A saúde dos trabalhadores

Maria Fernanda Arruda

A saúde tornou-se tema prioritário nos governos do PT e o SUS é um dos maiores programas de saúde pública no mundo. Mas os trabalhadores brasileiros sabem muito pouco sobre ele, não valorizaram a pesquisa que colocou o Brasil em primeiro lugar, não na Copa da FIFA, mas no combate à AIDS

 

Por Maria Fernanda Arruda – do Rio de Janeiro

 

Monteiro Lobato, além de se preocupar com o petróleo, também se preocupou com a saúde do brasileiro, criando a figura do Jeca Tatú, para poder ministrar-lhe o Biotônico Fontoura. Ainda em 1950 o Brasil era “essencialmente agrícola”, com 50% do seu povo vivendo nas fazendas dos pais de ‘donos de terra’, trabalhando de sol a sol, mal alimentados, desvestidos, armazenados em barracos precários, sem luz elétrica, sem esgotos, sem água tratada, desvestidos e descalços. Por isso mesmo, o primeiro plano de governo feito no Brasil, o Plano Salte – Saúde, Alimentação, Transporte e Energia (1946-1950) priorizava a Saúde. Priorizou no papel. Os governos brasileiros nunca deram atenção a isso: leiam o Bajulado Plano de Metas de JK, para não encontrar qualquer referência a saúde. Durante a ditadura, praticou-se a política do “quanto mais mortes, melhor, que a assim cresce o PIB.”

Maria Fernanda Arruda
Maria Fernanda Arruda é colunista do Correio do Brasil, sempre às sextas-feiras

A saúde tornou-se tema prioritário nos governos do PT e o SUS é um dos maiores programas de saúde pública no mundo. Mas os brasileiros sabem muito pouco sobre ele, não valorizaram a pesquisa que colocou o Brasil em primeiro lugar, não na Copa da FIFA, mas no combate à AIDS. Não querem saber sobre outras pesquisas e serviços de primeira qualidade que são prestados por ele. Mas valeria a pena que os desinformados tratassem de saber:

Jalecos brancos

1. A maioria dos jovens médicos brasileiros formam-se, vocacionados pela ganância do enriquecimento grande e rápido. Por isso mesmo, buscam especializações mais remuneradoras e necessariamente miram o bom-mercado das classes sociais mais favorecidas, nas grandes cidades. Quando o governo PT criou o Programa Mais Médicos e trouxe profissionais cubanos, gerou protestos desvairados na avenida Paulista, promovidos por garotos e garotas fantasiados com jalecos brancos.

A opinião pública clama contra a criminalização do aborto, mas nunca se comoveu com mulheres que ainda hoje morrem em trabalho de parto, nos vilarejos nordestinos, na falta de um médico que as assista. Em termos práticos: quando os atendimentos do SUS são demorados e incompletos, creditem-se as deficiências ao egoísmo individualista da nossa sociedade, a quem fez muito mal enxergar o desprendimento dos médicos cubanos.

Trabalhadores e a saúde

2. O SUS estaria presente em muitos outros lugares, atendendo melhor e sem o descalabro de filas intermináveis, se existissem os impostos sobre as grandes fortunas e sobre as heranças, se a boa burguesia pagasse o que deve, sem cometer fraudes fiscais. Ao sermos expostos ao massacre dos mais pobres nos centros precários de atendimento, o que a televisão sempre nos mostra, precisamos aprender que criminoso não é foi Governo PT, mas sim as “elites” nacionais.

As elites querem a privatização, fazendo fortunas com os seus planos mentirosos, que enganam especialmente a uma classe média abestalhada pela TV Globo. Não pagam impostos e compram deputados para ganhar indulgência. Amil, Sul-América e todas as outras roubam o dinheiro que poderia ajudar na redução das filas de espera, nos postos do SUS.

Monteiro Lobato

3. O Jeca Tatu, cansado de morrer desassistido, ganhou o SUS. Nâo é um “presente de grego. Ele tem agora o seu cartão-saúde, que dará a ele progressivamente mais e melhor atendimento (por certo, você já tem o seu, que é fornecido no ato e gratuitamente). Mas isso só acontecerá na medida em que haja interesse e empenho de todos, o que começa com a vontade de participar e a capacidadede votar e eleger políticos, e não bandidos.

Valerá a pena o empenho em participar do esforço para dar saúde ao povo brasileiro. Precisamos ainda aprender o óbvio: os brasileiros merecem um programa de qualidade de saúde e não apenas de planos de assistência médica. Temos nos dignado a pensar na diferença entre essas duas propostas?

Vamos olhar para o que está nos tirando, o governo golpista.

Maria Fernanda Arruda é escritora, midiativista e colunista do Correio do Brasil.

Base do PMDB se mostra insatisfeita com Serraglio e queda de Padilha

A escolha de Serraglio foi mal recebida na base aliada de Temer na Câmara

Aliado do presidiário Eduardo Cunha, Serraglio foi anunciado no início da noite passada, mas a decisão de Temer gerou uma forte reação na bancada do PMDB

 

Por Redação – de Brasíllia

 

A queda do chefe da Casa Civil, Eliseu Padilha, na noite passada, apenas algumas horas depois de o presidente de facto, Michel Temer, enfrentar uma ameaça de rebelião na bancada do PMDB na Câmara, em protesto contra a escolha do deputado Osmar Serraglio (PMDB-PR) para o Ministério da Justiça, torna ainda mais volátil a situação política no país. Investidores e formadores de opinião acompanham com cautela a cena policial que se desenvolve cada vez mais próxima do Palácio do Planalto.

A escolha de Serraglio foi mal recebida na base aliada de Temer na Câmara
A escolha de Serraglio foi mal recebida na base aliada de Temer na Câmara

Aliado do presidiário Eduardo Cunha, Serraglio foi anunciado no início da noite passada, mas a decisão de Temer gerou uma forte reação na bancada peemedebista. Apesar de o partido cobrar mais espaço no governo, o nome do deputado criou mais problemas que soluções.

— Serraglio não é um nome da bancada. Se tentou construir uma unidade em nome do Serraglio, mas depois se fez a escolha sem o aval da bancada, e o presidente acenou com a liderança do governo para o PP. A bancada está muito insatisfeita — disse à agencia inglesa de notícias Reuters um parlamentar do partido. Ele preferiu não se identificar.

Assim que vieram a público as informações de que Serraglio seria o escolhido, as reações peemedebistas começaram. Vice-presidente da Câmara, o deputado Fábio Ramalho (MG), declarou que iria “romper com o governo”.

— Tomei a decisão por causa da questão mineira. Minas tem sido preterido e tem sido muito correto com esse governo. Um Estado que não participa das decisões do governo, não pode também estar participando das votações do governo — afirmou o deputado.

Crise na bancada

Ramalho chegou a conversar com Temer por telefone, mas não mudou de posição. Disse que vai fazer uma “oposição consciente”, mas já avisou que a reforma da Previdência, tema central do governo, não irá passar “do jeito que está”.

Um parlamentar próximo a Ramalho disse que o deputado estava “jogando para a plateia”.

— Ele quis marcar posição — disse a fonte.

Nas conversas durante o dia, Temer se comprometeu a fazer uma reunião com a bancada de Minas depois do Carnaval. A intenção do presidente era mesmo anunciar Serraglio antes do feriado, depois de conseguir contornar a crise na bancada.

Apesar da avaliação de alguns de que é um problema restrito aos peemedebistas mineiros, outros parlamentares aproveitaram o momento de rebelião mineira para levantar outras insatisfações, como o questionamento do espaço do PMDB no governo.

Liderança na Câmara

O fato de Temer ter decidido indicar Aguinaldo Ribeiro (PP) para a liderança do governo na Câmara, no lugar de André Moura (PSC-SE), irritou deputados.

— Vai fortalecer demais o PP, que já tem três ministérios. Está crescendo e crescendo em cima do PMDB. Na véspera de um ano eleitoral, quando os deputados são candidatos — reclamou o parlamentar peemedebista

Na véspera, Temer se reuniu com o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), e o ministro da Secretaria de Governo, Antonio Imbassahy, para “recuperar a relação” com Maia, de acordo com uma das fontes, e tentar resolver o xadrez de cargos no Congresso.

Maia, que havia se posicionado contra a criação de um líder da maioria, como pretendia o governo para ter mais cargos a distribuir e acalmar a base aliada, acabou acatando a ideia no encontro com Temer.

A vaga poderia ir para André Moura, que ficaria sem a liderança do governo. Mas, segundo o parlamentar peemedebista, o partido queria aproveitar essa brecha e despachar Aguinaldo Ribeiro para o cargo e ficar com a liderança do governo para poder entregá-la a Lelo Coimbra.

Isolado no Palácio

O Planalto, no entanto, pretende colocar Lelo na liderança da maioria, o que não acalmaria a bancada, segundo fonte.

— O PMDB está há muito tempo longe do núcleo político do governo. Já perdeu a Secretaria de Governo”, disse a fonte. “Isso não acalma nada” —avaliou.

O presidente viaja nesta sexta-feira para a Bahia, onde passa o Carnaval com a família na base naval de Aratu. Ao retornar, enfrentará a nomeação do ajudante nas Relações Exteriores, cargo vago com o pedido de demissão de José Serra. Trata-se de outra defecção marcante para Temer, que se isola cada vez mais no Palácio do Planalto.

Renúncia de Serra esconde preocupação com Lava Jato, dizem analistas

Serra e Temer estão envolvidos em esquema de propina na Petrobras, segundo delação premiada

Serra é acusado pela Odebrecht, em delação premiada no âmbito da Operação Lava Jato, de ter recebido R$ 23 milhões em propina na Suíça

 

Por Redação – de Brasília

 

Ocupante do Ministério das Relações Exteriores, o senador José Serra (PSDB-SP) teria mais motivos do que alegou para deixar o posto, na noite passada. Primeiro tucano a integrar a equipe do presidente de facto, Michel Temer, Serra alegou motivos de saúde na carta em que pediu sua exoneração.

Serra e Temer estão envolvidos em esquema de propina na Petrobras, segundo delação premiada
Serra e Temer estão envolvidos em esquema de propina na Petrobras, segundo delação premiada

“Faço-o com tristeza, mas em razão de problemas de saúde que são do conhecimento de Vossa Excelência, os quais me impedem de manter o ritmo de viagens internacionais inerentes à função de chanceler”, diz ele.

Segundo o tucano, o tempo para sua recuperação, de acordo com os médicos, é de quatro meses. “Para mim, foi motivo de orgulho integrar sua equipe”, afirma. Mas analistas políticos discordam.

Serra é acusado por executivos da construtora Norberto Odebrecht, em delação premiada no âmbito da Operação Lava Jato. Ele teria recebido R$ 23 milhões em propina, na Suíça.

Outras razões

Há, ainda, partidários da tese de que o tucano fora deixado de lado nas decisões políticas, principalmente no foro econômico. Eles se somam àqueles que presumem a existência de outros motivos para deixar o Itamaraty. A crescente impopularidade do chefe imediato, Michel Temer, teria pesado na decisão do parlamentar.

Serra ainda alimenta expectativas de concorrer, novamente, à Presidência da República. Seguir na companhia de Temer, disseram alguns de seus correligionários à reportagem do Correio do Brasil, seria um desgaste ainda maior à sua imagem pública.

Vigora, ainda, a versão de que a Lava Jato aproxima-se cada vez mais do cerne político do Palácio do Planalto. E estaria por causar estragos irreversíveis no governo Temer. Mesmo a hipótese de cassação da chapa Dilma-Temer, no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) também teria pesado na despedida de Serra.

Temer tem dificuldade para escolher próximo ajudante na Justiça

O secretário de Segurança Pública do Rio de Janeiro, José Mariano Beltrame

Um dos nomes cotados para a recém-criada secretaria de Segurança, no Ministério da Justiça, o ex-secretário de Segurança Pública do Estado do Rio de Janeiro José Mariano Beltrame também disse “não” a Temer

 

Por Redação – de Brasília

 

Após uma série de negativas aos convites do presidente de facto, Michel Temer, para completar a vaga deixada por Alexandre Moraes, hoje ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), na pasta da Justiça, aumenta a pressão dos partidos que integram a base aliada. PSDB e PMDB disputam o cargo.

O secretário de Segurança Pública do Rio de Janeiro, José Mariano Beltrame
Ex-secretário de Segurança Pública do Rio de Janeiro, José Mariano Beltrame declinou do convite de Temer para uma secretaria no Ministério da Justiça

Um dos nomes cotados para a recém-criada secretaria de Segurança, no Ministério da Justiça, o ex-secretário de Segurança Pública do Estado do Rio de Janeiro José Mariano Beltrame também disse “não” a Temer. Ele afirma que não quer exercer nenhum cargo público até o fim de 2018, mantendo-se na iniciativa privada, com consultorias e palestras, conforme noticiou o colunista Ancelmo Gois, de um dos jornais conservadores cariocas.

— Sempre fico lisonjeado com a lembrança do meu nome, mas já tenho compromissos assumidos — rejeitou.

Questões éticas

Além de Beltrame, o ex-ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Carlos Velloso, também cotado para assumir o Ministério da Justiça, rejeitou o convite. O magistrado foi indicado pelo PSDB, que apoia a gestão Temer, era uma das opções aprovadas pelas forças de extrema direita que integram o governo.

Velloso, que já havia demonstrado interesse em assumir o cargo, abriu mão do convite após consultar seus familiares e alegou impedimentos de ordem ética para isso. Com mais essa recusa, Temer voltou a trabalha com a opção de José Bonifácio de Andrada, vice-procurador-geral da República.

Indefinição

Assim, a nomeação para o Ministério da Justiça continua indefinida. O subchefe de Assuntos Jurídicos da Casa Civil, Gustavo do Vale Rocha, também foi cotado para a pasta. Mas teria sido descartado em seguida. Ajudantes de Temer disseram a jornalistas que se trata de um advogado brilhante, mas ainda muito jovem para a função.

Principal assessor jurídico da Presidência da República, Rocha contava com apoio de ministros peemedebistas. Ele contaria, ainda, com os votos de alguns deputados do PMDB. Ele já advogou para o presidente cassado da Câmara, Eduardo Cunha. Também, para a direção do partido; além de ter boa relação com parlamentares. O nome de Rocha cresceu depois que Cunha encaminhou à Justiça uma lista de perguntas. Algumas delas poderiam implicar Temer na Lava Jato.

Em conversas com seus assessores, Temer tem dito que gostaria de um nome “de peso” para o Ministério da Justiça. O peemedebista teria conversado, segundo a mídia conservadora, “com conselheiros jurídicos em São Paulo”. Ele tenta achar uma solução para o cargo, sem titular desde o dia 7 deste mês. Alexandre de Moraes se licenciou para defender sua indicação ao Supremo Tribunal Federal (STF) junto aos senadores”.

Maia admite que será difícil aprovar lei sobre recuperação fiscal

Rodrigo Maia

O principal alvo do projeto de recuperação fiscal do governo Temer são as companhias distribuidoras de água. A exemplo da Cedae, no Rio de Janeiro. Há um estudo em curso, encomendado pela Agência Nacional de Águas

 

Por Redação – de Brasília

 

Presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia (DEM-RJ) admitiu, nesta terça-feira, que será difícil a aprovação de projeto de lei sobre recuperação fiscal de Estados estrangulados financeiramente. A União não cede quanto às contrapartidas.

Rodrigo Maia
A ideia é votar medidas provisórias e o projeto que trata da recuperação fiscal dos Estados com a União já na primeira semana de março

— Eu não sei se é fácil passar. O problema é que vamos ter de explicar aos deputados que o governo entende que as condições que ele tem para poder assinar esse contrato é com as contrapartidas no projeto de lei complementar. Não quer dizer que eu concorde — acrescentou.

O projeto a ser encaminhado ao Congresso Nacional prevê que os Estados que aderirem ao regime só poderão contratar empréstimos para finalidades predeterminadas pela União. Entre elas, o financiamento de programa de desligamento voluntário de pessoal e a reestruturação de dívidas junto a bancos. A antecipação da receita de privatização de empresas para quitação de passivos também consta do projeto.

Privatização da água

O Estado do Rio de Janeiro tem se preparado para conseguir a ajuda da União num momento em que não consegue honrar compromissos. Sequer consegue pagar o salário do funcionalismo. O principal alvo do governo Temer são as companhias distribuidoras de água, a exemplo da Cedae, no Rio de Janeiro. Há um estudo em curso, encomendado pela Agência Nacional de Águas. Este visa estruturar o segmento para que possa ser privatizado, segundo apurou a reportagem do Correio do Brasil.

Questionado se o projeto com as contrapartidas teria condições de prosperar na Câmara, Maia afirmou ser preciso dialogar com os deputados. “(O diálogo é importante) para ver se tem algum ambiente diferente do que tinha ano passado para se aprovar desse jeito”.

— Eu não consultei ninguém porque esse texto ainda não é público. Mas se o ambiente do ano passado continuar nesse ano, a gente sabe que é difícil. Não adianta a gente negar — disse.

No ano passado, o governo já havia enviado projeto de lei sobre o assunto. O texto foi incorporado ao projeto sobre a renegociação da dívida dos Estados. Mas, ao votá-lo, a Câmara dos Deputados afrouxou as contrapartidas que seriam exigidas dos Estados interessados em participar, o que acabou fazendo com que o presidente Michel Temer vetasse o regime de recuperação fiscal.

Ciro diz que desistirá da candidatura se Lula disputar Presidência

Ciro Gomes vai tocando a campanha ao Palácio do Planalto, enquanto Lula decide se concorrerá ou não em 2018, se houver eleição

Apesar dos sinais erráticos, Ciro alimenta a curiosidade de jornalistas, dando um perfil do nome que escolheria para ministro da Fazenda. Disse que será “um empresário da produção”

 

Por Redação, com RBA – de São Paulo

 

Ex-governador do Ceará, o advogado Ciro Gomes (PDT) ainda não sabe se será candidato presidente da República em 2018. Embora tenha viajado por Estados brasileiros e concedido entrevistas na qualidade de pré-candidato, o ex-ministro da Fazenda do ex-presidente Itamar Franco segue adiante com seus planos sem muita firmeza.

Ciro Gomes vai tocando a campanha ao Palácio do Planalto, enquanto Lula decide se concorrerá ou não em 2018, se houver eleição
Ciro Gomes vai tocando a campanha ao Palácio do Planalto, enquanto Lula decide se concorrerá ou não em 2018, se houver eleição

— Vou cumprir a missão que o partido determinar que eu cumpra. E se for a de servir o Brasil como seu presidente, é com entusiasmo de jovem que vou abraçar essa causa — afirmou o ex-ministro da Integração Nacional. Ele atuou no primeiro mandato de Luiz Inácio Lula da Silva e deixou o cargo para se candidatar à Câmara dos Deputados.

Fatores imponderáveis

Apesar dos sinais erráticos, Ciro alimenta a curiosidade de jornalistas, dando um perfil do nome que escolheria para ministro da Fazenda. Disse que será “um empresário da produção” e que não poderia falar mais nada.

— Senão dou até o nome. Mas está desenhado. E o meu presidente do Banco Central será um acadêmico. Nada de executivo de banco na economia — prometeu.

Político experiente, de temperamento explosivo, Ciro avalia os rumos de sua candidatura e sabe que ela depende de fatores imponderáveis. O principal deles é seu ex-chefe imediato: Luiz Inácio Lula da Silva.

— Ciro já admitiu que só será candidato na hipótese de Lula não ser, e que não disputa com Lula. Com Lula candidato, acho que ele não concorre. Não vai fazer esse contraponto. Com o Lula fora, ele não apenas concorre como é uma candidatura muito competitiva — o analista político Antônio Augusto de Queiroz.

Sem Lula

Em conversa com jornalistas, Toninho, como é conhecido na Diretoria do Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar (Diap), acrescenta:

— (Caso Ciro seja candidato) vai assumir em certa medida as bandeiras que seriam da centro-esquerda, já que é muito difícil construir uma candidatura no campo do PT que não seja do Lula.

Em debate no Atlantic Council, instituto de pesquisas e debates internacionais, em Washington, em julho do ano passado, o próprio Ciro Gomes declarou:

— Com Lula, não quero mais ser candidato.

A também cientista política Maria do Socorro Sousa Braga, da Universidade Federal de São Carlos (Ufscar), considera que o tabuleiro do xadrez político ainda está se desenhando para as eleições do ano que vem. E, numa conjuntura de crescimento da direita, como se verifica hoje, “a esquerda vai ter que adotar certas estratégias para saber se é o momento de se dividir ou unir forças”.

— Se a esquerda fizer o jogo de se unir, ou o Ciro retira a candidatura, ou pode até ser vice do Lula, se Lula for candidato. Se ele entender que tem possibilidade de vencer com o Lula, acho que ele retiraria a candidatura, diante das forças à direita. Hoje, o PT não tem outro candidato que possa assumir a tarefa de ser candidato — diz Maria do Socorro.

Campo progressista

Outro fator que, para Queiroz, do Diap, deve ser levado em consideração é que Ciro é um nome forte numa composição, na disputa pelo campo progressista de centro-esquerda, desde que “amarrado a um programa”.

— É um nome muito interessante, porque não pesa sobre ele denúncia de corrupção, tem experiência política e administrativa, e se tiver compromisso com agenda. Mas se ficar solto, tem mais vocação liberal do que se imagina — disse.

O analista lembra que Ciro começou a carreira política no PDS (depois PFL e DEM), passou pelo PMDB e PSDB. Para Queiroz, sem estar “amarrado” a um programa progressista, Ciro pode ter posição mais liberal do que se espera. Inclusive na gestão da Previdência.

— Mas, dentro de uma composição de centro-esquerda e compromissado com ela, ele tende a cumprir os acordos. E com uma visão mais trabalhista, amarrada com a doutrina do partido dele – disse Queiroz.

‘Pau vai cantar’

Nesse caso, seguiu, “seria uma candidatura muito competitiva, com um discurso que, ao mesmo tempo, é considerado moderno. Não questiona a economia de mercado, e tem compromisso com uma proteção social”. E acrescenta:

— Tem a vantagem de saber dialogar com os liberais sabendo o que pensam, porque já foi do lado de lá. Passou em todos os partidos tradicionais, conhece bem a linguagem do mercado.

Em recente discurso aos pedetistas, Ciro Gomes afirmou, ao seu estilo, que, quando for presidente, não será derrubado.

Sou novinho demais para me matar, como Getúlio. E não deixarei ninguém fazer um golpe, como fizeram com João Goulart e com a Dilma. Chegando lá o pau vai cantar, comigo ninguém me derruba — conclui.

O credo dos oprimidos

Cada um é portador de verdade mas ninguém pode ter o monopólio dela, nem uma religião, nem uma filosofia

Roma não se deu conta de que catolicismo da ex-colônia, longe dos centros urbanos, que só iriam superar a população rural em meados do século XX

 

Por Maria Fernanda Arruda – do Rio de Janeiro

 

A partir de 1950, com a criação da Cruzada Nacional de Evangelização, começou a evangelização das massas, com o uso intensivo do rádio, concentrando seu proselitismo no poder de cura divina, marcando o começo da expansão do pentecostalismo no Brasil. Foram fundadas a Igreja do Evangelho Quadrangular, e em seguida: O Brasil para Cristo, Igreja Pentecostal Deus é Amor, Casa da Benção, Igreja Unida, além de outras menores.

Maria Fernanda Arruda
Maria Fernanda Arruda é colunista do Correio do Brasil, sempre às sextas-feiras

Cândido Procópio Ferreira de Camargo, em 1973, publicou o livro “Católicos, Protestantes, Espíritas”, precedidos de “Kardecismo e Umbanda” e “Igreja e Desenvolvimento”, fortalecendo a pesquisa no Brasil sobre a religiosidade como fenômeno social e político. No Brasil, até então “país essencialmente católico”, a Igreja Católica, que se permitia combater o kardecismo como heresia, começava a ser desafiada pelas seitas pentecostais: elas respondiam às necessidades dos imigrantes que vinham do Nordeste e das zonas rurais, violentados em seus valores culturais, na sua religiosidade mística e milenarista, buscando o milagre da sobrevivência nas grandes cidades.

Roma não se deu conta de que catolicismo da ex-colônia, longe dos centros urbanos, que só iriam superar a população rural em meados do século XX, sempre foi uma forma de religiosidade marcada por formas de intimismo que davam espaço para o culto dos santos, na espera do milagre, que tomaria forma de objeto no ex-voto, as procissões e as rezas, uma religiosidade rústica, aquela que Antônio Conselheiro construiu em Canudos. O pau-de-arara não permitiu que ela fosse trazida com os “baianos”.

Na cidade, a partir do Concílio Vaticano II, esse catolicismo devocionário e popular foi abandonado. O latim, a linguagem que, por ser divina deveria ser secreta, foi abandonada, substituída pela língua dos homens comuns; a solenidade divina, substituída pelo som humanamente intimista do violão. Deixavam-se de lado os responsórios e os cantos devotos, que afirmavam um Deus muito distante e ao mesmo tempo familiar e capaz de entender as dores humanas, substituídos pelas canções convocatórias para as lutas sociais.

Nos anos de 1970, as “comunidades de base” atraíram uma parcela considerável de um operariado que estava nascendo e que optava por elas, em detrimento do sindicato. Um levantamento de 1975 mostrou que 78% dos operários se declaravam católicos; e, mais impressionante do que isso, 30% frequentando assiduamente a sua igreja. A Igreja Católica que apoiou Lula, aproximando os estudantes dos operários, foi essa, a das Comunidades Eclesiais de Base, que Roma e os Quartéis trataram de sepultar. Mas uma Igreja que não chegou às favelas, à periferia, além dos bairros operários.

Cada um é portador de verdade mas ninguém pode ter o monopólio dela, nem uma religião, nem uma filosofia
Cada um é portador de verdade mas ninguém pode ter o monopólio dela, nem uma religião, nem uma filosofia

A terceira onda, a neopentecostal, teve início na segunda metade dos anos 70. Fundadas por brasileiros, a Igreja Universal do Reino de Deus (Rio de Janeiro, 1977), a Comunidade Evangélica Sara Nossa Terra (Brasília, 1992) e a Renascer em Cristo (São Paulo, 1986) são as maiores. Utilizam intensamente a mídia eletrônica e aplicam técnicas de administração empresarial, com uso de marketing, planejamento estatístico, análise de resultados etc. Algumas delas pregam a Teologia da Prosperidade, pela qual o cristão está destinado à prosperidade terrena, rejeitando os tradicionais usos e costumes pentecostais. O neopentecostalismo constitui a vertente pentecostal mais influente e a que mais cresce. Também são mais liberais em questões de costumes, sem prejuízo de sua pregação de moralismo rígido.

A doutrina de renovação do Pentecostalismo ultrapassou até mesmo as fronteiras do Protestantismo, surgindo movimentos de renovação pentecostal Católica Romana e Ortodoxa Oriental, como a Renovação Carismática Católica.

O que é esse admirável mundo novo? Fluidez do campo religioso, baixo grau de institucionalização das igrejas, proliferação de seitas, fragmentação de crenças e práticas devocionais, seu rearranjo constante ao sabor das inclinações pessoais ou das vicissitudes da vida íntima de cada um: esses seriam os sinais que revelariam a face da modernidade. Modernidade ambígua, no entanto, porque, de modo contraditório, ela mesma seria responsável por promover — surpreendentemente, se pensado que tudo isso surgiu como expansão do protestantismo, religião histórica da tolerância e do valor da razão como base da crença — o enrijecimento das posições institucionais, a disputa no interior do campo religioso em cada uma das confissões e a intolerância para com as crenças das igrejas ou formas de religiosidade rivais, elevando ao mesmo tempo o irracionalismo aparentemente mais delirante à condição de prova da fé.

Da mesma forma, à privatização e intimização das crenças e práticas constatadas no universo religioso corresponderia, contraditoriamente, mostrando uma outra face dessa modernidade, um envolvimento cada vez maior e mais complexo por parte das igrejas com o mundo social, sua busca de controle dos instrumentos de riqueza e prestígio, e a disputa aberta por posições de poder na vida pública, graças à participação direta na política.

O que realmente há de modernidade no neopentecostalismo? É a modernidade que o capitalismo globalizante impôs ao Brasil e aos brasileiros. Ele é a religião da modernidade,que não se confunde absolutamente com a religiosidade popular dos primeiros momentos do pentecostalismo no País, e que existe, tanto nas “seitas evangélicas”, como no “catolicismo carismático”. Não é expressão de religiosidade espontânea, mas sim um produto fabricado para as massas excluídas ou à beira da exclusão. Abre-se espaço para uma onda de misticismo histérico (provocado para ser assim), a multiplicação de milagres transmissíveis pela televisão. Os fiéis são chamados a uma participação ativa, consagram-se bispas e bispos com democracia extrema. Tudo se pode fazer, tudo se cobra e tudo se paga. Cria-se o fanatismo que leva ao messianismo, o milenarismo erigido em um Templo de Salomão.

A religião da modernidade não se esgota no neopentecostalismo, embora encontre nele o seu imenso contingente. Mas é uma religiosidade que se expressa também através do catolicismo carismático, de rituais que ensinam mantras e meditações, em arremedos de budismo. Enfim, a religião da modernidade se encontra em estantes e estantes de todas as livrarias, habitadas pela literatura de autoajuda.

As informações do IBGE mostram que o número de protestantes aumentou entre 2000-2010 em 61%. As igrejas evangélicas somam 42,3 milhões de fiéis: batistas (3,7 milhões), presbiterianos (1,5 milhão), adventistas do sétimo dia (1,5 milhão), luteranos (1 milhão) e metodistas (340 mil). Entre os pentecostais e neopentecostais, o grupo maior é o dos seguidores da Assembleia de Deus (8,4 milhões), Congregação Cristã do Brasil (2,5 milhões), Igreja Universal do Reino de Deus (2,1 milhões) e a Igreja do Evangelho Quadrangular (1,8 milhão).

O neopentecostalismo conforma um exército de excluídos, pobres e até miseráveis, que não guardam nenhum traço de religiosidade construída nos tempos de colônia, com os santos e procissões. E que fazem uma nova expressão de histeria coletiva, embalada pela repetição incansáveis de “aleluia, aleluia, aleluia” berrados a pleno pulmão, leituras extremamente malfeitas de textos bíblicos, milagres promovidos em linha-de-montagem, todos crendo que a sua condição é pecado, que só o dinheiro redime, e que se consegue, doando-se aquele que se tenha, mesmo que pouco, e mesmo o que não se tem, para glória de conforto dos pastores e bispos.

Já as igrejas neopentecostais organizam-se como empresas, arrecadam e lucram, isentas de encargos tributários, ostentando riquezas nos seus prédios imensos, monumentos ao gosto debochado que confunde os seus seguidores. Edir  Macedo Bezerra tornou-se em espaço curto de tempo o maior entre os bispos, senhor do maior rebanho de seguidores-contribuintes, construtor de templos monumentais, líder da Igreja Universal do Reino de Deus, dono da Televisão Record  – um “tele-evangelista”. É apontado como o mais rico entre os ricos pastores que regem essa noite escura de ignorância.

Maria Fernanda Arruda é escritora, midiativista e colunista do Correio do Brasil.

Mais duas ações contra Lula caem por terra na Lava Jato

O senador Delcídio do Amaral (PT-MS)

Amaral prestou depoimento nesta na 10ª Vara Federal de Brasília, onde tramita o processo contra Lula. Por cerca de três horas, na noite passada, o ex-parlamentar mostrou uma aparente “confissão”

 

Por Redação – de Brasília

 

Não bastassem a falta de provas no caso do triplex no Guarujá e o depoimento da empresa Granero, que nega qualquer irregularidade no armazenamento do legado do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em bens materiais, o juiz Sérgio Moro vê mais um processo contra o líder petista cair no vazio. De cinco inquéritos a que responde, no âmbito da Operação Lava Jato, restam apenas dois adiante.

O senador Delcídio do Amaral (PT-MS)
O senador cassado Delcídio do Amaral (PT-MS) admitiu ter agido por vontade própria

Esta ação penal segue contra Lula e mais seis pessoas por suposta compra de silêncio de Nestor Cerveró, ex-diretor da Petrobras. O senador cassado Delcídio do Amaral (PT-MS) agora apresenta uma nova versão dos fatos. Ele reiterou a tese contra Lula, mas não apresentou provas materiais e, menos ainda, assumiu o compromisso de dizer a verdade, e apenas a verdade.

Amaral prestou depoimento nesta na 10ª Vara Federal de Brasília, onde tramita o processo. Por cerca de três horas, na noite passada, o ex-parlamentar mostrou uma aparente “confissão”. Afirmou, no entanto, ter sido uma “sandice” procurar a família do pecuarista José Carlos Bumlai. Ele o teria feito, supostamente, a pedido de Lula, para obstruir a Justiça.

Cerveró

A investigação com base apenas na delação premiada de Amaral, prestada à Procuradoria-Geral da República no último ano, sustenta que o ex-presidente atuou para comprar o silêncio de Cerveró. Tentava fazê-lo antes que fechasse um acordo de delação com os procuradores da República.

O ex-senador narrou a conversa com o ex-presidente em uma reunião no Instituto Lula, ainda em maio de 2015. Teriam conversado sobre a possibilidade de Cerveró comprometer a ele e Bumlai em uma eventual delação. De forma completamente genérica, Lula teria dito a Delcídio para “ver essa questão do Bumlai”.

O “ver essa questão” teria sido interpretado por Amaral como uma “ordem”. O ex-senador decidiu, então, procurar a família do pecuarista. Este, por sua vez, teria sugerido o pagamento de R$ 50 mil mensais de ajuda financeira à família de Cerveró.

Uma sandice

“É nesse contexto que entendemos ter ele atribuído ao ex-Presidente Lula uma frase para que verificasse o que poderia ser feito para ajudar a família de José Carlos Bumlai. Essa afirmação, não foi comprovada. Não configura qualquer tentativa de obstrução à justiça”, informaram os advogados de Lula, em nota.

A narrativa hipotética confirma que o ex-presidente não emitiu uma “ordem” efetivamente. Delcídio admitiu, em seu depoimento, total responsabilidade.

“Cometi a sandice de tomar essa atitude”, confessou.

A fragilidade do depoimento prestado nesta quarta vai além. Tenta envolver o ex-presidente. O senador cassado afirmou que teve “muitas conversas solitárias com o presidente Lula”. Mas não apontou uma testemunha, sequer, que confirmasse a sua versão.

“Delcidio ainda admitiu não haver testemunha dessa narrativa. Ele reconheceu não ter intimidade com Lula. Apenas proximidade política por ser líder do governo a partir do início de 2015. E foi nessa categoria que o ex-Presidente o recebeu”, reportaram os advogados Cristiano Zanin Martins e Roberto Teixeira.

Contratos

Delcídio do Amaral foi preso em novembro de 2015, por determinação do Supremo Tribunal Federal (STF). A prisão ocorreu após o filho do ex-diretor da estatal, Bernardo Cerveró, apresentar aos investigadores um áudio de Amaral. Ele esteve com a família de Cerveró, negociando a “mesada” e, inclusive, incentivando uma fuga do ex-diretor à Espanha.

Em nota, Zanin e Teixeira afirmaram que as declarações “revelaram de forma inequívoca que ele tinha interesse próprio no processo de delação premiada de Nestor Cerveró”.

“Delcidio Amaral admitiu que se sentiu ameaçado em conversas com familiares de Cerveró diante da possibilidade de o ex-diretor da Petrobras delatar supostos recebimentos de propina por ele, Delcidio, em contratos que a Petrobras firmou com a Alston e a GE, e, ainda, por supostas contribuições ilegais relativas à campanha de 2006 para o governo do Estado do Mato Grosso do Sul”, publicaram.

‘Mesada’

Ainda, a defesa de Lula lembrou que em depoimento prestado também à Justiça de Brasília, o próprio ex-diretor Nestor Cerveró disse que Delcídio do Amaral tinha interesses próprios em suas investidas e que a negociação da “mesada” buscavam dissuadi-lo de delatar contra o próprio ex-parlamentar.

E não apenas Nestor Cerveró, como também a advogada do ex-diretor e seu filho Bernardo, confirmaram os interesses individuais de Amaral. Assim, tentou envolver o ex-presidente Lula na tratativa planejada pelo ex-senador.

“Todos os demais depoimentos colhidos nessa ação penal colidem com a versão de Delcídio e deixaram claro que Lula jamais fez direta ou indiretamente qualquer intervenção no processo de delação premiada de Nestor Cerveró, seja para impedir, seja para retardar o ato”, concluiu a defesa de Lula. 

Leia, adiante, a nota da defesa do ex-presidente:

Delcidio do Amaral foi interrogado nesta data (15/2) pelo juízo da 10ª Vara Federal de Brasília, no processo relativo à suposta “compra do silêncio de Nestor Cerveró”, sem ter assumido o compromisso de dizer a verdade.

Suas declarações revelaram de forma inequívoca que ele tinha interesse próprio no processo de delação premiada de Nestor Cerveró. Delcidio Amaral admitiu que se sentiu ameaçado em conversas com familiares de Cerveró diante da possibilidade de o ex-diretor da Petrobras delatar supostos recebimentos de propina por ele, Delcidio, em contratos que a Petrobras firmou com a Alston e a GE, e, ainda, por supostas contribuições ilegais relativas à campanha de 2006 para o governo do Estado do Mato Grosso do Sul.

Nestor Cerveró, quando ouvido como testemunha pelo mesmo juízo (8/11/2016), reconheceu, com o compromisso de dizer a verdade, que as investidas de Delcidio tinham interesse próprio – buscavam dissuadi-lo de delatar o próprio Delcidio. A advogada Alessi Brandão, que assessorou Cerveró no processo de delação, depôs na mesma data e confirmou o que foi dito pelo seu cliente. Na mesma direção foi o depoimento de Bernardo Cerveró, em 28/11/2016, na qualidade de principal responsável pelo processo de delação de seu pai.

‘Bazofia’

Hoje, Delcidio também admitiu em seu interrogatório fazer uso recorrente de “bazofia”, usando de afirmações que não correspondem à realidade. É nesse contexto que entendemos ter ele atribuído ao ex-Presidente Lula uma frase para que verificasse o que poderia ser feito para ajudar a família de José Carlos Bumlai. Essa afirmação, além de não comprovada, não configura qualquer tentativa de obstrução à justiça. Delcidio ainda admitiu não haver testemunha dessa narrativa. Ele reconheceu não ter intimidade com Lula, apenas proximidade política por ser líder do governo a partir do início de 2015 e foi nessa categoria que o ex-Presidente o recebeu.

Todos os demais depoimentos colhidos nessa ação penal colidem com a versão de Delcidio e deixaram claro que Lula jamais fez direta ou indiretamente qualquer intervenção no processo de delação premiada de Nestor Cerveró, seja para impedir, seja para retardar o ato.

Cristiano Zanin Martins e Roberto Teixeira

Maia conta com apoio no Senado para extinguir a Operação Lava Jato

Rodrigo Maia, eleito pela extrema direita, contou com os votos da esquerda

Citado na Operação Lava Jato, o presidente da Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) do Senado, Edison Lobão (PMDB-MA), disse a jornalistas, nesta quarta-feira, que a Casa analisará uma eventual proposta de anistia ao caixa 2, o que encerraria a investigação

 

Por Redação – de Brasília

 

A Câmara dos Deputados estava prestes a votar, nesta quarta-feira, o projeto que institui uma nova rodada de regularização de recursos brasileiros não declarados no exterior. Segundo afirmou o presidente da Casa, Rodrigo Maia (DEM-RJ), na noite passada, a votação estava prevista na pauta desta quarta-feira.

Rodrigo Maia, eleito pela extrema direita, contou com os votos da esquerda
E, quem diria, Rodrigo Maia, eleito pela extrema direita, contou com os votos da esquerda

A definição sobre a inclusão do projeto na pauta de votações deve ser feita após reuniões com governadores. Os líderes das bancadas da Casa também iriam se reunir, nesta tarde.

— Eu acho que o texto está maduro para ser votado, é uma preocupação do governo federal em relação à sua execução orçamentária. A repatriação tem um peso importante nisso, para que o contingenciamento seja menor, e há uma preocupação de Estados e municípios, porque a crise ainda não acabou — disse Maia a jornalistas.

A proposta, já aprovada no Senado, prevê prazo de 120 dias para adesão ao programa após a publicação da lei. Determina, também, que 54% dos recursos arrecadados ficarão com a União. Os 46% restantes serão divididos entre Estados, municípios e Distrito Federal.
O contribuinte que decidir aderir ao programa terá de pagar alíquota de 17,5% de multa e de 17,5% de imposto de renda.

Projeto polêmico

Maia afirmou também que a decisão de permitir ou não a existência de diretórios partidários provisórios nos Estados e nos municípios cabe ao Congresso Nacional. Mas ressaltou a importância de construir um acordo entre os partidos e o Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

— Do meu ponto de vista, não queremos atropelar o Tribunal, mas entendemos que essa é uma atribuição de lei. Acho que é uma atribuição do Congresso Nacional. Se eu quisesse confrontar, poderia estar votando agora (o Projeto de Lei 4424/16), porque tinha voto para aprovar. Eu não quero confrontar o TSE, quero chegar em um acordo — ressaltou o presidente.

A medida, no entanto, tem sido bombardeada por juristas, a exemplo do juiz Luiz Flavio Gomes. Assista ao vídeo:

[youtube https://www.youtube.com/watch?v=ppqLcUXdApc]

Apoio no Senado

Investigado na Operação Lava Jato, o presidente da Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) do Senado, Edison Lobão (PMDB-MA), disse a jornalistas, nesta quarta-feira, que a Casa analisará uma eventual proposta de anistia ao caixa 2, sem problema algum. Eles espera apenas a tramitação na Câmara dos Deputados.

Para o senador, a medida não fere a Constituição:

— Eu quero dizer que é constitucional a figura da anistia, qualquer que ela seja.

O senador maranhense também apoia mudanças na legislação sobre as delações premiadas.

— Delação só deve ser admitida com o delator solto — sentencia.

Crítico contumaz da Lava Jato, Lobão afirmou que a investigação “virou um inquérito universal”.

— Em que isso vai resultar? Não sei. Não acho que tem que ser extinta, mas conduzir ao ponto que estamos chegando, da criminalização da vida pública, é o que nos envia para a tirania — concluiu.

Decisão do STF mantém Moreira Franco ministro e com foro privilegiado

Moreira Franco

Moreira Franco está envolvido no processo que investiga a corrupção na Petrobras, entre outras estatais brasileiras. Ele foi delatado por executivos da empreiteira Norberto Odebrecht

 
Por Redação – de Brasília

 

Uma decisão do ministro Celso de Mello, do Supremo Tribunal Federal (STF), conferiu no início da noite desta terça-feira, foro privilegiado ao ex-governador do Estado do Rio Moreira Franco. Na equipe de primeiro escalão do presidente de facto, Michel Temer, o agora secretário-geral da Presidência da República passa a tratar, entre outros temas, da verba bilionária de publicidade do governo federal.

Moreira Franco
O secretário Moreira Franco passa a ter status de ministro. Assim, não será julgado pela corte do juiz Sérgio Moro nas acusações de corrupção

Moreira Franco está envolvido no processo que investiga a corrupção na Petrobras, entre outras estatais brasileiras. Ele foi delatado por executivos da empreiteira Norberto Odebrecht. Supostamente, recebia propinas nas concessões de aeroportos, quando ministro da Aviação Civil, ainda no governo da presidenta deposta Dilma Rousseff.

Cargo especial

O magistrado considerou que não houve desvio de finalidade na indicação. Ou seja, conceder ao peemedebista o status de ministro não teve, como objetivo, conceder-lhe foro privilegiado.

O Supremo recebeu dois mandados de segurança que questionam a nomeação de Moreira Franco. O cargo que ocupa, a Secretaria-Geral da Presidência, foi recriada por Temer especialmente para abrigar o aliado. Segundo os partidos, a nomeação teve a intenção de garantir foro privilegiado ao político fluminense. Assim, ele passa a ser julgado apenas pelo STF, e não mais pelo juiz Sérgio Moro, de Curitiba.

Celso de Mello havia pedido esclarecimentos de Temer sobre a decisão de nomear Moreira. Por meio de documento enviado pela Advocacia-Geral da União (AGU), Temer disse que “não houve qualquer má intenção do Presidente da República em criar obstruções ou embaraços à Operação Lava Jato”.

Moreira e Lula

O governo conseguiu, na Justiça, semana passada, derrubar liminares em primeira instância que barravam a nomeação. Na sexta-feira, porém, uma decisão do Tribunal Regional Federal da 2ª Região, do Rio de Janeiro, manteve Moreira Franco ministro, mas sem foro privilegiado. A decisão do Supremo em favor de Moreira Franco segue na direção oposta àquela tomada em relação ao ex-presidente Lula. O líder petista foi impedido pelo mesmo STF de assumir a Casa Civil, quando sequer era réu na Lava Jato.