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O vergonhoso convite da Hebráica carioca ao Bolsonaro

Nota do Editor – Existem iniciativas que são imperdoáveis – é o caso do convite da Hebráica do Rio de Janeiro ao deputado Jair Bolsonaro para pronunciar uma palestra aos seus associados. Luiz Mairovitch, presidente da Hebráica carioca, fez esse convite depois da Hebráica paulista ter cancelado o convite, e, segundo a Folha, Mairovitch tem mesmo simpatia pelo homofóbico, machista e defensor dos torturadores do regime militar, regime que torturou e matou, em 1975, o jornalista Vladimir Herzog. Realmente, Hanna Arendt tinha razão ao falar em banalização do mal. Esse convite não só é vergonhoso como um insulto a todos os judeus que tombaram na luta contra o nazismo e contra a ditadura militar brasileira, como Iara Iavelberg. Rui Martins, editor.

Por Mário Augusto Jakobskind, do Rio de Janeiro:

A Hebráica insulta a emória de Vladimir Herzog e Iara Iavelberg
A Hebráica do Rio de Janeiro insulta a memória de Vladimir Herzog e de Iara Iavelberg

O extremista Jair Bolsonaro está sendo convidado pela Hebraica do Rio de Janeiro a participar de um debate. É vergonhoso que isso aconteça, na prática uma afronta a tantas vítimas de atrocidades cometidas no Brasil e durante o nazismo na Alemanha. Uma afronta a figuras como Vladimir Herzog, assassinado pela mesma ditadura que Bolsonaro apoia até hoje elogiando torturadores, como aconteceu na Câmara dos Deputados quando o parlamentar homenageou a figura do assassino Brilhante Ustra na votação do impeachment de Dilma Rousseff.

É vergonhoso uma entidade judaica dar espaço a um facínora nazifascista defensor público de torturadores. Não se pode aceitar. É mais do que necessário pressionar a direção da Hebraica-RJ a voltar atrás. Se na fizer isso, sob o falso argumento de que pretende ouvir todos os lados, a Hebraica simplesmente repetirá o erro histórico proporcionado por alguns segmentos da colônia judaica na Alemanha, que chegaram no início da ascensão nazista, a apoiar Adolf Hitler, inclusive realizando entrevista com o assassino chefe dos nazistas em publicações judaicas.  E deu no que deu.

Recentemente, em um programa da comunidade judaica intitulado Menorah, foi dado grande espaço à família Bolsonaro, inclusive com imagens do defensor de torturadores quando visitava Israel.

Na comunidade judaica vozes se levantaram em São Paulo contra o convite feito a Bolsonaro pela Hebraica-SP. A mobilização levou a diretoria a voltar atrás e suspender a atividade que seria uma grande vergonha se fosse realizada.

Agora, a tentativa de levar adiante a atividade vergonhosa de dar espaço a um também racista, volta à tona. É mais do que lamentável que uma comunidade que foi tão discriminada ao longo da história, repita o erro ocorrido no início da ascensão do nazismo. Se não se corta o mal pela raiz, o mal pode avançar e em breve espaço de tempo atingir exatamente quem lhe deu a mão.

Ou alguém tem dúvidas sobre o que representa Bolsonaro? Uma pergunta que deve ser feita à comunidade judaica: ter ido a Israel absolve um defensor de torturadores de alguma coisa?   

O fato pode remeter também a outra discussão. Ao se criticar a política de guerra do atual governo de Israel, apoiado pelo racista Donald Trump, não é um dever de todos que pelo mundo defendem os direitos humanos? Por que o silêncio ou mesmo o apoio a um governo que comete tantas atrocidades contra os palestinos? Bolsonaro deve ser um apoiador incondicional, como Trump, desse tipo de procedimento e por isso a Hebraica deve convidá-lo para debater?

Esse raciocínio revela ignorância histórica e a vitória do senso comum, o que não pode se tolerado por quem se propõe a defender os direitos humanos em qualquer parte do mundo.

Nesse sentido, a comunidade judaica do Rio de Janeiro e os defensores dos direitos humanos de um modo geral devem cerrar fileiras e se mobilizar para impedir que seja concedido espaço a uma figura que pode amanhã com maior poder repetir os métodos do nazismo. Até porque, quem apoia publicamente torturadores é capaz de tudo em matéria de violação dos direitos humanos.

Mário Augusto Jakobskindjornalista e escritor, correspondente do jornal uruguaio Brecha; membro do Conselho Curador da Empresa Brasil de Comunicação (TvBrasil). Consultor de História do IDEA Programa de TV transmitido pelo Canal Universitário de Niterói, Sede UFF – Universidade Federal Fluminense Seus livros mais recentes: Líbia – Barrados na Fronteira; Cuba, Apesar do Bloqueio e Parla , lançados no Rio de Janeiro.

Direto da Redação é um fórum democrático de debates editado pelo jornalista Rui Martins.