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China e Egito promovem novo alinhamento no Oriente Médio, avalia analista

Com a mídia comercial dedicada apenas à Síria, praticamente não se levou ao conhecimento do público o afastamento Arábia Saudita/Egito, sob a sempre crescente influência da China como ator hoje já crucial no Oriente Médio

 

Por Christina Lin – de Washington

 

A separação Riad-Cairo começou em abril de 2016, quando o presidente do Egito Abdel Fattah al-Sisi aceitou ceder o direito territorial sobre duas de suas ilhas no Mar Vermelho, Tiran e Sanafir, em troca de lucrativos contratos e a promessa de que Riad garantiria apoio diplomático ao governo do Egito.

Mas a cessão do território despertou a fúria da população egípcia, com o ex-candidato á presidência (2014) Hamdeen Sabahi denunciando que a cessão violava a Constituição do Egito. O fato provocou ataques à legitimidade de Sisi por ter se ‘rendido’ à antes sempre orgulhosa nação árabe do Egito, aos sauditas.

A analista geopolítica Christina Lin observa o realinhamento de países do Oriente Médio com a China, a Rússia e o Irã
A analista geopolítica Christina Lin observa o realinhamento de países do Oriente Médio com a China, a Rússia e o Irã

Adiante, a Suprema Corte do Egito anulou o acordo,. Em setembro, a anulação foi anulada e hoje tramita, novamente, para se anular a anulação. Atualmente, ninguém sabe com certeza se as ilhas continuarão a pertencer ao Egito ou se serão anexadas à Arábia Saudita, marcando o que Issandr El Amrani, do International Crisis Group, descreve como um relacionamento “baseado numa espécie de renegociação passiva-agressiva perpétua”.

China, Egito e Eurásia

Em outubro último, a fissura aprofundou-se. Teerã convidou o Egito para participar das conversações internacionais sobre a Síria e, dias depois, o Cairo votou a favor da resolução do Conselho de Segurança da ONU, proposta pela Rússia, de apoio ao governo sírio. Riad retaliou, cortando 700 mil toneladas de produtos refinados de petróleo, como parte do acordo e US$ 23 bilhões assinado no início de 2016.

Apesar de o Egito já ter mantido no passado boas relações com o rei Abdullah da Arábia Saudita, o relacionamento azedou depois que subiu ao trono o rei Salman mais amistoso em relação à Fraternidade Muçulmana – que é considerado grupo terrorista no Egito. Nesse contexto, Sisi começou a afastar o Cairo, do eixo Arábia Saudita, Turquia e Qatar no Oriente Médio.

O apoio do governo Obama à Fraternidade Muçulmana aprofunda no Egito o sentimento de o país ter sido traído pelos EUA, acrescido das ameaças dos Republicanos de cortar a ajuda a Sisi, por causa do que definem como “legislação antidemocrática” de Sisi, e do arrocho imposto pelas condições do FMI para não suspender subsídios à energia. Suspensão que pode desestabilizar ainda mais o Egito, mergulhado em ondas de ataques terroristas.

Oriente Médio

Bem diferente de Washington, Sisi vê Assad como uma muralha secular de defesa contra o extremismo islamista no Levante. Se Assad cair, o Líbano e a Jordânia cairão em seguida, e o Egito não quer acabar como a Líbia, com a Fraternidade e outras facções estraçalhando o país. Resposta a tudo isso, o Cairo se volta na direção de Rússia e Irã, formando o que a ex-professora de Oxford University Sharmine Narwani descreve como um novo “Arco de Segurança” contra o terror no Oriente Médio.

Com o Egito mudando sua posição para mais perto de Síria e Irã, solidifica-se a emergente coalizão eurasiana de Síria, Irã, Rússia, China e Índia. Forma-se, portanto, a grande e nova divisão que separa a Coalizão Eurasiana, em luta contra o terrorismo salafista, e a atual Coalizão de EUA/Turquia/Arábia Saudita/Qatar, que apoia jihadistas salafistas, tentando provocar mudança de regime na Síria.

Mais do que isso, com o Egito, que é a grande nação árabe sunita, já se alinhando ao governo sírio e o bloco eurasiano, o argumento de Riad – que não se cansa de repetir que o conflito na Síria seria conflito sectário – perde absolutamente todo o sentido.

Canal do Suez

Cairo também está rapidamente aprofundando seus laços com a China para ajudar a estabilizar a própria economia. Como maior estado comercial do mundo, a economia que rapidamente se aproxima de ser a maior do planeta, com a União Europeia como principal mercado para exportação, o comércio e o bem-estar econômico da China ainda dependem do Canal de Suez como importante rota de sobrevivência.

China e Sisi reconhecem que o apoio externo para a Fraternidade Muçulmana e o terrorismo que está crescendo no Sinai ameaçam a estabilidade do Canal de Suez. Esta, inseparavelmente ligada ao próprio desenvolvimento econômico e ao futuro do Egito. Segundo fontes militares, a colaboração de Morsi com grupos jihadistas do Sinai foi fonte do desentendimentos e eventual ruptura.

Na verdade, com US$5 bilhões anuais de renda que lhe vem dali, o Canal é fonte vital de moeda forte para um país que sofreu grave redução no turismo e nos investimentos exteriores desde 2011. Por tudo isso, a China ajudou a construir a Zona Econômica do Canal de Suez.

E, agora, tem planos para construir uma capital comercial-empresarial de US$45 bilhões a leste do Cairo. Pronta para investir US$15 bilhões em projetos de eletricidade, transporte e infraestrutura. Alguns desses projetos são financiados pelo Banco Asiático para Investimento e Infraestrutura chinês (BAII) do qual o Cairo é membro fundador.

Democracia de peões

A União Europeia também pode participar desses projetos. A maioria dos países europeus já se associaram ao BAII (EUA e Japão decidiram manter-se de fora). Sem dúvida, abre-se aí a possibilidade para China e UE coordenar o próprio Fundo Juncker da UE e o BAII, para cofinanciar projetos em terceiros países. Seguem em linha com a Política da Vizinhança Europeia para integrar no Mediterrâneo os vizinhos orientais e ocidentais e do sul.

Artigo recente publicado no jornal Al Ahram fala do desconforto no Egito contra a política de intervencionismo/mudança de regime dos EUA como a causa dessa ‘deriva’ do país em direção à Eurásia. E o presidente de Al Ahram El-Sayed Al-Naggar elogiou a iniciativa chinesa OBOR, “One Belt One Road” (Um Cinturão, Uma Estrada), como “exemplo de cooperação pacífica, com justiça, igualdade e liberdade para os países escolherem com quem preferem relacionar-se”. E que faz agudo contraste com o modo como os EUA “exploram as democracias como peões num jogo, para chantagear outros países” e “política vil, obsessiva de invasões”, que destruiu o Iraque, a Líbia e agora tenta destruir a Síria com “suas hordas de terroristas bárbaros”.

Essa visão ecoa com o que disse um colaborador já veterano do diário Asia Times, George Koo. Ele criticou a visão de liderança dos norte-americanos, comparando-a ao Projeto OBOR de Xi Jinping. O projeto do governo chinês é inclusivo e oferece “cooperação e colaboração como um caminho para a prosperidade de todos”. Enquanto “Obama vive de oferecer uma ‘cobertura’ de mísseis e uma trilha de morte e destruição”.

Realinhamento

Como disse a professora japonesa Saya Kiba na revista do Center for Strategic and International Studies (CSIS), a recente separação entre Filipinas e EUA não é movida pela quantidade de ajuda econômica ou militar que EUA ou China garantam ao país. Mas porque os dois blocos operam sobre valores opostos. Enquanto os EUA divulgam e tentam impor uma definição muito estreita de democracia e direitos humanos, que só cuida de encenar eleições e só tem expressão política, sem atenção séria ao engajamento de longo prazo para combater o terrorismo, ou a redução da miséria, a posição da China – de total não interferência e total respeito à soberania dos parceiros – vem ganhando cada vez mais atração nos países em desenvolvimento.

Para Duterte, a política dos EUA “é potencialmente de atropelar a soberania das Filipinas”, preocupação que também existe no Egito de Sisi e em outros aliados. Assim sendo, sem profunda reformulação da política exterior de invasões dos EUA, parece que o novo arco de segurança no Oriente Médio. E, para o Oriente Médio, continua a firmar-se cada vez mais. A paisagem geopolítica no Oriente Médio está em visível processo de realinhamento.

Christina Lin é bolsista do Centro de Relações Transatlânticas da Universidade SAIS-Johns Hopkins, onde se especializou nas relações entre a China, o Oriente Médio e o Mediterrâneo. É também consultora para o Centro de Inteligência Química, Biológica, Radiológica e Nuclear da Jane no IHS Jane’s.

Artigo publicado, originariamente, no Asia Times Online e traduzido para o português pelo Coletivo Vila Vudu.