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O instante político nas eleições presidenciais do Equador

No Equador, perguntei a várias pessoas, aos taxistas, porque não havia nada que pudesse indicar que as eleições vão acontecer dia 19 de fevereiro

 

Por Marilza de Melo-Foucher – de Quito

 

Aproveitei de meu primeiro final de semana em Quito para sentir e apreender a cidade. Nada melhor que ir ao centro, ao coração da cidade. Caminhei bastante, parei nas esquinas em busca de mobilizações políticas, de algum evento, comício, mas, para minha surpresa não se passava nada! Não vi nenhum cartaz pregado nos muros, nenhum grafite, a cidade estava impecavelmente limpa e sem agitação política. Uma estranha calma reinava…

O militar reformado Paco Moncayo disputa as eleições presidenciais do Equador por um conjunto de partidos da esquerda
O militar reformado Paco Moncayo disputa as eleições presidenciais do Equador por um conjunto de partidos da esquerda

Perguntei a várias pessoas, aos taxistas, porque não havia nada que pudesse indicar que as eleições vão acontecer dia 19 de fevereiro. Recebi varias respostas: “Os equatorianos não são agressivos, dai não existem brigas como em outros países”; “Os equatorianos já sabem em quem irão votar”; “Aqui existe uma Lei que proíbe fixar cartazes nos muros, pichar as paredes e fazer propagandas barulhentas”; “Depois que mudaram as leis de financiamento melhorou muito, pois os partidos políticos não podem receber dinheiro das empresas para fazer campanhas, o financiamento é publico”.

Na segunda-feira sondei o pessoal do hotel antes de sair para visitar algumas organizações sociais. Perguntei sobre esta aparente calma na cidade em pleno período eleitoral. Algumas das respostas: “As coisas só irão esquentar quando faltar uma semana para as eleições”; “A crise não favorece ao candidato do governo”; “Os escândalos de corrupção prejudicam a reeleição”. Nenhum dos empregados respondeu a minha questão sobre em quem iam votar, apenas um sorriso maroto.

Eleições equatorianas

Os contatos mantidos com pessoas ligadas aos movimentos sociais e professores universitários apresentam visões distintas. Alguns são severos com Correa e sua administração. Outros são críticos, porém não negam os avanços sociais. Muitos assinalaram que o presidente Correa tem governado com certo autoritarismo. Segundo alguns, houve muitas repressões junto aos movimentos que deixaram de apoiar o governo. Deu pra perceber que existem muitas divisões no seio das organizações sociais.

Segundo informações oficiais, 12,8 milhões de cidadãos e cidadãs são convidados a votar na próxima eleição. Para 82,6% das pessoas cuja idade está entre 18 e 65 anos, o voto é obrigatório. Quanto ao restante, os jovens com idades entre 16 e 17, bem como e aqueles acima de 65 anos, o voto é voluntário. Por outro lado, cerca de 400 mil desses eleitores vivem no exterior e sobre a repartição por sexo, as coisas se movem mais ou menos em 50%.

Uma professora universitária de esquerda que encontrei, por sinal, muito crítica com o governo Correa, disse-me que se no Equador o voto não fosse obrigatório, certamente nesta eleição iria assistir a uma taxa de abstenção perto de 60%. Neste ponto, o indicador de indecisão nas pesquisas permanece muito elevado. Daí qualquer prognostico ser precipitado, segundo ela.

Sem fervor

Em três semanas de Equador seria impossível elaborar uma analise mais refinada, tendo em vista que não sou uma especialista, seria de minha parte uma desonestidade intelectual. O que descrevo aqui é apenas uma percepção geral, a partir dos atores locais encontrados, entrevistas realizadas, leitura de jornais e artigos sobre a situação política e eleitoral no Equador. Confesso que a situação é complexa. O cenário eleitoral atual exige cautela, pois se trata de uma eleição aparentemente sem grande fervor da cidadania, como pude comprovar.

Vale ressaltar que o contexto geral em que se desenvolvem as eleições atuais mudou muito com relação às eleições anteriores, que ocorreram em fevereiro de 2013, tendo em vista que existe um novo cenário geopolítico na região e no mundo, além de uma crise econômica mundial que perdura. Sem dúvida nenhuma, a hegemonia dos chamados governos progressistas ou pós-neoliberais se enfraqueceu na América do Sul; a direita sul-americana e mundial se fortaleceu e com ela a ideologia neoliberal.

Nesses últimos meses viu-se o risco de ruptura com o compromisso de integração regional, devido à vitória eleitoral de Mauricio Macri, na Argentina. Ao golpe político-parlamentar que afastou a presidenta Dilma Rousseff no Brasil. E, por último, a vitória do ultra-direitista Donald Trump em os EUA, entre outros.

‘Correísmo’

Até agora, as pesquisas dão uma vantagem ao candidato do governo, Lenin Moreno. Todavia, a Aliança Pais deve garantir o máximo de votos no primeiro turno para ter chances de aglutinar forças, face uma direita aparentemente dividida, mas que sempre se uniu contra a esquerda. Na outra ponta, existe um verdadeiro dilema para os adeptos da centro-esquerda, dita também esquerda moderada, e extrema esquerda nesta eleição. Como fazer suas campanhas eleitorais sem cair na alimentação do ódio ao “correísmo” forjado pela direita e seus meios de comunicação.

O risco é que seus votos no segundo turno sejam dados à direita e podem facilitar sua volta e a ascensão ao poder. Um partido que se reivindica do ideal de esquerda deve saber diferenciar o adversário político de esquerda do inimigo de direita.

Os partidos da esquerda opositora ao governo Correa criaram o Acordo Nacional para a Mudança. O candidato presidencial é Paco Moncayo, ex-comandante do exército equatoriano. O Acordo Nacional para a Mudança congrega organizações políticas como a Esquerda Democrática, a Unidade Popular, Pachakutik, o movimento da Ação Social e Solidaria (MASS), VIVE e Democracia Sim.

Políticas sociais

O candidato mais cotado da direita é Guillermo Lasso (Aliança CREO-SUMA). Lasso é um político com experiência eleitoral e, desde que perdeu as eleições de 2013, não deixou de viajar pelo país fazendo campanha e construindo sua própria imagem de um empresário moderno, bom gestor e de grande êxito. Em geral os candidatos de direita para a Presidência do Equador estão mais dedicados a atacar e criticar as políticas sociais e as realizações do governo de Correa do que apresentar propostas para a população.

O lema de sua campanha é “vamos para o cambio”. Entretanto, ele faz parte das forças políticas que levaram à crise explosiva de 1999. Outra candidata de direita é Cynthia Viteri, do Partido Social Cristiano. Este partido já teve grande influência no Equador, mas se desgastou desde 2006. Em seguida (segundo as pesquisas), encontra-se Abdala Bucaram, de Força Equador e Patricio Zuquilana, do Partido Sociedade Patriótica. Restam mais dois que são completamente inexpressivos.

A crise econômica que afetou o estado da economia nacional tem gerado um aumento do desemprego. Uma deterioração das condições de trabalho, a perda do poder aquisitivo. Um crescente endividamento das famílias mais humildes e, finalmente, a corrupção. Esta tem levado muitos equatorianos a ter uma visão deteriorada da política, ou seja, de que todo mundo rouba.

Modernização

Apesar das críticas de que tem sido alvo o governo Correa, ninguém pode negar que ele contribuiu para um processo de mudanças, que garantiu a estabilidade política e econômica ao Equador. Este país andino, entre 1996 e 2005, viveu em constante crise de governabilidade e econômica, que levou a derrubada de vários presidentes. Foram quase dez anos de instabilidade.

O governo de Correa se caracterizou pela centralidade do Estado como condutor do processo de modernização. Pela defesa da soberania nacional, desafiando os Estados Unidos ao fechar a base militar de Mante e expulsar o pessoal militar da embaixada norte-americana. E pela luta agressiva contra a Chevron, devido à destruição ambiental causada na Amazônia.

Tentou criar um corredor entre o modo de acumulação capitalista sem afetar a sua essência. E um modo de convivência pacifica com os ricos do Equador. A urgência do governo era gerar recursos para garantir políticas sociais compensatórias, com melhor distribuição de renda e melhores serviços públicos para a população. A exemplo dos investimentos feitos nos setores de saúde, educação e segurança social. Além de melhoria na infraestrutura, construção de estradas, portos, eletricidade etc., a fim de criar no Equador uma sociedade mais moderna e equitativa.

Neoliberalismo

Os campos de forças sociais e políticas hoje no Equador e América do Sul são muito complexos. Isso exige da esquerda realizar uma critica teórica e histórica de suas práticas e sentidos. Essa é a condição sine qua non para se projetar ao futuro. Infelizmente, a crítica é algo que nem sempre se aceita e, quando se aceita, muitas vezes o fazemos com relutância. A análise crítica sempre foi uma reivindicação de anos da esquerda. Porém, muitas vezes é justamente a própria esquerda que tem medo de analisar a realidade com um olhar crítico.

Na verdade, as diferenças ideológicas entre socialistas e comunistas não foram superadas. A unidade de esquerda sempre foi uma aspiração, nunca uma realidade. Todavia, diante da possibilidade de um caos político e social e da consolidação da ideologia neoliberal na América do Sul, o ideal seria que a esquerda buscasse pontos de convergências em seus programas, para garantir a próxima governabilidade.

Segundo François Houtart, outro dos grandes desafios no Equador é reconhecer que o Estado, para ser legítimo e eficaz, tem de ser um Estado heterogêneo, coexistindo com o multiculturalismo e, gradualmente, com a plurinacionalidade, dentro do âmbito da unidade Estado garantida pela Constituição.

Como se diz na campanha do candidato do governo: O Equador já mudou! Agora vamos consolidar mais direitos!

Marilza de Melo-Foucher é doutora em economia, especializada em questões de desenvolvimento. Trabalhou vários anos na cooperação internacional, hoje colabora com a imprensa alternativa e cidadã na França e no Brasil. Escreveu este texto durante uma visita a trabalho que fez ao Equador.