Isabelle Huppert é a redatora-chefe por um dia do Libèration

Isabelle Huppert é, hoje, uma atriz muito impressionante. Recentemente, personagens como “Obrigado por este chocolate”, de claude Chabrol, e “Saint-Cyr”, de patricia Mazuy, ou a sua interpretação teatral em Medéia, marcaram os espíritos. Em maio, recebeu o prêmio de Melhor Atriz do festival de Canes no papel em “A Pianista”, de Michael Haneke, que será exibido em 5 de Setembro.

A jovem mulher de hoje, descoberta há vinte e cinco anos em “Valseuses”, de Bertrand Blier, continua lá. Está mesmo cada vez mais presente, tomando, ao fio dos filmes e das peças, uma dimensão suplementar: “O Juiz e o Assassino” (Tavernier), “La Dentellière” (Goretta), “A Porta do Paraíso” (Cimino), “Loulou” (Pialat), “A História de Piera” (Ferreri), “A Escola da Carne” (Jacquot), “Orlando” (montado por Bob Wilson), e as belas parcerias com Jean-Luc Godard e certamente Chabrol (“Violeta Nozière”, “Um Negócio de Mulheres”, “Madame Bovary”, “A Cerimônia” e “Rien ne va plus”).

E continua, mesmo assim, difícil descrever o jogo de cena de uma atriz, o porque e o como de sua presença. A força de Isabelle Huppert é dar-se por inteira em todos os papéis, com cuidado escolhidos, preservando ao mesmo tempo o seu enigma. Existe nela um fervor retido, inquieto, que a coloca à distância. No entanto, esta espécie de frieza atrai irresistivelmente o espectador. Imóvel, muda, quase mineral, Huppert é esta pedra preciosa, magnética, que capta os olhares. No limiar de seu rosto, eis a zona mais interna da existência. Isabelle Huppert transmite a cada pessoa uma parte muito pessoal, na qual todos podem reconhecer-se.

Isabelle Huppert é também uma atriz que se arrisca, trapezista que se lança acima e no vazio. Reverenciada em todo o mundo, ela continua a escolher papéis de alto risco, que parece mesmo ser a única capaz de assumir. Ao mesmo tempo em que se lança neste jogo perigoso, ela se prepara, e prepara ainda seus scripts e os suas aparições. Huppert continua uma atriz inteligente, que pode falar, ou fala, de igual a igual, com Nathalie Sarraute, Claude Régy, Bob wilson, Jean Baudrillard ou Henri Cartier-Bresson. Conversando com ela, Libèration recolheu alguns fluidos desta singular presença.

Leia alguns trechos da entrevista:

Sobre o conflito no Oriente Médio:
“Chagall teria sido sem dúvida de acordo..
Lí em um jornal “Carta a um amigo israeliano”.
Não lí “Carta a um amigo iraquiano”.
Não lí “Carta a um amigo libanês”.
Não lí “Carta a um amigo sírio”, para permanecer nesta região. Ou se faz a paz. Ou vai-se para um desastre ”

Sobre a pena de morte:
“Trata-se de um retrocesso, reminicência de paixões medievais em um mundo que tenta progredir e encontrar regras de direito que não sejam tão revoltantes. Onde quer que exista, e não somente nos Estados Unidos, é necessário banir a pena de morte.”

Sobre a imigração:
“Não é de se surpreender que os países ricos atraiam os países pobres. O que se constata é que, independentemente das regras impostas de lugar para lugar, não se altera grande coisa. Ademais que os países ricos também tiram suas vantagens. A miscigenação das populações desagua em contribuições culturais e criativas das quais se beneficiam. A imigração não é uma calamidade, ainda que os países ricos procurem estabelecer regras as mais humanas possíveis.”

Suprema Corte dos EUA impõe sério revés à Microsoft

Até a semana passada, a Microsoft mantinha a esperança de a Suprema Corte de Justiça dos EUA atrasar o encaminhamento do processo que já circula na justiça daquele país há quatro anos.
Uma corte de apelação, no entanto, nesta sexta-feira, colocou fim nas esperanças da número um do mundo em software, que já se imaginava lançando o Windows XP, da nova versão do seu sistema de exploração, na calada da noite neste Outono.

A empresa tinha pedido ao Supremo Tribunal que invalidasse o procedimento confiado ao juiz Jackson, devido a entrevistas concedidas aos jornalistas antes do pronunciamento de suas sentenças. Esta deve ainda comunicar se dá seguimento a este pedido, uma decisão que deveria durante o mês de outubro.

No entanto, nada obriga que o Tribunal de Alçada coloque o processo na fila de espera, como pretendia a Microsoft. Ao contrário, vai enviá-lo, nos próximos sete dias, a um novo juiz federal. Este último será o encarregado de decidir das sanções a serem impostas à empresa, reconhecidamente culpada de violações da lei antitruste.

Este é um sério revés para Microsoft: As sanções em questão poderiam, com efeito, englobar o Windows XP, que integra funcionalidades denunciadas pelos concorrentes da firma nos serviços de mensagens instantâneas, na reprodução de músicas, comércio eletrônico etc

Macedônia é pacificada contra a sua vontade

Sem pompa e sem brilho, quase timidamente, os partidos macedônio e albanez assinaram, na tarde desta segunda-feira, em SKopje, na Macedônia, na presença do secretário-geral da OTAN, George Robertson, e de Javier Solana, alto-executivo da União Européia para a área de política externa, o acordo que põem fim a seis meses de combates entre as forças governamentais e a guerrilha albanesa. A cerimônia sequer foi transmitida pela televisão.

Homenagem aos 80 anos de Dona Ivone Lara: E a mulher recriou o samba

“Mas porque será que eu coloquei esses sapatos”, ironiza Dona Ivone Lara, magestosamente em seu vestido encorpado, tirando os sapatos apertados para se render aos chamados da cadência. Para ilustrar estas palavras, escritas em 1940 por Dorival Caymmi, em seu clássico “Samba da minha terra”: “quem não gosta do samba, não é um bom sujeito”.” É ruim da cabeça, ou doente do pé.”

Ícone sambista, rara mulher compositora, celebra sobre o palco do Teatro Rival, no Rio de Janeiro, seus 80 anos de idade e seu novo (e sétimo) disco, “Nasci para sonhar e cantar”, diante uma platéia de “gente do meio” e outros apaixonados do gênero. Como Beth Carvalho, passionaria do samba pagode, corrente surgida no fim dos anos 70, Elton Medeiros, ativista do samba, parceiro dos grandes Nelson Sargento e Paulinho da Viola, ou a nova diva da MPB Marisa Monte. Seus sucessos são repetidos de cor: “Os cinco bailes da história do Rio”, primeiro samba enredo escrito por uma mulher, em 1965, “Sonho Meu”, escrito com o fiel parceiro Delcio Carvalho e gravado por Maria Bethânia e Gal costa, “Tendência”, sucesso de 1981, ou “Tiê Tiê”, composto há 12 anos, em homenagem a um pássaro recebido de presente, hoje no repertório como um cri-cri inseparável.

Comunidade chinesa em Paris sofre com a violência

Quem se arrisca a um passeio por Belleville, a leste de Paris, pode ter uma desagradável surpresa. O bairro que, rapidamente, transforma-se no reduto da comunidade chinesa, vem sofrendo com o aumento da criminalidade, com pequenos furtos nas ruas e lojas comerciais. Conhecidos por sua discrição, os asiáticos do bairro estão exasperados: “somos as principais vítimas dos delinqüentes”, reclama um comerciante.
– Isso acontece não é de hoje, mas dessa vez eles excederam os limites – continua.
Pho, 38, gerente de um laboratório fotográfico, observa através de sua pequena vitrine a chegada de bandos que se aproximam dos automóveis quando páram no sinal vermelho. “Um jovem abre a porta do carro, de repente, e leva as sacolas que estavam no banco traseiro”, relata.
– Se prestarem atenção vão ver que as mulheres não carregam mais sacolas ou bolsas de mão. Preferem conservar o dinheiro em seus bolsos – continua.
O perfil dos delinqüentes, “é de jovens de origem africana ou árabe, que conhecem os nossos hábitos”, afirmam vários comerciantes. Um destes hábitos é pagar em dinheiro vivo, o que sempre aumenta a cobiça dos assaltantes. “Alguns de nossos conterrâneos não têm documentos, logo, recebem em dinheiro e os vadios sempre tentam levar-lhes os seus salários”, explica um comerciante.
Eles dizem, ainda, que a comunidade chinesa em Paris “faz a própria lei para parar com a delinqüencia, “mas nunca ví nada igual”, conclui.