem mestrado em Paris e doutorado no Rio de Janeiro. É colunista do Direto da Redação.

Direto da Redação é um fórum de debates editado pelo jornalista Rui Martins.

 

A desnecessária e absurda carta ao General

Nota do Editor  – Faz alguns dias, recebi um email me propondo assinar e aderir a um abaixo-assinado caucionado por três nomes ilustres, primeiros signatários, Fernando Morais, João Pedro Stedile e Beto Almeida, cumprimentando o Comandante do Exército, Eduardo Dias da Costa Villas Boas, por sua entrevista à revista Valor Econômico.

Me certifiquei de que não se tratava de um email falso, fake como se diz, ou de uma brincadeira de mau gosto, ou de uma provocação. Diante do absurdo, tive de concluir ser um equívoco ou um delírio, para não utilizar expressão mais severa. Em todo caso, um acinte para todos quantos lutaram contra a ditadura militar e uma infeliz constatação da derrapagem ideológica da atual esquerda brasileira, sem memória e sem rumo.

Felizmente, me chegou uma interpretação desse deslize, assinada pelo petista dissidente Valter Pomar, cuja ortodoxia poderia ter evitado ao PT tantas trilhas falsas até à atual derrocada, ao arrepio de tantas esperanças populares agora perdidas.
Convido os leitores do Direto da Redação ao exercício comparativo da inqualificável Carta aberta ao Comandante do Exército com a análise dela feita por Valter Pomar, dentro do espírito do debate e do exercício da liberdade de informação que animam este Direto da Redação.

Boa leitura e boas reflexões, Rui Martins, Editor do DR.

Por  Valter Pomar, de São Paulo:   

É aconselhável pedir ajuda a um militar na atual crise política brasileira?
É aconselhável pedir ajuda a um militar na atual crise política brasileira?

O comandante do exército brasileiro, general Eduardo Dias da Costa Villas Boas, concedeu no dia 17 de fevereiro uma longa entrevista ao jornal Valor.      

A entrevista pode ser lida no endereço http://www.valor.com.br/cultura/4872438/somos-um-pais-que-esta-deriva

O pretexto da entrevista são as greves de policiais militares e os massacres em presídios.

A entrevista foi percebida de diferentes maneiras, na esquerda brasileira.

Alguns apreciaram certas passagens da entrevista. E consideram tornar o general um interlocutor.

Outros lembraram certas atitudes recentes do general, por exemplo contra o memorial dedicado a Jango. Ademais, consideram que esta entrevista não deveria ter sido pedida, nem concedida.

Afinal, não compete a um general da ativa dar opiniões sobre a situação política do país. 

Não importa quais opiniões. 

Aliás, para que mesmo temos um ministro da Defesa?

A extrema-direita quer os militares como protagonistas ativos da situação política do país.

Não quaisquer militares, obviamente.

Aos que ocupam posição subalterna, vale a hierarquia mais dura.

A esquerda deve adotar outra postura: os militares têm o direito de votar. 

Mas se querem participar da luta política enquanto protagonistas, precisam ir para a reserva. 

A entrevista do general Villas Bôas é protagonismo político direto. E, por isto, inaceitável.

Quanto ao mérito — pois já que a entrevista foi concedida, pode e deve ser lida — confirmam-se os motivos de preocupação.

O general obviamente não quer as Forças Armadas substituindo a policia.

Mas considera que “empregos pontuais” são inevitáveis, devido à deterioração da estrutura de segurança nos estados.

Entretanto, diz ele, falta proteção jurídica adequada, que só existiria em caso de Estado de Defesa ou Estado de Sítio.

Cada um entenda como quiser esta parte.

Mas a parte seguinte é explícita.

O general considera que somos um “país à deriva”.

Diferente de antes. Mas o “antes” dele não refere-se aos governos Lula e Dilma.

Segundo o general, até os anos 1970, 1980, tínhamos “identidade forte”, “sentido de projeto”, “ideologia de desenvolvimento”.

Ou seja, quanto mais perto da redemocratização, mais nossa “identidade” estaria se acabando.

O general não esconde o que pensa. 

Ele considera que a Lava Jato é a “esperança”, que o “protagonismo” do Ministério Público e da Justiça são são importantes.

E — se alguém não entendeu — diz que os que pedem a intervenção das Forças Armadas, pedem porque consideram que as Forças Armadas são o “reduto” que preservou os “valores”.

Ou seja: os que clamam pela intervenção militar não são cavernícolas, são pessoas de valores.

Não perguntaram — ou não publicaram — qual a opinião do general sobre a contribuição do golpe de 1964 para garantir esta “identidade forte”, este “sentido de projeto”, esta “ideologia de desenvolvimento” que ele aclama.

Mas o general fala claramente que a diferença entre 1964 e os dias de hoje, é que agora as instituições estariam funcionando. Como e para quem, sua resposta sobre a Lava Jato já deixou claro.

Agora, se as instituições deixarem de funcionar…

Aliás, sobre 2018 o general achou por bem manifestar sua preocupação com o surgimento de candidaturas “populistas”.

Se populistas de direita ou de esquerda, a entrevista não esclarece.

Mas seja como for, é inaceitável que um general na ativa dê opinião sobre supostas candidaturas presidenciais.

As demais respostas que o general dá — sobre as drogas, sobre as fronteiras, sobre a Colombia e sobre a previdência — são previsíveis. E vão no mesmo rumo geral das anteriores, com um claro componente corporativista no caso da previdência.

A entrevista como um todo é muito grave.

Que ela tenha sido dada neste momento, em que o governo Temer está sob fogo cerrado, é ainda mais grave. Pois objetivamente joga água no moinho dos que querem uma saída não democrática para a crise.

A esquerda não pode aceitar que um general da ativa intervenha no debate político. Nem deve alimentar ilusões acerca da postura das Forças Armadas. Especialmente num país com a história recente do Brasil.

 

Valter Pomar, foi jornalista no Brasil Agora e na revista Teoria e Debate e Linha Direta antigas publicações ligadas do PT,  ex-dirigente da Secretaria Internacional das Relações Internacionais do PT, doutor em História Econômica, derrotado nas eleições para a direção nacional do PT. Atualmente é secretário-executivo do Foro de São Paulo.

 
SEGUE A CARTA ABERTA AO GENERAL

Carta aberta 

Ao Sr. Eduardo Dias da Costa Villas Bôas

Comandante do Exército

“O melhor do Brasil é seu Povo.

E o pior, é um governo golpista!”                                       

Exmo. Sr. General,

Queremos cumprimentá-lo por sua entrevista, “Somos um país que está a deriva”, concedida ao jornal Valor Econômico e publicada dia 17 de fevereiro/2017.

Alegra-nos sua coragem e discernimento e a postura cívica das Forcas Armadas do Brasil, de respeito à Constituição Federal, nesses tempos em que os três poderes de Estado não hesitaram em desrespeitá-la com o processo de impechment ilegítimo e vergonhoso.

Sua entrevista traz diversos aspectos que merecem atenção de todo povo brasileiro e é com eles que queremos dialogar. Suas declarações, lastreadas pela investidura do cargo que ocupa e em sua vasta experiência pessoal, conhecedor da nossa dura realidade social, adquirem uma importância ainda maior.

  1. Uma crise Profunda. Vivemos um momento complexo, difícil, em que a sociedade brasileira enfrenta uma grave crise econômica, política, social e ambiental.  

É realmente estarrecedor que este grande país, dotado de um povo trabalhador, com invejável conhecimento e capacidade técnica,com riquezas naturais fantásticas e uma estrutura produtiva situada entres as dez primeiras economias do planeta, registre dificuldades para encontrar um rumo emancipatório, soberano e de prosperidade social para toda sua gente, e não apenas para um minoria de 76 mil milionários, entre 204 milhões que vivem do trabalho.

Lamentavelmente os grandes meios de comunicação, um dos principais responsáveis pela crise política que se instalou no país, monopolizados e partidarizados, não se interessaram em informar a população e em repercutir seu grave alerta sobre o rumo do nosso país.

  1. A defesa dos interesses do povo e da soberania nacional. Somamo-nos à sua apreciação, e acreditamos que a mesma é unânime dentro das Forças Armadas, quando afirma que a tarefa da Defesa Nacional não cabe apenas aos militares. Manifestamos, assim, a nossa preocupação com a Defesa Nacional e com a Soberania do Brasil e de nosso povo.

Enxergamos perigos quando projetos estratégicos, gestados à décadas e realizados em parceria com empresas de engenharia nacional, são minados e encontram-se sob intenso bombardeio promovido pelo mesmo grupo politico que açambarcou os poderes do Estado.

Ataques que são incentivados e potencializados pelo oligopólio mediático, que sempre hostilizou as empresas publicas, o Programa Nuclear Brasileiro, a Petrobrás, a Vale do Rio Doce, a Telebrás.

Querem finalizar, agora, o que o antinacional governo de Fernando Henrique Cardoso iniciou na década de 1990.

Nossa maior empresa estatal, a Petrobrás, está sendo esquartejada, suas funções estratégicas estão sendo reduzidas e, até, paralisada em vários de seus projetos indispensáveis à sua sobrevivência e crescimento.

Não é segredo para ninguém que programa do submarino nuclear está em vias de paralisação.Um projeto que atesta nossa capacidade científica e de planejamento estratégico, ameaçado por um governo golpista, antipopular e entreguista.

Também,é motivo de profunda apreensão junto aos movimentos populares, aos sindicatos dos trabalhadores, nos meios intelectuais e estudantis, as informações indicando que está sendo elaborado um acordo que prevê a transferência do controle da Base de Lançamentos de Foguete de Alcântara para o Estados Unidos.

Se tal acordo for aprovado por decisão política desse governo golpista, mais uma vez, estaremos entregando aos interesses estrangeiros as vantagens e privilégios que a natureza legou ao nosso país, como é a localização geográfica da Base de Alcântara.

Pior, anuncia-se que o governo golpista enviara ao congresso nacional Medida provisória autorizando a venda de nossas terras ao capital estrangeiro, e ainda nos ridicularizam ao estabelecer os limites de  até , apenas, 200 mil hectares.   Desafiamos os seus defensores tentarem comprar igual quantidade de terras nos Estados Unidos eou na Europa!

A engenharia nacional está sendo entregue de bandeja aos concorrentes estrangeiros o que, direta e indiretamente,  prejudica projetos essenciais na Indústria de Defesa Brasileira.   Todas essas investidas atendem a interesses de capital estrangeiro e de governos imperiais, como foram claramente revelados e comprovados nas denuncias do Wikileads, sobre a espionagem realizada em nosso país.

Desafiamos a encontrar nos países ditos desenvolvidos a adoção dos mesmos métodos e praticas adotadas aqui para penalizar empresas nacionais envolvidas em processos de corrupção.  

Como movimentos populares e pessoas engajadas de nosso povo não permitiremos que se entregue nossas riquezas, nossas terras e a base de Alcântara, nem a soberania da Petrobras.

  1. A crise política e  a necessária democracia das urnas. Também nos preocupa muito a crise política em que vive o pais, por causa da irresponsabilidade dos partidos políticos derrotados nas ultimas eleições presidenciais.

A democracia, imprescindível para o desenvolvimento político, econômico, social e cultural do nosso país, só pode ser construída pelas urnas, pela participação e pelo respeito à vontade da maioria do povo brasileiro.

O desrespeito com que o Poder Legislativo e setores do Poder Judiciário – inclusive com a conivente omissão do STF (Supremo Tribunal Federal) – trataram a Constituição Federal para que tivesse êxito o golpe contra a presidenta Dilma Rousseff, legitimamente eleita, pode não ocupar espaços nos noticiários da mídia, também, golpista. 

Mas esse ataque à Democracia e ao Estado de Direito está presente na memória do povo e já faz parte dos anais da história do nosso país.

No futuro a sociedade brasileira será capaz de responsabilizar e punir os protagonistas do crime cometido.

Já, agora, o povo não reconhece no atual governo a legitimidade para construir um novo projeto de país. 

  1. A corrupção é um modo permanente de governar das elites. Toda e qualquer corrupção deve ser combatida e punida, de acordo com nossas leis. No entanto, aqui o combate à corrupção está servindo para atender interesses políticos partidarizados, destruir as empresas nacionais que disputam o mercado internacional e facilitar a ingerência externa em nosso país.

Muitos ministros e parlamentares se notabilizam pelo enriquecimento ilícito, pela desmoralização da política e das instituições do Estado. Estão mais empenhados em não aparecer nas manchetes policiais do que em construir uma Nação e cuidar do bem-estar do povo brasileiro.

  1. O papel das Forças Armadas. Diante desse momento histórico que vivemos, cabe reconhecer e parabenizar as Forças Armadas pela acertada decisão em rejeitar os pedidos, feitos por uma minoria da sociedade brasileira mas amplificados pela mídia golpista,  de intervenção militar na crise  política do país.

Como o Sr menciona na citada entrevista, há a necessidade do Exército participar nos debates dos temas importantes da sociedade brasileira.

Partilhamos de sua visão e preocupação quanto a equivocada decisão política de empregar as Forças Armadas em comunidades carentes, assumindo atribuições de policia ,com o pretexto combater a criminalidade.  Ou para exercer apenas o ridículo papel de policia. 

Os problemas de criminalidade, tem raízes estruturais e sociais e não se resolvem apenas com repressão militar. É preciso medidas políticas que enfrentem os problemas de fundo, que levam a nossa juventude à criminalidade. É preciso combater, estruturalmente, a miséria, a desigualdade social e o desemprego crônico da juventude.

Como o Sr sinaliza, para resolver os problemas fundamentais da sociedade, o emprego das Forças Armadas contra o narcotráfico será sempre ineficiente, contraproducente,  com efeitos temporários e ilusórios. 

O que de fato reduz a captura da juventude pobre pelo narcotráfico e o crime, é a geração massiva de empregos, acesso à educação e condições dignas de vida.

Para isso é preciso a retomada do crescimento, com o indispensável investimento público em obras, como a construção de moradias, hospitais, ferrovias, hidrovias, estradas, saneamento básico, e, fundamentalmente, com uma reforma agrária  que interrompa o êxodo rural e promova um desenvolvimento social e econômico em nosso vasto território nacional.

  1. As raízes da crise do país. No entanto, Sr. General, a crise instalada hoje no país, não tem suas causas restrita às esferas da política e das instituições do Estado.

O monopólio dos meios de comunicação de massas, inexpugnável em nosso país, certamente é um dos fatores, senão o principal, da crise politica existente.

A democracia, e a política, vem sendo sistematicamente vilipendiada para atender e preservar os interesses particulares das famílias que monopolizam a mídia e seus braços político-partidários.

Além disso, meios de comunicação privados de maior alcance, descumprem o previsto na Constituição no que tange a difusão dos valores humanistas e de nacionalidade; não primam pela missão educativa da informação como um bem social; mantem no esquecimento, ou relegada ao silencio, a nossa cultura própria eos personagens relevantes da nossa história; promovem um verdadeiro culto à violência, ao consumismo e a um exacerbado individualismo, promovendo um esgarçamento da vida social.

Precisamos urgentemente rever as diretrizes constitucionais para a concessão publica dos serviços de radiodifusão, democratizando a produção e o acesso à comunicação no Brasil.

Assim, temos vigorosas razões para estarmos preocupados e , também, para entender a gravidade de seu alerta quando afirma que “Somos um país que está à deriva”.

Diante da gravidade da situação e da urgência em encontrar saídas para a crise, é imprescindível a ocorrência de novas eleições gerais no país e as mudanças Constitucionais que assegurem o fortalecimento do Estado Democrático de Direito. Que sabemos, virá, apenas quando instalada uma nova Assembleia Constituinte, eleita sem as influencias do poder econômico e respeitando a verdadeira diversidade e pluralidade existente na sociedade.

Enfim, temos tudo para não estar à deriva.

Queremos construir um novo projeto para o pais, que enfrente a raiz dos problemas e  proponha soluções verdadeiras para os problemas do povo.

Exmo. Sr. General, queremos nos colocar à disposição para debater todos os pontos mencionados em sua entrevista.

Consideramos muito salutar que possamos ter um canal para debater tais temas, principalmente, aqueles que, afetam perigosamente a soberania brasileira e colocam em risco as condições de vida e o futuro de nosso povo.

Assim, receba os cumprimentos pela relevância dos temas abordados e ao apelo à reflexão sobre os graves problemas que nos cercam.

Atenciosamente…

Seguem-se adesões de dirigentes de movimentos populares e intelectuais comprometidos com nosso povo.

  1. Fernando Morais, escritor
  2. Beto Almeida, Jornalista
  3. João Pedro Stedile,  ativista do MST e da Frente Brasil Popular.

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Direto da Redação é um fórum de debates editado pelo jornalista Rui Martins

 
 

Trump prepara a guerra

Uma coisa Trump não disse, mas seu orçamento aumentando as despesas militares –  enquanto corta as despesas com diplomacia,  proteção ao meio ambiente e contribuição a agências internacionais como a ONU – deixa claro que muito em breve os Estados Unidos estarão envolvidos em mais uma guerra no planeta.

Por José Inácio Werneck, de Bristol, EUA:

O aumentando das despesas militares prenuncia  guerra
O aumentando das despesas militares prenuncia guerra

No mesmo dia em que fez um discurso ao Congresso  – tecnicamente não é o State of the Union Address porque ele ainda não tem um ano no governo – em que caía em contradição entre as promessas que fez e os atos que vem perpetrando, Donaldo Trump encaminhou um orçamento prevendo em 54 bilhões de dólares os aumento das despesas das Forças Armadas.

Trump  quer também “modernizar” o arsenal nuclear dos Estados Unidos, “colocando-o no mesmo nível de outras nações”.

A realidade é que o arsenal atômico dos Estados Unidos é o maior do mundo, capaz de extinguir diversas vezes a vida humana no planeta.

As despesas militares dos Estados Unidos atualmente já são maiores do que as dos oito países seguintes.

Entre as muitas contradições do discurso de Trump estava a de que iria propor uma lei de reforma da imigração que permitiria a presença nos Estados Unidos de muitos imigrantes atualmente ameaçados de deportação.

Mas tal promessa, feita durante o dia, esteve ausente no discurso à noite. Terão os assessores de Trump convencido-o a mudar de ideia ou a promessa, como tantas outras, não era para valer?

Trump disse que o aumento da criminalidade nos Estados Unidos é o maior “do último meio século”. Na realidade, em 1991, há 26 anos, houve 24.703 assassinatos nos Estados Unidos, contra 15.691 em 2015.

Trump prometeu acabar com a epidemia de drogas no país construindo um muro que impeça a entrada dos “homens maus” nos Estados Unidos. O que veio primeiro, o ovo ou a galinha? A sede pelo consumo de drogas da população americana serve de imenso estímulo à entrada ilegal delas no país.

É, digamos, um claro exemplo da “força do mercado”.

Todos gostariam de ver um aprimoramento do chamado Obamacare, o plano de saúde adotado no governo Barack Obama.

A realidade é que Obama gostaria de ter adotado a “Opção Pública”. Ela daria ao cidadão o direito de ir ao consultório de um médico particular (e pagar caro por ele), se não quisesse ir a um médico empregado pelo governo.

É o sistema que existe, por exemplo, na Inglaterra. Quem não está satisfeito com o National Health Service sempre pode pagar para ir a um médico particular.

Obama não conseguiu adotar a “Public Option” porque a morte do senador Ted Kennedy e a subsequente perda da vaga no Senado pela eleição do republicano Scott Brown em Massachusetts privaram os democratas de uma maioria à prova de “filibuster”.

Trump abriu seu discurso com uma invocação “contra o ódio”. Lamentou o ódio conra os imigrantes, lamentou o ódio contra os judeus e lamentou o assassinato de um imigrantre indiano por um supremacista branco, na semana passada.

Mas persistiu em sua declaração de que vai erguer o “imenso muro” na fronteira sul, embora desta vez não tenha dito que vai obrigar os mexicanos a pagar por ele.

Como obrigaria?

Disse que “milhões de empregos” estão sendo criados porque está obrigando empresas americanas a trazer de volta suas montadoras para o país.

Na verdade, empresas americanas que trazem montadoras de volta para os Estados Unidos estão cada vez mais usando robôs e computadores para automatizar suas operações, contratando menos força humana.

Uma coisa Trump não disse, mas seu orçamento aumentando as despesas militares –  enquanto corta as despesas com diplomacia,  proteção ao meio ambiente e contribuição a agências internacionais como a ONU – deixa claro que muito em breve os Estados Unidos estarão envolvidos em mais uma guerra no planeta.

Vale lembrar que uma crítica que Trump fez ao governo de George W. Bush é de que ele “invadiu o Iraque mas não se apossou do petróleo”.

Na verdade, Bush pode não ter fisicamente se apoderado dos poços petrolíferos, mas deixou-os em mãos de um governo dócil às necessidades americanas.

Trump deixa claro que com ele a história será diferente. Quais são os três países na mira de seu imcremento em despesas militares?

O Irã, o Iraque e a Venezuela, todos riquíssimos em petróleo. Ele não vai simmplesmente estabelecer regilmes dóceis. Ele vai mesmo tomar o petróleo.

José Inácio Werneck , jornalista e escritor com passagem em órgãos de comunicação no Brasil, Inglaterra e Estados Unidos. Publicou “Com Esperança no Coração: Os imigrantes brasileiros nos Estados Unidos”, estudo sociológico, e “Sabor de Mar”, novela. É intérprete judicial do Estado de Connecticut. Trabalha na ESPN e na Gazeta Esportiva.

Direto da Redação é um fórum de debates, editado pelo jornalista Rui Martins.

Eleição no Equador e reflexos na América Latina

Pelo resultado da pesquisa realizada, no  Equador, pelo Centro de Pesquisa Social, o candidato Lenin Moreno obteve 59%, enquanto Lasso ficou com 41%, o que para muitos observadores dificilmente haverá alguma reversão no resutado do segundo turno a se realizar no dia 2 de abril próximo. O destino de Julian Assange, criador de Wikileaks, depende dessa eleição.

Por Mário Augusto Jakobskind, do Rio de Janeiro:

O destino de Julian Assange depende do resultado da eleição equatoriana
O destino de Julian Assange depende do resultado da eleição no Equador

Uma semana depois da realização do primeiro turno presidencial do Equador, o candidato Lenin Moreno, que por uma pequena fração (0,7%) não chegou a 40% dos votos, o que lhe daria a vitória no primeiro turno, em recente pesquisa o candidato que pretende levar adiante a Revolução Cidadã do Presidente Rafael Correa, está 18 pontos na frente do candidato da direita, o banqueiro Guillermo Lasso. 

A direita equatoriana com o apoio da direita continental que tem grandes espaços na mídia comercial conservadora tentará de todas as formas fazer o jogo de Lasso, porque não se conforma com uma possível vitória do candidato de Rafael Correa.

Por estas e outras é preciso acompanhar com muita atenção a cobertura sobre o desenrolar do segundo turno equatoriano. A mídia comercial conservadora fará de tudo e muito mais para queimar a imagem de Lenin Moreno e tentar jogar mentiras e meias verdades sobre as gestões do Presidente Correa.

O esquema Globo e demais veículos subordinados ao grupo Diário das Américas vão dedicar páginas e páginas, além de acionar os colunistas de sempre para evitar a vitória consagradora de Lenin Moreno. Não é à toa que recentemente um editorial do jornal da família Marinho já se posicionou contra a Revolução Cidadã, que pode servir de exemplo positivo para muitos países, entre os quais o Brasil, que vivem em tempo de retrocesso social de fazer espécie.

Na verdade, a eleição equatoriana de dois de abril próximo terá reflexos na América Latina. Os equatorianos deverão decidir sobre duas propostas antagônicas, quais sejam o avanço da Revolução Cidadã ou o esquema neoliberal de Lasso nos moldes do Brasil do usurpador Michel Temer e do argentino Maurício Macri.

É por aí também que se pode entender melhor o motivo pelo qual a mídia comercial conservadora tenta de todas as formas dar uma sobrevida a Guilherme Lasso, que as primeiras pesquisas indicam a vitória de Lenin Moreno por ampla margem. É claro também que dificilmente a mídia comercial divulgará o resultado com a diferença acentuada em favor de Moreno. O primeiro pretexto neste momento é de que em pleno Carnaval, o tema segundo turno presidencial equatoriano se perde ao sabor da folia. Mas resta saber qual será o espaço que será dado ao tema mencionado durante o mês de março com o advento de novas pesquisas confirmando os percentuais da divulgada neste momento.

Aliás, o Carnaval serve também para justificar o fato das mais recentes denúncias envolvendo o Ministro Chefe da Casa Civil, Eliseo Padilha saírem do foco do noticiário. Vale então outra pergunta que não quer calar: políticos do PSDB que estão sendo acusados por delatores na Lava Jato, no Carnaval ou fora da festa, simplesmente não ganham repercussão na mídia comercial conservadora. Qual o motivo?

Como o Carnaval termina nesta quarta-feira, espera-se que o noticiário volte com novas informações, independente dos protagonistas serem deste ou daquele partido, sobretudo do PSDB, visivelmente poupado ao longo do tempo pelo noticiário diário.

Mário Augusto Jakobskindjornalista e escritor, correspondente do jornal uruguaio Brecha; membro do Conselho Curador da Empresa Brasil de Comunicação (TvBrasil). Consultor de História do IDEA Programa de TV transmitido pelo Canal Universitário de Niterói, Sede UFF – Universidade Federal Fluminense Seus livros mais recentes: Líbia – Barrados na Fronteira; Cuba, Apesar do Bloqueio e Parla , lançados no Rio de Janeiro.

Direto da Redação é um fórum democrático de debates editado pelo jornalista Rui Martins.

Fora grileiros, fora os agrotóxicos, cantam os índios no Carnaval

Fora, fora os grileiros, fora os agrotóxicos, fora quem roubou nossas terras denunciam no canto carnavalesco os índios, esquecidos pela nossa esquerda branca e vítimas da ministra Kátia Abreu, durante o governo da presidente destituída, cujo desenvolvimentismo criou Belo Monte sem consultar os indígenas, donos das terras das quais foram expulsos. Nota do Editor.

Por José Ribamar Bessa Freire, de Niterói, RJ:

Índio não fez parte das prioridades do governo petista, quando quem mandava nas terras era Kátia Abreu
Índio não fez parte das prioridades do governo petista, quando quem mandava nas terras era Kátia Abreu

“Sangra o coração do meu Brasil.

 O belo monstro rouba as terras dos seus filhos

 devora a mata e seca os rios”.

 (Samba da Imperatriz Leopoldinense , 2017) 

link para o desfile da Imperatriz – https://www.youtube.com/watch?v=YW_okKVuovc

OLHA O ÍNDIO AÍ, GENTE! (versión en español)

Tem um Brasil que está morrendo e outro que está nascendo dentro de um país de cores e cantos tão diversos. Para identificá-los, não precisa ser médico-legista nem parteira. Basta observar neste carnaval o desfile na Sapucaí, mas com os olhos bem abertos para não confundir um com o outro, já que nenhum dos dois tem samba no pé. Um deles arrasta os pés, mancando, porque, decrépito, está com esclerose múltipla, enquanto o outro, hesitante e trôpego, está aprendendo a andar e ensaia no sambódromo seus primeiros passos. Só pode ver a diferença quem, entendendo a língua dos pássaros, das árvores e dos rios, é capaz de decifrar seus gemidos.

Berço do renascimento

O Brasil com um pé dentro do caixão fez tudo para abortar o parto do Brasil com um pé fora do berço. Em vão. Domingo (26), logo depois da meia-noite, cerca de 3.000 componentes da Imperatriz Leopoldinense, entre eles Raoni e outros índios, desfilam em 32 alas e seis carros alegóricos com a rainha de bateria, Cris Vianna, e mestre Lolo no comando da percussão. “Xingu, o clamor da floresta” canta aquilo que foi explorado na Rio-92 por Daniel Matenho Cabixi, um intelectual Pareci, com a palestra “As tecnologias dos povos indígenas na preservação do meio ambiente” publicada pela UERJ.

O enredo celebra os saberes das etnias que vivem no Parque Indígena do Xingu (MT) e a contribuição das civilizações indígenas – “a primeira semente da alma brasileira” – na defesa da natureza agredida, da beleza e exuberância de cores da floresta e de rios limpos e piscosos. Exalta as pinturas corporais, o artesanato, os instrumentos musicais – as flautas e os maracás, a liberdade e a memória sagrada. Dá visibilidade aos índios, fazendo aquilo que a escola, que não é de samba, devia fazer, mas raramente faz. A letra do samba-enredo já foi tema de aulas no Colégio Faria Brito, Zona Oeste do Rio e no Colégio-Curso Martins, em Vila Isabel, Zona Norte, contribuindo para a implementação da Lei 11.645 que torna obrigatória a temática indígena em sala de aula. “Salve o verde do Xingu, a esperança, a semente do amanhã!”.

Esse Brasil que nasce e que está aprendendo a ficar de pé inaugura o diálogo do carnaval com a academia e com os índios, quase sempre discriminados como atrasados ou então folclorizados como exóticos. Da Antropologia, a escola de samba toma emprestado o trabalho de campo como forma de entender o outro, o diferente. Busca na Museologia a curadoria compartilhada com os índios na organização de exposições. Recorre à História para abordar acontecimentos com o conceito de longa duração de Fernand Braudel, abandonando o fatual, nomes de heróis fajutos e sucessão de datas inúteis.

Foi assim que, assessorado pelo antropólogo Carlos Fausto do Museu Nacional (UFRJ), o carnavalesco Cahê Rodrigues se deslocou ao Xingu onde conviveu com os índios, observou o cotidiano e com eles concebeu o enredo. Viu a área contaminada por agrotóxico, causador de câncer que já matou muitos índios. Viu os rios secando e a mata morrendo.  “Voltei de lá com outra cabeça” – disse em entrevista. Viajou para lá com a mente do general Custer e retornou pensando como Touro Sentado, a exemplo do ministro Ayres Brito, do STF, no processo da Terra Indígena Raposa Serra do Sol. Deixou-se educar pelos índios, os maiores especialistas em educação ambiental..

Escola sem partido

O enredo, dividido em seis setores, começa com o sagrado, passa pelas riquezas da flora e da fauna e aborda a invasão e o roubo de terras. Depois mostra as queimadas, as madeireiras, o agrotóxico e Belo Monte. As alianças de índios com não índios na defesa do Xingu é o quinto carro, o último é o clamor que vem da floresta. Isso foi suficiente para que o outro Brasil com o pé no caixão, passasse a agredir a Imperatriz Leopoldinense e incorporasse as escolas de samba no conceito de “escolas sem partido”, que querem nos impor. Mesquinhos, não admitem versão crítica, nem no carnaval. Querem ter o monopólio da narrativa histórica por acreditarem que isso favorece a expansão da soja, do pasto para boi e a ocupação de terras indígenas por ruralistas.

Na última década, em carnavais anteriores, vários desfiles exaltaram a expansão do agronegócio, financiados pelos ruralistas preocupados em limpar a barra diante da opinião pública. A então presidente da Confederação Nacional da Agricultura (CNA), senadora Kátia Abreu, desfilou em uma delas, a Mocidade Independente de Padre Miguel que saiu, em 2011, com o enredo “Parábolas dos divinos semeadores”, financiada por empresas de fertilizantes.

O senador Ronaldo Caiado (DEM-GO, vixe vixe), figura sinistra do “divino semeador”, propõe uma CPI “para discutir, debater e descobrir os financiadores da Imperatriz Leopoldinense“. A Associação Brasileira de Criadores de Zebu (ABCZ) em carta atacou a escola de samba. Lideranças ligadas ao plantio de soja, milho, algodão e cana de açúcar se pronunciaram, alegando que o agronegócio é responsável pela comida e bebida consumida por turistas no carnaval.  Circulou até mesmo denúncia, não confirmada, em matéria assinada por João Paulo Saconi, de que empresários teriam oferecido R$ 15 milhões aos índios para que não desfilassem.

A escalada de violência culminou com o programa “Sucesso do Campo” da Rede Goiás, afiliada da Record, quando a jornalista Fabélia Oliveira, comentando o samba-enredo da Imperatriz, naturalizou as mortes dos índios, declarando que o índio “vai ter mesmo que morrer de malária, de tétano, de parto” . É a natureza”. Estranha concepção da natureza aliada à morte. Para desqualificar o enredo, ela ajumentou que “o tradicional malandro carioca” não tem autoridade para falar do índio e da floresta.

Dinossauros em extinção

O carnavalesco Cahê Rodrigues ficou assustado:

Eles insistem em agredir a todo instante, com algumas colocações preconceituosas e racistas. Além de ofensas à escola, eles diminuem a imagem do índio, como se o índio não fosse nada. O índio não tem voz. Todas as vezes que ele quer falar, é calado. O tema foi desenvolvido nas histórias de conquistas e de lutas dos índios do Xingu.  

Os dinossauros são ricos, arrogantes e têm poder, nem parece que estão com o pé na cova. Lembrei, porém, de uma charge publicada há anos na capa de uma revista francesa que, para ser didática, comete uma impropriedade histórica confundindo temporalidades. Mostra um gigantesco dinossauro que vigiava uma caverna, onde dois seres humanos, pequenos e frágeis, tremiam de medo. Um deles falou assim para o outro: “Por incrível que pareça, esse monstrengo aí fora, grande e forte, está condenado a desaparecer. Quem vai se perpetuar somos nós, seres humanos, pequenos e desprotegidos”. Historicamente, na perspectiva de longa duração, a classe que emprega agrotóxicos vai se extinguir como os dinossauros.

O Brasil que está nascendo é aquele que, segundo o antropólogo Darell Posey, leva a sério o conhecimento dos índios, incorporando-o à ciência moderna e aos programas de pesquisa e desenvolvimento, que valoriza os índios pelo que são: “povos engenhosos, inteligentes e práticos que sobreviveram com sucesso por milhares de anos na Amazônia”. Tal postura, cria uma ponte ideológica entre culturas, que permite “a participação dos povos indígenas, com o respeito e a estima que merecem, na construção de um Brasil moderno”.

É essa ponte que a Imperatriz Leopoldinense está ajudando a construir. Se o Brasil que morre está tão incomodado, é porque teme que o Brasil que renasce dê uma grande aula na Sapucaí, construindo outra narrativa na passarela mágica e dionisíaca do carnaval, o único espaço no Brasil em que utopia dá certo. Darcy Ribeiro, o criador do Sambódromo, Berta Ribeiro, Maria Yedda Linhares, John Monteiro, Antônio Brand e tantos outros amigos dos índios devem estar requebrando alegremente na tumba ao som do samba da Imperatriz. Olha o índio aí, gente.

P.S. – Convém se concentrar nos pequenos atos e gestos cotidianos do novo Brasil que está renascendo, traz esperança e não nos deixa adoecer diante do quadro político dominado pelos “dinossauros”  Foi o caso da defesa de três dissertações no Programa de Pós-Graduação em Memória Social da UNIRIO: 1) na segunda (20) Ignacio Gomeza Gomez – “Em busca da memória e da identidade: o povo Charrua no Uruguai e Brasil” (Banca: João Pacheco de Oliveira, Amir Geiger e José R. Bessa (orientador); 2) na terça (21), Renata Póvoa Curado – “Memórias tradicionais como performances culturais: experiências na Aldeia Indígena Multiétnica em Goiás” (Banca: Luisa Belaunde, Zeca Ligiéro e José R. Bessa (orientador); 3) Mariane do Nascimento Vieira – “Narrativa dos Ameríndios: disseminação de uma visão do contemporâneo” (Banca: Amir Geiger (orientador), Thiago Loureiro e José R. Bessa.

OBS: A foto tirada pela fotógrafa Liliam Tataxinã no Museu do Indio do Rio de Janeiro no lançamento do livro de Lucy Seki “O que habitava a boca de nossos ancestrais (ver abaixo) foi usada por José Amaro Juniror, da Ugagogo de Manaus, que a incorporou à outra foto mais recente pescada no facebook, tendo ao fundo a passarela da Sapucaí. Abaixo, as duas fotos originais. (ver A BOLA DOS  KAMAIURÁ – http://www.taquiprati.com.br/cronica/982-a-bola-dos-kamaiura)

Já a foto em que aparece a senadora Katia Abreu não é montagem.

José Ribamar Bessa Freire, professor da Pós-Graduação em Memória Social da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UNI-Rio), onde orienta pesquisas de doutorado e mestrado e da Faculdade de Educação da UERJ, coordena o Programa de Estudos dos Povos Indigenas (UERJ), pesquisa no Programa de Pós-Graduação em Memória Social (UNIRIO) e edita o site-blog Taqui Pra Ti. Tem mestrado em Paris e doutorado no Rio de Janeiro. É colunista do novo Direto da Redação.

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Educação para os novos tempos

Nesta época de profunda degradação moral em que está mergulhada a Nação brasileira, a publicação de um livro como Educação em um mundo globalizado, dos professores Sílvio Firmo do Nascimento e Kennedy Alemar da Silva, ganha redobrada importância, pois discute como educar e formar educadores para essa sociedade que se desenha para o século XXI.

Por Adelto Gonçalves, de Amparo, SP:

A educação é peça básica para o desenvolvimento brasileiro
A educação é peça básica para o desenvolvimento brasileiro

Como observa o professor José Maurício de Carvalho, na época da publicação da obra, do Departamento de Filosofia da Universidade Federal de São João del-Rei (UFSJ-MG), no prefácio que escreveu para esta obra, os autores consideram essencial a construção de uma nova pedagogia para enfrentar os desafios da sociedade tecnológica. De fato, esse é um desafio de proporções ciclópicas, pois a questão da degradação moral vem da própria família brasileira que, ao longo do tempo, deixou de discutir e incutir em seus pósteros os valores morais mais essenciais, deixando a tarefa para a escola que, por sua vez, não tem condições materiais nem espirituais para desenvolver esse trabalho.

O professor de Língua Portuguesa sabe muito bem como chegam os alunos, em grande parte, ao primeiro ano de qualquer curso universitário: não só sem o domínio da técnica de escrever como sem valores morais. Por isso, pedir aos alunos que escrevam uma resenha de algum livro ou um artigo sobre qualquer assunto é preparar-se para receber uma avalanche de textos tirados da Internet e apresentados como se fossem de sua própria autoria.

Quer dizer, a maior parte dos alunos comete o crime do plágio sem a menor cerimônia. E não se pode dizer que, geralmente, são alunos mal saídos da adolescência porque, não raro, também os mais maduros cometem com facilidade esse tipo de crime. Ou seja, como muitos deles são pais de família, é de se imaginar os valores morais que passam para os filhos.

Para combater essa epidemia de desonestidade, o professor precisa sacrificar boa parte do seu tempo fora da classe para pesquisar no Google a fim de comprovar o plágio. Diante de classes superlotadas – com mais de 80 alunos –, já que as universidades privadas estão preocupadas prioritariamente com seus lucros, não poucos professores desistem da carreira. Os que insistem e tentam ensinar como fazer as citações de textos alheios, muitas vezes, pregam no deserto porque muito mais fácil é “copiar e colar”. Não é à toa que, de vez em quando, estouram (não só no Brasil como também no Primeiro Mundo) escândalos em que figuras eminentes são acusadas de publicar livros com extensas citações de textos alheios sem o devido crédito. Às vezes, o livro que teve trechos amplamente copiados está citado apenas na bibliografia. E os autores acreditam que isso resolve tudo.

Aos docentes que permanecem só resta remar contra a corrente e procurar contribuir para a formação da pessoa humana, tentando passar aos alunos o domínio da escrita e leitura, a capacidade de analisar, interpretar e sintetizar dados e compreender e atuar no meio social, como ressaltam os autores de Educação em um mundo globalizado.

                                               II

Para mudar esse quadro, Nascimento e Silva defendem a presença de professores cada vez mais qualificados e com atualização permanente, em vez de docentes que apenas transmitam conhecimento acadêmico. Mas observam que é preciso também que a escola mude, pois o professor sozinho não será capaz de dar conta dos desafios educacionais que se impõem neste começo de século. Obviamente, a escola não pode mudar sozinha, o que significa que a mudança deveria ser acompanhada pelo Estado e pela sociedade. Eis aqui um ideal quase inatingível. Afinal, neste mundo globalizado, os interesses políticos se encontram sempre subordinados aos interesses mercadológicos.

No último capítulo, Nascimento e Silva discutem o impacto da tecnologia na educação, admitindo como irreversível o ensino a distância, que seria mais uma tecnologia colocada a serviço da demanda social. Para os autores, o ensino a distância seria “mais eficaz que o presencial devido ao seu maior alcance, sua melhor razão custo e benefício, sua maior flexibilidade (tanto para docentes como aprendizes) e seu maior potencial de personalização e mesmo individualização”.

Para os estudiosos, a tarefa de discutir, analisar, avaliar e aplicar as informações a tarefas práticas será realizada, mais e mais, não através da escola, mas através de grupos virtuais de discussão, no quais cada um se alterna no papel de ensinar e de aprender. “Se a escola puder se reinventar e tornar-se um ambiente de aprendizagem desse tipo, ela pode sobreviver. Mas a Internet, a Web, correio eletrônico, bate-papos, discussões baseadas em texto (grupos de discussão), videoconferências etc. precisarão estar no centro dela e se tornar parte de sua rotina. O que aqui é dito da escola aplica-se a escolas de todos os níveis, inclusive às universidades”, garantem.

Como diz o professor José Maurício de Carvalho, se esse é o novo paradigma da educação, é preciso criar então uma nova forma de ensinar, e isso nos coloca diante da necessidade de pensar a formação do educador que deve ser preparado para essa nova realidade. Por isso, com base nas ideias do sociólogo suíço Philippe Perrenoud, os autores concluem que “o professor deverá se dotar de conhecimentos, habilidades e atitudes para tornar-se um profissional reflexivo ou investigador, com o objetivo de aprender a interpretar, compreender e refletir sobre a realidade social e a própria docência”.

Esse é o grande desafio da Humanidade hoje, pois não há como discordar de Nascimento e Silva quando dizem que a educação é um dos caminhos importantes para superar a crise do nosso tempo.

                                               III

Silvio Firmo do Nascimento (1956) é graduado em Teologia pela Pontifícia Universidade Católica (PUC-RJ – 1987) e em Estudos Sociais e Filosofia pela Fundação Educacional de Brusque-SC (1983), mestrado em Filosofia pela UFJF-MG (1992) e doutorado em Filosofia pela Universidade Gama Filho-RJ (2001). É professor de Filosofia e editor da revista Saberes Interdisciplinares do Instituto de Ensino Superior Presidente Tancredo de Almeida Neves (IPTAN) e membro efetivo da Academia de Letras de São João del-Rei-MG.

É autor de Teses morais do tradicionalismo do século XIX (Londrina-PR: Humanidades, 2004), A Igreja em Minas Gerais na República Velha (Curitiba: Juruá, 2008), A religião no Brasil após o Vaticano II: uma concepção democrática da religião (Barbacena-MG: UNIPAC, 2005), O homem diante do sagrado: alguns elementos de antropologia da religião (Londrina: Edições Humanidades, 2008), A pessoa humana segundo Erich Fromm (Curitiba: Juruá, 2010), A centralidade da eucaristia na vida da humanidade (Guarapuava-PR: Pão e Vinho, 2001) e Gotas de sabedoria (Curitiba: Instituto Memória, 2012). Desenvolve o trabalho religioso de pároco em Ibituruna-MG e de assessoria bíblica na Diocese de São João del-Rei-MG.

Kennedy Alemar da Silva (1972) é mestre em Educação pela Universidade Presidente Antônio Carlos (UNIPAC), de Barbacena-MG, licenciado em Filosofia e especialista em História de Minas Gerais no século XIX pela UFJF-MG. É professor na Fundação Educacional de Lavras-MG e na rede estadual de Minas Gerais na cidade de Itutinga, onde reside. Foi secretário municipal de Educação em Itutinga.

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Educação em um mundo globalizado, de Sílvio Firmo do Nascimento e Kennedy Alemar da Silva, com prefácio de José Maurício de Carvalho. Belo Horizonte: Gráfica e Editora O Lutador, 164 págs.

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Adelto Gonçalves é doutor em Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo (USP) e autor de Os vira-latas da madrugada (Rio de Janeiro, José Olympio Editora, 1981; Taubaté, Letra Selvagem, 2015), Gonzaga, um poeta do Iluminismo (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999), Barcelona brasileira (Lisboa, Nova Arrancada, 1999; São Paulo, Publisher Brasil, 2002), Bocage – o perfil perdido (Lisboa, Caminho, 2003), Tomás Antônio Gonzaga (Academia Brasileira de Letras/Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2012), e Direito e Justiça em Terras d´El-Rei na São Paulo Colonial (Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2015), entre outros. Foi professor nas Universidades de Santos.

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Foi o homem quem acabou com o sonho

Porque não foi o sonho que acabou, mas o homem que escolheu o pesadelo.

Por Maria Lúcia Dahl, do Rio de Janeiro:

Depois do sonho, entramos no pesadelo
Depois do sonho, entramos no pesadelo

Estive pensando muito na minha geração, da qual fui fã e tiete. Admirei e defendi ardorosamente toda  a sua virada de mesa dentro de um contexto geral: politico, social, sexual , bissexual, feminista, libertário e até na revolução da moda , das saias, dos cabelos, reflexo imediato do pensamento revolucionário.  

Mas agora, depois de essa mesma geração estar no poder comecei a repensar nossas atitudes.  Pra mim, 68 não tinha erro, embora fosse  uma geração experimental e nem toda experiência seja fadada ao sucesso, mesmo que eu continue achando muito melhor tentar do que ficar parado, até prova em contrario.

Pra mim, 68 não tinha erro, embora fosse uma geração experimental e nem toda experiência esteja fadada ao sucesso, mesmo que em contrário.

Quando o pai da minha filha, líder estudantil e exilado político, discursava na Cinelândia, ao lado de Vladimir Palmeira, dizendo: “ Nós vamos tomar o poder”, eu me preocupava, porque os achava jovens demais, sem experiência nem prática, apenas terminando a faculdade.

Então, trinta anos depois, quando finalmente tomamos o poder, pensei: “ agora tudo vai dar certo. Está todo mundo mais velho, mais sábio, mais experiente e amadurecido em suas ideias. O que eu não podia imaginar era que, pelo menos a maioria não pensava mais daquele jeito. Como posso admitir que alguém vá preso e torturado por um ideal se realmente não acredita nele acima de tudo?  

Ninguem é crucificado pra ficar rico, privando o povo de escolas, hospitais, aposentadoria, dignidade. Isso pra mim não bate. Ou se está de um lado ou de outro. Será que, diferentemente do que eu achava, se tivessem tomado o poder quando jovens, teria sido diferente? Que só jovem tem ideologia? Que com a idade troca-se a ideologia pelo poder? Que a força  da grana, como diz Caetano, ergue e destrói coisas belas?

Que éramos apenas  sonhadores, como dizia Bertolucci? Libertários na ficção, na imaginação e que a teoria, na prática era outra ?

Por um momento fiquei confusa, até constatar que continuo acreditando nos mesmos valores: democráticos, políticos, sociais, bissexuais, feministas, libertários. Continuo acreditando em “liberdade sem medo”, que era o lema de Summerhill, o que havia de mais amoroso e avançado em matéria de educação, continuo acreditando no amor e na paz como condições definitivas para o progresso, continuo apoiando a verdade contra os fingimentos da década de 50, cheios de garçonnières, esconderijos, traições, mentiras.

Mas infelizmente, não acredito mais no ser humano. Não era o pensamento  nem o ideal da minha geração que estavam errados, ambos estavam certíssimos, e não tenho dúvidas de que pertencia a uma juventude que queria mudar o mundo de verdade.

Não acho que tenhamos sido apenas sonhadores. Nossa teoria estava certa e o sonho só acabou, como disse Lênin e depois Lennon, porque o homem continua bárbaro e não evolui  um segundo da Idade da Pedra, até agora, em matéria de consciência. Prefere a guerra, o desamor e o sofrimento em nome do dinheiro e do conforto.

Mas que conforto, se o feitiço virou contra o feiticeiro? Quem espalha miséria, sofrimento, escravidão, receberá tudo isso de volta. É a lei do retorno, da consciência, dos atos. Para que vivêssemos em paz,  bastaria amar o próximo como a nós mesmos. Por isso acho que não foi Summerhill que errou em dar liberdade sem medo às crianças , não é a opção sexual que nos faz melhores ou piores, mas o fingimento, a mentira.

Tudo o que não for verdadeiro sairá do fundo do poço, felizmente sobrando a esperança, como na caixa de Pandora. Basta saber o que fazer com ela.

Porque não foi o sonho que acabou, mas o homem que escolheu o pesadelo.

Maria Lúcia Dahl , atriz, escritora e roteirista. Participou de mais de 50 filmes entre os quais – Macunaima, Menino de Engenho, Gente Fina é outra Coisa – 29 peças teatrais destacando-se- Se Correr o Bicho pega se ficar o bicho come – Trair e coçar é só começar- O Avarento. Na televisão trabalhou na Rede Globo em cerca de 29 novelas entre as quais – Dancing Days – Anos Dourados – Gabriela e recentemente em – Aquele Beijo. Como cronista escreveu durante 26 anos no Jornal do Brasil e algum tempo no Estado de São Paulo. Escreveu 5 livros sendo 2 de crônicas – O Quebra Cabeça e a Bailarina Agradece-, um romance, Alem da arrebentação, a biografia de Antonio Bivar e a sua autobiografia,- Quem não ouve o seu papai um dia balança e cai. Como redatora escreveu para o Chico Anisio Show.Como roteirista fez recentemente o filme – Vendo ou Alugo – vencedor de mais de 20 premios em festivais no Brasil.

Direto da Redação, editado pelo jornalista Rui Martins.