Amigo de Temer conta história bem diferente a Moro para livrar Padilha

Temer e Yunes declaram-se amigos de longa data e dividem um histórico de negócios muito bem sucedidos

Caso prevaleça essa versão do amigo de Temer, Padilha estaria distante dos fatos e caberia a Cunha, em última análise, responder por mais este crime

Por Redação – de São Paulo

A versão do empresário José Yunes, amigo e ex-assessor do presidente de facto, Michel Temer, de que teria sido ‘mula’ do chefe da Casa Civil afastado Eliseu Padilha, não bate com o depoimento do ex-diretor da Odebrecht José Carvalho Filho. Ele teria autorizado o pagamento de R$ 4 milhões, dos R$ 11 milhões negociados, diretamente, com o dono da empreiteira, Marcelo Odebrecht, num jantar com Temer e Padilha. Temer saiu da sala e deixou Padilha para negociar a divisão do butim, confessou o ex-executivo em sua delação premiada.

Quadrilha

Temer e Yunes declaram-se amigos de longa data e dividem um histórico de negócios muito bem sucedidos
Temer e Yunes declaram-se amigos de longa data, com um histórico de negócios muito bem sucedidos

No repasse do dinheiro, Carvalho Filho disse aos investigadores da Operação Lava Jato, em uma versão vazada para a mídia conservadora, que um operador da Odebrecht levou uma parte dos recursos combinados ao escritório de advocacia de Yunes, em São Paulo. O mensageiro, porém, não era o doleiro Lúcio Funaro. Este seria ligado ao presidiário Eduardo Cunha, ex-deputado do PMDB fluminense. O ex-executivo foi chamado a depor, nesta sexta-feira, para explicar melhor a história de José Yunes.

Caberá ao preposto da empreiteira citar o nome do homem que transportou um pacote de dinheiro, supostamente, ao escritório de Yunes, no centro financeiro da capital paulista, em 2014, que procurou, espontaneamente, a Procuradoria-Geral da República (PGR) para detalhar, segundo seu ponto de vista, o trânsito de recursos obtidos de forma criminosa, da principal empresa que integrou a quadrilha montada para desviar recursos da Petrobras.

Dinheiro sujo

Yunes disse aos investigadores que Lúcio Funaro, ligado Cunha, deixou um pacote a seu escritório a pedido de Padilha. Garantiu, no entanto, desconhecer o conteúdo. Caso prevaleça essa versão, Padilha estaria distante dos fatos e caberia a Cunha, em última análise, responder por mais este crime.

Carvalho Filho admite a entrega do pacote e informa que continha cerca de R$ 1 milhão, em notas de R$ 100, segundo versão passada à mídia aliada ao governo. Mas quem levou o dinheiro ao escritório de Yunes foi um funcionário do Departamento de Operações Estruturadas (propinas). E ele não era Lúcio Funaro.

Quem citou Carvalho Filho à polícia foi Cláudio Melo Filho, em depoimento ao TSE na segunda-feira. Segundo Melo Filho, cabia a José Filho distribuir os R$ 4 milhões iniciais, do total de R$ 11 milhões, para o PMDB comandado por Michel Temer, nas eleições de 2014. Uma outra parte desses recursos foi entregue, segundo o ex-executivo, no escritório de Padilha, na capital gaúcha, alguns dias depois.

A história contada por Yunes foi negada também por Funaro, que também presta uma delação premiada à PGR. encaminhou ofício em que pede para prestar depoimento. Ele nega ter feito qualquer entrega no escritório do amigo de Temer. Seus advogados disseram a jornalistas que ele pretende processar Yunes por calúnia e difamação, pelas declarações prestadas, em juízo. Funaro está preso, em Curitiba, por determinação do juiz Sérgio Moro. Funaro admite que esteve, certa vez, no escritório de Yunes, mas a agenda não incluía um pacote milionário.

As respostas

José Yunes afirmou aos vários jornalistas que o procuraram, nesta manhã, por meio de seu advogado, que “jamais recebeu qualquer documento de algum representante da empresa Odebrecht”.

“(Yunes) não sabe, não conhece, nunca viu a pessoa de José Filho. A única pessoa que esteve em seu escritório foi o senhor Lúcio Funaro. Conforme esclareceu à PGR, José Yunes está à disposição para prestar qualquer outro esclarecimento. Inclusive uma acareação, conforme ele mesmo já se antecipou em dizer em sua declaração”, disseram os defensores, em nota.

José Padilha ainda não se manifestou sobre o assunto. Ele evita a pauta desde que Yunes falou à PGR. Quanto à delação de Cláudio Melo, em dezembro, negou qualquer irregularidade.

O advogado de Lúcio Funaro, Bruno Espiñera, diz que seu cliente “jamais foi operador da Odebrecht”. E “jamais foi levar dinheiro da construtora” no escritório de José Yunes.

Retirada de Padilha coloca Temer a um passo da queda para Lava Jato

Padilha

Yunes, que chegou a ser assessor especial da Presidência da República, foi citado na delação premiada de Claudio Melo Filho, da Odebrecht, e forçado a deixar o cargo. Ele foi citado porque R$ 4 milhões dos R$ 11 milhões pedidos por Temer à Odebrecht

 

Por Redação – de Brasília e São Paulo

 

Principal capataz do presidente de facto, Michel Temer, na chefia da Casa Civil, o ex-deputado Eliseu Padilha (PMDB-RS) está afastado do governo. O tiro que o abateu partiu de onde ele jamais esperaria. Melhor amigo de Temer, o empresário José Yunes o delatou para a Polícia Federal (PF). E fez pior. Confessou sua participação no tráfico de propina à revista semanal de ultradireita Veja, porta-voz do grupo Abril que, junto com os demais veículos conservadores de comunicação sustentam o golpe de Estado, em curso no país.

Padilha
Padilha deixa o governo sob a suspeita de participar de um esquema de distribuição de propina para a eleição de Eduardo Cunha à Presidência da Câmara

Yunes disse à revista que foi usado como “mula” de Padilha. Com o pleno conhecimento de Temer. “Mula” é um jargão do submundo das drogas. O termo se refere ao indivíduo que, conscientemente ou não, transporta droga em seu corpo, geralmente para outros países.

Yunes, que chegou a ser assessor especial da Presidência da República, foi citado na delação premiada de Claudio Melo Filho, da Odebrecht, e forçado a deixar o cargo. Ele foi citado porque R$ 4 milhões dos R$ 11 milhões pedidos por Temer à Odebrecht, em pleno Palácio do Jaburu, teriam sido entregues em seu escritório de advocacia. O dinheiro saiu do departamento de propinas da empreiteira.

Padilha envolvido

Com a entrevista deste fim de semana, Yunes tenta se livrar da cadeia e transfere a responsabilidade para Eliseu Padilha. Compete, agora, ao procurador-geral da República, Rodrigo Janot, se for o caso, denunciar Padlha e impedir seu retorno à equipe de Temer. Eliseu Padilha pediu licença do cargo, alegando motivos de saúde. Teria que operar a próstata.

Aos jornalistas, Yunes afirmou que Temer, a quem trata como seu “melhor amigo”, tem conhecimento de que ele foi usado como “mula” por Padilha. Na entrevista, Yunes disse ter recebido Lúcio Funaro em seu escritório, a pedido de Padilha. No encontro, Funaro lhe contou que estava financiando 140 deputados para garantir a eleição de Eduardo Cunha à presidência da Câmara dos Deputados.

— Contei tudo ao presidente, em 2014. O meu amigo Temer sabe que é verdade isso. Ele não foi falar com o Padilha. O meu amigo reagiu com aquela serenidade de sempre. Eu decidi contar tudo a ele porque, em 2014, quando aconteceu o episódio e eu entrei no Google e vi quem era o Funaro, fiquei espantado com o ‘currículo’ dele. Nunca havia conhecido o Funaro — disse Yunes.

Versão dos fatos

Yunes acrescenta que Funaro articulava uma estratégia para eleger uma bancada fiel a Cunha, na eleição à presidência da Câmara.

— Ele me disse: ‘A gente está fazendo uma bancada de 140 deputados, para o Eduardo ser presidente’. Perguntei: ‘Que Eduardo?’. Ele respondeu: ‘Eduardo Cunha’ — afirmou.

Yunes decidiu falar depois que apareceu nas delações da Odebrecht. De acordo com o delator Cláudio Melo Filho, da propina de R$ 11 milhões acertada com Temer. Ao todo, foram R$ 4 milhões entregues no escritório de Yunes. Por isso mesmo, ele se antecipou e procurou também o Ministério Público para dar sua versão dos fatos.

Tais recursos foram acertados num jantar entre Michel Temer e Marcelo Odebrecht, no Palácio do Jaburu, em 2014, com a presença de Padilha. O dinheiro saiu do departamento de propinas da empreiteira e ajudou a bancar a eleição de Cunha para a Câmara. Uma vez eleito presidente, Cunha passou a sabotar o governo da presidenta deposta Dilma Rousseff (PT) e aceitou o pedido de impeachment, sem crime de responsabilidade, abrindo espaço para o golpe de Estado que levou Temer ao poder.

Em apuros

Além de Temer, delatado por seu “melhor amigo” José Yunes, seu sucessor direto, o deputado Rodrigo Maia (DEM-RJ), também está em situação ainda mais delicada. Maia foi delatado, nesta manhã, por Fernando Cavendish, dono da Delta Engenharia, segundo aquela mesma revista.

Em seu acordo, Cavendish afirmou que Maia recebeu R$ 3 milhões como contrapartida pelas obras da construtora no Engenhão – contrato obtido quando seu pai, Cesar Maia, era prefeito do Rio de Janeiro. O empreiteiro afirmou, ainda, que Maia levou ainda outros R$ 500 mil.

Primeiro homem na linha de sucessão presidencial, Maia também aparece nas delações da Odebrecht, como o “Botafogo”, e da OAS.
Delatado, ele se enfraquece para conduzir reformas impopulares, como a da Previdência, que pode deixar 70% dos brasileiros sem aposentadoria, segundo um estudo do Dieese. Maia ainda não se pronunciou sobre a denúncia feita por Cavendish.

Osmar Serraglio, amigo de Cunha, é escolhido para a pasta da Justiça

Serraglio (PMDB-PR) pertencia à 'tropa de choque' do ex-deputado e hoje presidiário Eduardo Cunha (PMDB-RJ)

Serraglio é aliado de primeira hora do presidente afastado da Câmara, o deputado cassado Eduardo Cunha, atualmente preso em Curitiba

 

Por Redação – de Brasília

 

O presidente de facto, Michel Temer, escolheu o deputado Osmar Serraglio (PMDB-CE) como novo ajudante no Ministério da Justiça. Ele substitui Alexandre de Moraes, nomeado ao Supremo Tribunal Federal (STF). Segundo a agência inglesa de notícias Reuters, o anúncio oficial estava sendo preparado, nesta quinta-feira, pela Casa Civil do Palácio.

Serraglio (PMDB-PR) pertencia à 'tropa de choque' do ex-deputado e hoje presidiário Eduardo Cunha (PMDB-RJ)
Serraglio (PMDB-PR) pertencia à ‘tropa de choque’ do ex-deputado e hoje presidiário Eduardo Cunha (PMDB-RJ)

Serraglio é aliado de primeira hora do presidente afastado da Câmara, o deputado cassado Eduardo Cunha, atualmente preso em Curitiba, por ordem do juiz Sérgio Moro, coordenador da Operação Lava Jato. O parlamentar foi indicado em maio do ano passado para a Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania da Câmara dos Deputados. Trata-se da mais importante comissão daquela Casa, responsável, entre outros temas, por julgar a cassação de deputados.

Aliado de Cunha

À frente da comissão, foi acusado de participar de manobras em favor da protelação da análise do processo de cassação de Eduardo Cunha. Entre outras manobras encerrou, em 13 de Julho de 2016, a sessão que avaliaria o processo de Eduardo Cunha, sem qualquer motivo aparente.

Na madrugada de 29 de Novembro daquele mesmo ano, votou a favor da emenda substitutiva que mutilou as 10 medidas anti-corrupção, aprovada por unanimidade na CCJ da Câmara. Anteriormente, em 17 de Abril de 2016, Serraglio votou pela abertura do processo de impeachment de Dilma Rousseff.

Forte pressão

A indicação de Serraglio para a pasta ocorre após a saída de Alexandre de Moraes, que deixou a cadeira no início deste mês. Foi indicado por Temer para a vaga do ministro Teori Zavascki no Supremo Tribunal Federal (STF). Zavascki morreu em um acidente aéreo suspeito, em Paraty, no interior do Estado do Rio. As investigações seguem seu curso, na Polícia Federal (PF). Na qualidade de titular na pasta da Justiça, Serraglio passa a comandar a PF.

A nomeação de Moraes foi aprovada nesta quarta-feira, por ampla maioria no Plenário do Senado. Apenas 13 senadores votaram contra, em um colegiado de 81 integrantes. O novo ministro tomará posse na Corte logo depois do carnaval.

Serraglio assumirá o ministério em meio a uma forte pressão contra interferências políticas na Lava Jato. Enfrentará, ainda, a ameaça de novas crises na segurança pública. A rebelião nos presídios brasileiros seguem latentes na maioria dos Estados.

Base aliada

O deputado peemedebista não foi a primeira escolha de Temer. Acabou por se destacar entre as indicações levadas ao presidente depois que o ex-ministro do STF Carlos Velloso recusou convite para assumir o cargo. Alegou compromissos com clientes de seu escritório de advocacia, entre outras questões éticas não enumeradas.

A decisão de Velloso irritou integrantes do Planalto, especialmente por ter sido anunciada depois de o ex-ministro dizer que tinha sido chamado a ajudar a salvar o país. Nesse cenário, Temer reabriu consultas sobre o nome para o Ministério da Justiça, sinalizando que tendia a fazer uma escolha baseada também num cálculo político, para prestigiar sua base no Congresso.

Circo está armado para Cunha sair da cadeia

Os sorrisos que frequentavam as reuniões entre Temer e Cunha desapareceram

Dono de uma retórica complexa, Cunha teria avisado Temer, ao desmenti-lo e citar tantas vezes o nome do presidente de facto. Temer chegou ao cargo após o golpe parlamentar liderado pelo hoje interno do sistema penitenciário paranaense

 

Por Redação – de Curitiba e São Paulo

 

Sem cabeça raspada, jeans e sandálias de borracha, o ex-deputado e hoje presidiário Eduardo Cunha está pronto a usar uma tornozeleira eletrônica. Na véspera, em depoimento ao juiz Sérgio Moro, coordenador da Operação Lava Jato, Cunha enviou mensagens cifradas ao presidente de facto, Michel Temer. Quer sair da cadeia o mais rápido possível. A estratégia parece que está dando certo. Até um artigo, em um dos diários conservadores paulistanos, emplacou após o depoimento.

Os sorrisos que frequentavam as reuniões entre Temer e Cunha desapareceram
Os sorrisos que frequentavam as reuniões entre Temer e Cunha desapareceram

Dono de uma retórica complexa, Cunha teria avisado Temer, ao desmenti-lo e citar o presidente de facto. Temer chegou ao cargo após o golpe parlamentar liderado pelo hoje interno do sistema penitenciário paranaense. Nas entrelinhas, segundo o senador peemedebista Roberto Requião (PR).

— O Eduardo Cunha deu um recado muito claro para o governo. Ou vocês conseguem me tirar da cadeia, viabilizam que eu possa responder os processos em liberdade, ou começo a entregar todo mundo. Ele deixou claro que, para ele, quem comandava as nomeações do PMDB na Petrobras era o Michel Temer — disse o parlamentar.

Apoio no STF

No Supremo Tribunal Federal (STF), o ministro Gilmar Mendes nunca escondeu sua antipatia pela atuação do juiz Moro. Mendes, crítico persistente da Lava Jato falou, recentemente, em conversa com jornalistas, que a Corte tem “um encontro marcado com as alongadas prisões que se determinam em Curitiba”.

— Temos que nos posicionar sobre este tema que conflita com a jurisprudência que desenvolvemos ao longo desses anos — disse.

O debate, segundo juristas, tende a desidratar as prisões preventivas.

Leia, adiante, o artigo de Cunha na Folha de S. Paulo:

Faz pouco tempo, esta Folha publicou um artigo de Rogério Cezar de Cerqueira Leite com críticas ao juiz Sergio Moro, expressando sua legítima opinião. O juiz escreveu resposta em que criticou a Folha por dar espaço ao texto, como se a democracia comportasse que as opiniões contrárias às nossas fossem censuradas -ou seja, ou me elogie ou se cale. Essa era a lógica da resposta.

Com este artigo que publico agora, sei que minha família e eu poderemos correr o risco de sermos ainda mais retaliados pelo juiz, mas não posso me calar diante do que acontece.

Estou preso por um decreto injusto, o qual contesto através de habeas corpus e da reclamação ao Supremo Tribunal Federal, já que não houve qualquer fato novo para ensejar uma prisão, salvo a necessidade de me manter como troféu.

Fato ilegal

Minha detenção afronta a lei nº 12.043/11, que estabelece que antes da prisão preventiva existam as medidas cautelares alternativas.
Deve-se ainda levar em conta que um dos fundamentos de minha prisão veio de proposta do Ministério Público -prisão preventiva para evitar a dissipação patrimonial- incluída no chamado pacote anticorrupção. Essa medida, todavia, já foi rejeitada pela Câmara.

Para coroar, o juiz, para justificar sua decisão, vale-se da expressão “garantia da ordem pública”, sem fundamento para dar curso de legalidade ao ato ilegal. Isso, afinal, tornou-se mero detalhe em Curitiba, já que basta prender para tornar o fato ilegal em consumado.

A jurisprudência do STF não permite, pela via do habeas corpus, a supressão de instâncias, fazendo com que se leve no mínimo seis meses para que o mérito chegue ao tribunal, punindo quem está preso ilegalmente com uma antecipação de pena, sem condenação. O meu habeas corpus está no Superior Tribunal de Justiça.

Delatores

Convivendo com outros presos, tomo conhecimento de mais ilegalidades -acusações sem provas, por exemplo, viram instrumentos de culpa. A simples palavra dos delatores não pode ser a razão da condenação de qualquer delatado.

Ocorre ainda pressão para transferir a um presídio aqueles que não aceitam se tornar delatores, transformando a carceragem da Polícia Federal em um hotel da delação.

Apesar das condições dignas do presídio e do tratamento respeitoso, é óbvio que a mistura de condenados por crimes violentos e presos cautelares não é salutar.

Uma das principais causas da crise do sistema penitenciário é o contingente de 41% de presos provisórios. Esse fato tende a ser agravado com a decisão do STF de autorizar o encarceramento após condenação em segunda instância.

Foro privilegiado

É bom deixar claro para a sociedade que a minha segurança e a dos demais presos cautelares é de responsabilidade do juiz Sergio Moro. Ninguém questiona a existência de um criminoso esquema de corrupção; punições devem ocorrer, mas observando o devido processo legal.

Não podem ocorrer fatos tais como a entrevista em que a força-tarefa de Curitiba, quando eu ainda era presidente da Câmara, declarou minha culpa e pregou minha prisão, ignorando o fato de que eu ainda desfrutava de foro privilegiado.

Ou ainda o espetáculo deprimente da denúncia contra o ex-presidente Lula – independentemente da opinião ou dos fatos, jamais poderia ter se dado daquela forma.

Algumas propostas legislativas são importantes para combater as ilegalidades praticadas.

1) Definir com clareza o conceito de garantia de ordem pública para motivar uma prisão cautelar.
2) Estabelecer um prazo máximo para a prisão preventiva, caso o habeas corpus não subsista com o trânsito em julgado.
3) Separar os presos cautelares dos condenados.
4) Determinar a perda dos benefícios de delatores que não comprovam suas acusações.
5) Alterar a lei das inelegibilidades para quarentena de no mínimo quatro anos para juízes e membros do Ministério Público que queiram disputar mandato eletivo.
6) O juízo de instrução não pode ser o juízo do julgamento. Os processos não podem ser meros detalhes de cumprimento de formalidades para chegar a condenações já decididas de antemão.

Juízes e membros do Ministério Público devem respeito à Constituição, às leis, ao Estado democrático de Direito. A história mostra que o juiz popular ou o tribunal que lava as mãos como Pilatos não produzem boas decisões.

Eduardo Cunha é ex-deputado federal (PMDB/RJ) e ex-presidente da Câmara dos Deputados (fevereiro de 2015 a julho de 2016). Foi preso em outubro de 2016 pela Lava Jato, acusado de corrupção, lavagem de dinheiro e evasão de divisas.

Cunha rejeita exame de aneurisma e manda recado cifrado para Temer

Cunha conseguiu colocar Mário Garnero (foto) na mesma reunião em que Temer disse que nunca esteve

Dono de uma retórica complexa, Cunha teria mandado um recado para Temer, ao desmenti-lo e citar tantas vezes o nome do presidente de facto

 

Por Redação – de Brasília, Curitiba e São Paulo

 

O presidiário e deputado cassado Eduardo Cunha (PMDB-RJ) recusou-se, na manhã desta quarta-feira, a realizar exame médico capaz de constatar se mentiu, ou não, ao juiz Sérgio Moro quando se disse portador de um aneurisma (anomalia em uma veia no cérebro). Chegou a citar a ex-primeira-dama Marisa Letícia Lula da Silva, que morreu devido ao rompimento de um vaso sanguíneo na cabeça, semana passada. E não apenas este trecho do depoimento de Cunha, em juízo, foi colocado em dúvida.

Cunha conseguiu colocar Mário Garnero (foto) na mesma reunião em que Temer disse que nunca esteve
Cunha conseguiu colocar Mário Garnero (foto) na mesma reunião em que Temer disse que nunca esteve

A participação do presidente de facto, Michel Temer, em uma suposta organização criminosa, investigada pela Operação Lava Jato, entre outras, também foi citada na audiência do réu, perante a Justiça Federal do Paraná. Temer teve seu nome citado por mais de uma vez nas declarações do peemedebista. Ao lado do empresário Mário Garnero, Temer teria participado de uma reunião em que estiveram presentes Cunha e o ex-ministro do Turismo Henrique Eduardo Alves, réu em uma ação que investiga desvios bilionários de recursos públicos, na Caixa Econômica Federal.

Temer sabia

No encontro, segundo Cunha, o então deputado Temer (PMDB-SP), presidente nacional da legenda, à época, falou sobre as nomeações para cargos na Petrobras. Em resposta ao inquérito policial, no entanto, Temer nega que estivesse naquela reunião. Além de desmentir o correligionário, Cunha declarou que havia uma agenda semanal de reuniões dele com Temer e outros líderes do PMDB para “debater e combinar toda situação política”.

— Ele (Temer) participou sim da reunião e foi ele que comunicou a todos nós o que tinha acontecido na reunião, porque não era só o cargo da Petrobrás, era outras várias discussões que aconteciam no PMDB. Tudo era reportado, sabíamos de tudo e de todos — afirmou, perante o juiz Moro.

Assista ao vídeo do depoimento:
[youtube https://www.youtube.com/watch?v=J2Mu2493A_k]

Recado

Dono de uma retórica complexa, Cunha teria mandado um recado para Temer, ao desmenti-lo e citar tantas vezes o nome do presidente de facto, que chegou ao cargo após o golpe parlamentar liderado pelo atual interno do sistema penitenciário paranaense. Nas entrelinhas, segundo o senador peemedebista Roberto Requião (PR).

— O Eduardo Cunha deu um recado muito claro para o governo. Ou vocês conseguem me tirar da cadeia, viabilizam que eu possa responder os processos em liberdade, ou eu começo a entregar todo mundo. Ele deixou claro, que para ele, quem comandava as nomeações do PMDB na Petrobras era o Michel Temer — disse o parlamentar, nesta manhã.

Além de desmentir Michel Temer, Eduardo Cunha também chamou a atenção para a ligação do mandatário imposto no golpe de Estado, em curso, com o empresário Mário Garnero, “menino de ouro dos militares”, como era conhecido durante a ditadura de 1964. Em diversas oportunidades, Garnero promoveu eventos nos Estados Unidos com participação do então vice-presidente Michel Temer, que não economizou nas mordomias. O último evento realizado por Garnero que contou com a participação de Temer ocorreu em Nova York em julho do ano passado, quando já havia tomado o Palácio do Planalto.

‘Boca livre’

A indicação para um nome suspeito para ocupar uma diretoria estratégica na Petrobras, por parte de Mario Garnero, não seria um ponto fora da curva. Aproveitando sua proximidade com Temer, no ano passado, Garnero promoveu um encontro entre o ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio, Marcos Pereira e empresários de diversos setores. Convidou-os para um almoço em seu escritório, na sede do Grupo Brasilinvest, em um endereço luxuoso da capital paulista.

Esse mesmo capital político levou o cônsul-geral do Brasil em Nova York (EUA), Seixas Corrêa, a solicitar US$ 45 mil (ou R$ 145 mil) para o custeio de limusines contratadas para a viagem de Temer, em setembro de 2011. O Itamaraty também pagou por cinco noites em uma suíte luxo para Temer e a mulher, Marcela, e outros dez apartamentos duplos e seis simples para a equipe de segurança. O gasto público referia-se à participação do então vice-presidente no “3º Fórum de Desenvolvimento Sustentável”, promovido pelo empresário Mario Garnero.

Segundo a agenda, porém, não havia compromissos oficiais no dia 24 daquele mês, um sábado. No dia seguinte, domingo, o compromisso de Temer foi ir a concerto da Orquestra Filarmônica Bachiana, sob a regência do maestro João Carlos Martins, no Lincoln Center. O citado fórum aconteceu na segunda-feira, ao qual Temer compareceu por um breve período, enquanto a mulher ia às compras em Nova York. Os casais Cunha e Garnero teriam jantado em um restaurante chique, na noite seguinte, antes do retorno ao Brasil, segundo relatos, na época.

Experiência

Mário Garnero tem uma longa e turbulenta carreira nos negócios. Em 1985, envolveu-se no processo que levou à falência o banco Brasilinvest. Processado e banido do mercado financeiro sob a acusação de estelionato, formação de quadrilha e operação fraudulenta pelo desvio de US$ 95 milhões dos clientes de seu banco para contas fantasmas, o empresário transformou-se em sinônimo de crime de colarinho-branco. Condenado a cinco anos de prisão pela Justiça Federal de São Paulo, em 1988, porém, não cumpriu um dia sequer no presídio. Recorreu, em liberdade, e em 1999, em uma das tantas decisões polêmicas do Supremo Tribunal Federal (STF), teve seu processo arquivado.

Os ministros do STF debateram, por cerca de três horas, o processo de Garnero. Dois ministros — Nelson Jobim e Ilmar Galvão — votaram pela declaração da prescrição do crime. A maioria, porém, preferiu limitar a decisão à anulação da denúncia criminal. Dois anos antes do julgamento do STF, em 97, Garnero patrocinou uma viagem a Mônaco de várias autoridades, inclusive três ministros do STF. No ano passado, ele promoveu seminário em Buenos Aires, com a participação de três outros ministros da Corte.

Naquele mesmo ano, Jobim, um dos convivas em Mônaco, pediu vistas ao processo. Na época, ele negou interesse na causa e disse que desconhecia o patrocínio da viagem ao principado. Ainda em 97, Garneiro registrou em cartório uma declaração pública sobre o caso Brasilinvest, em que afirma que foi vítima de uma “reportagem leviana e irresponsável”. Tal declaração embasou os votos no Plenário do STF, que o livraram da cadeia.

Bom anfitrião

Garnero é tido, no meio empresarial, como um anfitrião de primeiríssima. Acolheu por diversas vezes, em sua mansão na capital paulista, ou em almoços requintados, os representantes do Fundo Monetário Internacional (FMI), a nata do capitalismo mundial. Tornou-se, de fato, um dos brasileiros mais bem relacionados do Ocidente. “Mas jamais conseguiu transformar o relacionamento em negócios legítimos. Não tinha a visão do verdadeiro empreendedor. Terminou cercado por parceiros de negócio algo nebulosos”, comenta o jornalista Paulo Henrique Amorim (PHA), apresentador de um jornal na Rede Record de Televisão.

“Acabou se convertendo na bomba relógio que João Batista Figueiredo deixou para Tancredo Neves. Figueiredo impediu Delfim Netto de ajudar Garnero, vaticinando: o Brasilinvest será a Capemi do Tancredo. A razão maior era a presença, no Conselho de Administração, de Aécio Cunha, pai de Aécio e genro de Tancredo. E também de personagens de peso na vida nacional da época, como o presidente da Volkswagen, Wolfgang Sauer. Helio Smidt, da Varig  e o publicitário Mauro Salles”, acrescenta PHA.

E segue:

“Colhi depoimento de Sauer sobre o episódio. E testemunhei o alemão de ferro chorar na minha frente pela traição do amigo Garnero. Percebendo a armadilha, Tancredo incumbiu seu Ministro da Fazenda, Francisco Dornelles, de não facilitar em nada a vida da Brasilinvest. Da derrocada de Garnero, valeu-se Roberto Marinho para tomar-lhe o controle da NEC Telecomunicações.

“Depois disso, continuou a vida tornando-se uma espécie de João Dória Junior internacional. Aos encontros anuais da Brasilinvest comparecia a fina flor do capitalismo – e modelos belíssimas. Aliás, a capacidade de selecionar mulheres era uma das especialidades de Garnero. Ele conseguiu um encontro de Gina Lolobrigida para seu sogro.

“No início do governo Lula, Garnero valeu-se da familiaridade dos tempos de ABC para se aproximar de José Dirceu. Era ainda o poderoso Ministro da Casa Civil. A aproximação lhe rendeu prestígio e bons negócios.

“Graças a ela, conseguiu levar o Instituto do Coração para Brasília. Em um episódio controvertido que estourou tempos depois, com boa dose de escândalo. Aliás, até hoje respondo a um processo maluco do Mário Gorla, o sócio de Garnero no empreendimento. Esteve também por trás dos problemas do Instituto do Coração em São  Paulo.

Vida vazia

“Quando os chineses começaram a desembarcar no Brasil, fui procurado por analistas da embaixada da China. Estavam interessados em informações sobre o país. E me contaram que estavam conversando com um BNDES privado. Indaguei que história era essa. Era o Brasilinvest – na ocasião um mero banco desativado. O imóvel era localizado em uma das torres do conjunto Brasilinvest na Avenida Faria Lima. Não sabiam que Garnero já se desfizera totalmente do patrimônio representado pelas torres. E tinha um banco de fachada.

“Garnero ajudou na aproximação de Dirceu com parte dos empresários norte-americanos. Na véspera do estouro do “mensalão” Dirceu já tinha uma viagem agendada para Nova York organizada por ele.

“Sem conseguir se enganchar no governo Lula, Garnero acabou se dedicando ao setor imobiliário. Os filhos não seguiram sua carreira, internacionalmente brilhante, apesar dos tropeços. Ficaram mais conhecidos pelas conquistas e pela vida vazia. Já o neto consegue seu segundo instante de celebridade. O primeiro foi em um vídeo polêmico, simulando um agarra com o ex-jogador Ronaldo. O segundo, insultando o compositor e escritor Chico Buarque de Hollanda. Aproveitou para fazer uma cena, em frente a um restaurante no Leblon, na Zona Sul do Rio”, conclui.

Cunha, Geddel e Moreira formam interseção na mira dos federais

Moreira Franco

Moreira é alvo de uma série de investigações em andamento na PF. Uma delas, capitaneada por promotores do Ministério Público Federal (MPF) do Rio de Janeiro

 

Por Redação – de Brasília e Rio de Janeiro

 

O relacionamento azedo entre o ex-governador do Estado do Rio Moreira Franco, secretário sem pasta no governo do presidente de facto, Michel Temer, e o suspeito de praticar advocacia administrativa enquanto ocupava o cargo de articulador com o Congresso Geddel Vieira Lima (PMDB-BA) desce, definitivamente, ao vinagre. A operação da Polícia Federal (PF) Cui Bono (do latim “a quem beneficia?”), desencadeada no início da manhã desta sexta-feira, aproxima-se perigosamente do homem de confiança de Temer.

Moreira Franco
O secretário Moreira Franco ocupa uma secretaria na equipe do presidente de facto, Michel Temer. Embora seja citado em investigações em curso

Moreira é alvo de uma série de investigações em andamento na PF. Uma delas, capitaneada por promotores do Ministério Público Federal (MPF) do Rio de Janeiro. Eles investigam uma intercessão complicada entre Moreira, secretário de Temer, o ex-coordenador Vieira Lima e o presidiário Eduardo Cunha. Este último foi presidente da Câmara dos Deputados. Os fatos formam uma linha de eventos iniciada em 2008. Encerrada com a demissão de Vieira Lima, em novembro último.

O relatório da Policia Federal a que a reportagem do Correio do Brasil teve acesso revela que Vieira Lima (PMDB-BA), alvo primário da operação Cui Bono, agia “em prévio e harmônico ajuste” com Eduardo Cunha. Juntos, segundo a PF, promoviam a liberação fraudulenta de empréstimos da Caixa Econômica Federal (CEF) a empresários dos mais diversos ramos, em troca de propinas.

Cleto e Funaro

A PF apura fraudes milionárias, entre 2011 e 2013, época em que Geddel ocupava a vice-presidência de Pessoa Jurídica da instituição. A investigação da PF teve início após a perícia em um celular pertencente a Cunha. Os técnicos forenses apuraram uma “intensa troca de mensagens eletrônicas”. O diálogo ocorreu entre Cunha, presidente da Câmara à época, e o vice-presidente de Pessoa Jurídica da CEF, entre 2011 e 2013.

“Consta dos autos que, valendo-se do cargo de Vice-Presidente de Pessoa Jurídica da Caixa Econômica Federal, (Geddel Vieira Lima) agia internamente, em prévio e harmônico ajuste com Eduardo Cunha e outros, para beneficiar empresas com liberações de créditos dentro de sua área de alçada e fornecia informações privilegiadas. (…) Para que, com isso, pudessem obter vantagens indevidas junto às empresas beneficiárias dos créditos liberados pela instituição financeira”, disse o juiz federal Vallisney de Souza Oliveira no despacho em que autorizou a operação da PF.

Ainda segundo o documento, o “grupo criminoso” era formado pelo ex-vice-presidente da Caixa e delator da Operação Lava Jato Fábio Ferreira Cleto, pelo doleiro Lúcio Funaro, que está preso e é réu na Lava Jato, além de Geddel e Cunha.

Moreira na fita

O dreno ilegal de recursos da CEF também é alvo do Ministério Público Federal do Rio de Janeiro. A instituição investiga um “erro” no sistema de informática do banco que pode ter causado um prejuízo de R$ 1 bilhão aos cofres públicos. A linha de eventos teve início em 2008 e 2009, exatamente no setor que era comandado pelo atual secretário de Programa de Parcerias e Investimento (PPI), Moreira Franco.

O réu na Lava Jato Eduardo Cunha, durante depoimento ao juiz Sérgio Moro, titular da operação, deixou pistas sobre o envolvimento do ‘gato angorá’, como se referia a ele o líder socialista Leonel Brizola, já falecido. Durante quase um ano, de setembro de 2008 a agosto de 2009, uma falha estratégica no sistema de dados da CEF deixou que corretoras de valores comercializassem títulos de alto risco, segurados pela Caixa, por valores muito acima ao do mercado para esses papéis.

Todos suspeitos

O departamento responsável pelas falhas em série integrava a Vice-presidência de Loterias e Fundos de Governo, ocupada à época por Moreira Franco, atual secretário e braço direito de Michel Temer. Uma vez desmontada a fraude, os compradores dos títulos entraram contra a CEF, na Justiça, para cobrar prejuízos superiores a R$ 1 bilhão. Cunha deixou clara a participação de Moreira Franco, seu desafeto, ao lado de Vieira Lima, nas operações fraudulentas na CEF.

O trio Cunha, Geddel e Moreira ocupavam, até a deflagração do golpe de Estado, em Maio último, o núcleo principal do PMDB. Figuravam ao lado de Temer e do chefe da Casa Civil, Eliseu Padilha, como gestores do partido. Todos estão citados na lista de suspeitos em investigações da Lava Jato.

Na época, por meio de sua assessoria, Moreira Franco disse que a falha aconteceu em uma empresa de informática terceirizada. E que, à época do problema, o banco apresentou queixa-crime aos órgãos responsáveis por investigar o caso. O pedido de investigação teria sido encaminhado à Polícia Federal, Ministério Público Federal e Comissão de Valores Mobiliários (CVM).

Planalto sonda disposição de Cunha para delatar ex-parceiros

Cunha foi escoltado por homens da Polícia Federal ao ser preso, logo após perder o mandato

Cunha nega, mas fontes próximas ao parlamentar já adiantaram ao Correio do Brasil, com exclusividade, que o preso negocia uma delação premiada

 

Por Redação – de Brasília

 

Setores do grupo político que assumiu o Palácio do Planalto, após a deposição da presidenta Dilma Rousseff — todos citados na Operação Lava Jato — receberam recentes informes sobre o andamento do processo, de uma fonte improvável. Noite passada, informante do núcleo de poder recebeu um dos advogados que visitaram o presidiário Eduardo Cunha, deputado do PMDB expulso da vida pública do país por uma década. O advogado Renato Ramos teria passado as “impressões” de seu encontro com o peemedebista preso em Curitiba.

Cunha foi escoltado por homens da Polícia Federal ao ser preso, logo após perder o mandato
Cunha foi escoltado por homens da Polícia Federal ao ser preso. A prisão ocorreu logo após perder o mandato, no final do ano passado

Cunha nega, mas fontes próximas ao parlamentar já adiantaram ao Correio do Brasil, com exclusividade, que o preso negocia uma delação premiada. Os rumos da novela política teriam sido repassados ao subchefe de Assuntos Jurídicos da Casa Civil, Gustavo Rocha. Aliados de Cunha tentam saber se o ex-parlamentar estaria mesmo disposto a fechar um acordo com a Justiça. Se falasse o que sabe, implicaria, diretamente, o presidente de facto, Michel Temer, e toda a cúpula do governo.

Cunha preso

O peemedebista foi preso, preventivamente, há cerca de três meses sob a acusação de ter recebido propinas em contratos da Petrobras. Os recursos foram desviados de uma concessão, na costa leste da África. E por usar bancos suíços para o lavar dinheiro apurado na operação. Ramos reconheceu, diante de jornalistas, ter mantido contato com Cunha. Acrescentou que teria comentado as impressões da sua visita a Gustavo Rocha.

— Ficou no limite do comentário — disse.

Rocha, por sua vez, afirma que tem falado com Ramos por telefone. Mas assegura não se recordar de alguma conversa específica sobre Cunha.

— Esse assunto não me diz respeito — teria dito, segundo o diário conservador paulistano O Estado de S. Paulo.

Renato Ramos e Gustavo Rocha são amigos e ex-sócios em um escritório de advocacia. Eles também eram próximos de Cunha, acrescenta a publicação.

Delação em curso

Cunha chegou a conversar com os poucos aliados que lhe restaram sobre uma possível delação premiada, no dia seguinte à cassação de seu mandato. Deputado da base de Cunha, ouvido pela reportagem do Correio do Brasil, avalia como “bastante possível que ele faça um acordo com a Justiça”. Tentaria, com isso, evitar o encarceramento dele, da mulher, Cláudia Cruz, e da filha, Danielle.

Ambas, no entanto, estão citadas na Justiça da Suíça. O Tribunal Penal Federal daquele país, em sua primeira manifestação de mérito da investigação contra Cunha, afirmou, em nota distribuída nesta manhã, que existem “indicações concretas”. “Suspeitas óbvias” e “suficientes” de que o deputado cassado esteve envolvido em um esquema de corrupção.

Para o Tribunal suíço, pela posição que ocupava no Congresso, o peemedebista tinha a “capacidade de influenciar” a decisão sobre negócios da Petrobras no Benin, África, em maio de 2011. Cunha é réu, na Justiça brasileira, acusado de receber propina de contrato de exploração de petróleo no país africano. Ainda, de usar contas na Suíça para lavar o dinheiro.

Conta na Suíça

Por tais indícios, os juízes negaram o desbloqueio das contas de pessoas e empresas envolvidas no processo. A corte, no entanto, não revela o autor do pedido. Liberados nesta semana, os papéis datam de novembro de 2016 e podem servir ao processo no Brasil. Na decisão de manter congelados os recursos no país, o tribunal suíço relata ainda como o negócio da Petrobras no Benin irrigou uma conta controlada por Cunha.

À época, o peemedebista era deputado. A estatal brasileira pagou US$ 34,5 milhões (R$ 111 milhões), em maio de 2011, pela licença de exploração no país africano, conhecida como Bloco 4. Segundo as autoridades suíças, após o negócio, houve a transferência de cerca de US$ 1,3 milhão (R$ 4,2 milhões) para uma conta no país atribuída a Cunha.

Reprovação crescente de Temer reforça a tese da eleição indireta

Eduardo Cunha

A pesquisa sobre o prestígio de Temer, encomendada pela Confederação Nacional da Indústria (CNI), apontou ainda uma queda no percentual de indecisos

 

Por Redação – de Brasília

 

A reprovação ao governo do presidente de facto, Michel Temer, subiu para 46% em dezembro ante 39% em setembro. E o percentual de pessoas que desaprovam a sua maneira de governar saltou para 64% contra 55%, de acordo com pesquisa CNI/Ibope divulgada nesta sexta-feira.

Eduardo Cunha
Eduardo Cunha tem sido apontado como cúmplice de Temer em um esquema de propina com recursos desviados da Petrobras

A aprovação ao governo ficou em 13%, ante 14% em setembro, com variação dentro da margem de erro de 2 pontos percentuais do levantamento. Para 35% o governo Temer é regular, ante 34% no levantamento passado.

Polêmica

A pesquisa, encomendada pela Confederação Nacional da Indústria (CNI), apontou ainda uma queda no percentual de indecisos. O número passou para 6% os que não souberam ou não quiseram avaliar o governo neste mês, contra 12% em setembro.

“A redução da indecisão vem acompanhada da insatisfação com o governo”, disse a CNI em nota sobre o levantamento.

Além das turbulências no cenário político enfrentadas pelo governo, a recessão econômica aprofundou-se no terceiro trimestre deste ano. O Produto Interno Bruto (PIB) ficou em 0,8%, marcando o sétimo trimestre seguido de contração.

A pesquisa foi realizada entre 1º e 4 de dezembro, dias após a demissão do ex-ministro da Secretaria de Governo Geddel Vieira Lima. O peemedebista baiano foi demitido após uma polêmica envolvendo o ex-ministro da Cultura Marcelo Calero. Temer foi citado como envolvido mas, até agora, não recebeu qualquer punição.

Ruim e péssimo

O levantamento também ocorreu depois de a empreiteira Odebrecht firmar acordo de delação premiada no âmbito da operação Lava Jato. Mas é anterior aos vazamentos de delações em que Temer e assessores próximos foram citados.

De acordo com a pesquisa, a queda de popularidade do governo é maior justamente entre a população com educação superior e renda familiar elevada. Era o segmento da sociedade brasileira que foi às ruas, vestido de verde e amarelo, pedir o impedimento da presidenta deposta Dilma Rousseff (PT).

“Entre as pessoas com renda familiar superior a cinco salários mínimos, o percentual dos que avaliam o governo como ruim ou péssimo cresceu. Chega a 16 pontos percentuais entre setembro e dezembro. Passou de 33% para 49%”, disse a CNI. A nota acrescenta que a avaliação positiva do governo também caiu entre os que têm educação superior, com recuo para 13% ante 18% em setembro.

Segundo a CNI, o levantamento ouviu 2.002 pessoas em 141 municípios.

Lava Jato

Algumas horas após a divulgação da pesquisa CNI/Ibope, um novo dado negativo soma-se à queda vertiginosa de Temer, junto à opinião pública. Um ex-executivo da Odebrecht disse em delação à força-tarefa da Operação Lava Jato que Michel Temer teria participado de um encontro para tratar de doações da empreiteira para campanha do PMDB em 2010. Em troca, Temer facilitaria a atuação da empresas em projetos da Petrobras. Os dados foram publicados na edição desta sexta-feira do diário conservador paulistano Folha de S. Paulo.

Segundo o jornal, o delator Márcio Faria, ex-presidente da Odebrecht Engenharia Industrial, disse à Lava Jato que o encontro aconteceu no escritório de Temer. A reunião, em São Paulo, teria contado com a presença do ex-deputado Eduardo Cunha (PMDB-RJ), que está atualmente preso. Procurado pela reportagem, Temer confirmou, por meio de sua assessoria, que Cunha o apresentou a um empresário a seu escritório em 2010, que poderia ser Faria.

Os repórteres apuraram com três pessoas relacionadas à investigação que a contrapartida para as doações eleitorais ao PMDB, em 2010, “estaria ligada a benefícios para a Odebrecht em obras do chamado Projeto PAC SMS”. O Plano de Ação de Certificação em Segurança, Meio Ambiente e Saúde foi estruturado pela Petrobras.

Preso em Curitiba

“Ligado ao PMDB, João Henriques já afirmou que um contrato de quase US$ 1 bilhão foi fechado às vésperas do segundo turno das eleições de 2010 entre a área internacional da Petrobras, sobre a qual ele tinha influência, e a Odebrecht. Segundo o acordo, a empreiteira cuidaria, no âmbito do PAC SMS, da segurança ambiental da estatal em dez países”, acrescenta o texto.

Ainda segundo o diário, ”a Odebrecht Engenharia Industrial, presidida à época por Faria, era responsável pelos contratos de prestação de serviço do projeto para a área de negócios internacionais da Petrobras. Pessoas ligadas às investigações afirmaram ainda que Cunha mencionou a reunião em São Paulo quando elaborou 41 perguntas a Temer no mês passado, ao arrolar o presidente como sua testemunha de defesa na Lava Jato”.

“Preso em Curitiba sob acusação de envolvimento no esquema da Petrobras, o ex-presidente da Câmara questionou, na pergunta de número 34, se Temer tinha conhecimento de ‘alguma reunião sua (dele) com fornecedores da área internacional da Petrobras com vistas à doação de campanha para as eleições de 2010, no seu escritório político, juntamente com o sr. João Augusto Henriques”.

Temer admite

Procurado pela reportagem, Temer confirmou, por meio de sua assessoria, que participou de reunião em 2010 com a presença de Eduardo Cunha e de um empresário que, segundo ele, “pode ser” Márcio Faria, ex-executivo da Odebrecht, em seu escritório em São Paulo. Temer afirma ainda que o encontro, segundo ele organizado por Cunha, serviria para que o então deputado apresentasse um empresário “disposto a contribuir para campanhas do PMDB”.

Segundo ele, no encontro não se falou de valores e obras ou projetos nos quais a Odebrecht poderia atuar.

“Em 2010, o então deputado Eduardo Cunha levou um empresário ao escritório do presidente, que não se recorda do nome ou da empresa que este representava. Cunha alegou que o empresário estaria disposto a contribuir para campanhas do PMDB e que gostaria de conhecer o então candidato a vice-presidente. O presidente o recebeu por breve tempo”, diz a nota.

Cunha chora na cadeia e ameaça entregar cúpula do PMDB a Moro

Cunha recebeu a visita da família na cadeia em Curitiba, no início da semana, e teria se emocionado

Após negociar a confissão de Marcelo Odebrecht, herdeiro da maior empreiteira da América Latina, a delação de Cunha passa a ter peso específico

 

Por Redação – de Brasília, Rio de Janeiro e São Paulo

 

O presidente de facto, Michel Temer, e seus auxiliares mais próximos estão em alerta máximo. Eles passaram a receber, nos últimos dias, novas ameaças do deputado cassado, e preso, Eduardo Cunha. As noites, na fria carceragem da Polícia Federal, na capital paranaense, têm sido demais para o ex-presidente da Câmara. Testemunhas que conversaram com a reportagem do Correio do Brasil disseram tê-lo visto chorando ao abraçar a mulher, a jornalista Cláudia Cruz. Ela e os filhos o visitaram, no início da semana.

Cunha recebeu a visita da família na cadeia em Curitiba, no início da semana, e teria se emocionado
Cunha recebeu a visita da família na cadeia em Curitiba, no início da semana, e teria se emocionado

Cunha tenta, em suas últimas esperanças de evitar um longo período atrás das grades, convencer os demais correligionários. Hoje, na condução do país, seus parceiros deveriam ajudá-lo na guerra contra a Operação Lava Jato, acredita. Mas pode ser tarde demais. Suas primeiras conversas acerca de uma possível delação premiada têm esbarrado nos procuradores do Ministério Público Federal (MPF). Parte deles prefere ver Cunha preso por muito tempo, ao invés de ter a pena reduzida. O peemedebista fluminense é acusado de receber mais de US$ 6 milhões em propina no esquema de corrupção na Petrobras.

Cunha e os ‘peixes graúdos’

Após negociar a confissão de Odebrecht, a delação de Cunha passa a ter peso específico. Somente interessaria ao Judiciário caso o peemedebista fluminense disponha de provas objetivas contra cúmplices do mais alto escalão. Entre eles, o presidente licenciado da legenda, Michel Temer, e políticos já citados, como o senador José Serra (PSDB-SP). Atual ocupante do ministério das Relações Exteriores, Serra já foi citado por receber mais de R$ 20 milhões em dinheiro sujo.

— Muitas pessoas e alguns articulistas dos principais jornais do país andaram falando assim, como se nós tivéssemos uma obrigação de fechar um acordo com Cunha. Eu não vou trocar o Cunha por alguém abaixo dele, eu tenho que trocar por alguém da mesma hierarquia ou acima dele, essa é a lógica do sistema. A menos que ele venha me entregar 200 deputados, 200 deputados menores que ele, daí eu até poderia ter uma multiplicação no sentido quantitativo — disse o procurador da República Carlos Fernando dos Santos Lima, a jornalistas. Ele é um dos principais integrantes da força-tarefa.

Acordo fechado

Ao contrário de Cunha, que apela para se ver livre das grades, Odebrecht teria fechado, na véspera, o seu acordo de delação premiada. A defesa do dono da empreiteira teria chegado a um acordo sobre um dos principais pontos da delação premiada. Acertaram que Odebrecht permanecerá preso, em regime fechado, até dezembro de 2017. A pena total deve ser de dez anos, com dois e meio em regime fechado.

A delação de Marcelo e dos executivos do grupo atinge todo o sistema político. Inclui Michel Temer, que teria pedido R$ 10 milhões em caixa dois. E Serra, com depósitos de R$ 23 milhões numa conta secreta, na Suíça.

Odebrecht está preso desde junho do ano passado, sob suspeita de envolvimento no esquema de desvios da Petrobras. Esse período de um ano e quatro meses será descontado da pena total, de acordo com pessoas ligadas às negociações, segundo adiantaram seus advogados.

Pena rígida

Em dezembro de 2017, segundo o acordo celebrado, o empresário entraria em progressão de regime, cumprindo pena no semiaberto e aberto, inclusive o domiciliar. No início de outubro, as autoridades da Lava Jato iniciaram as negociações para que ele cumprisse pena de quatro anos em regime fechado.

Sua defesa, no entanto, conseguiu negociar a redução da punição, alegando que era muito rígida. Afinal, o empresário denuncia políticos de alto calado e contratos públicos de valores astronômicos.

Todos, esquerda e direita, contra Moro

Dizem que a História não se repete, mas o “juizeco” Sérgio Moro, da Lava Jato, virou o alvo de todos os bandidos da direita e esquerda brasileira e lembra Giovanni Falcone, das Mãos Limpas, em luta contra a Máfia italiana. Que a semelhança fique nisso!

Por Rui Martins, de Genebra:

O momento é grave - todos unidos pela corrupção
O momento é grave – todos unidos pela corrupção

Regresso do Brasil cabisbaixo, sem esperança e envergonhado. Meu vizinho me pergunta como está o Brasil, percebo assim ter acompanhado pela imprensa as notícias aqui publicadas, na Suíça, sobre o Brasil.

– Piorou, respondo . Mesmo porque não teria outra resposta para dar.

Tento explicar ser uma tragédia nacional envolvendo a direita, centro e a esquerda. Todos farinha do mesmo saco. Não sei se me entendeu, seria preciso sentarmos com tempo para se explicar como os dirigentes de um partido dito de esquerda, envolvido inicialmente numa questão de financiamento foram também se corrompendo com propinas destinadas ao enriquecimento pessoal e, como num câncer, acabaram todos ou quase todos se envolvendo, num sistema infeccioso de corrupção.

No início, as investigações pareciam só incriminar o Partido dos Trabalhadores praticamente todo contaminado por uma fulgurante metástase, que acabou por provocar a destituição da presidente Dilma Rousseff, a honesta, que nada viu, embora tivesse sido ministra de Minas e Energia, Chefe da Casa Civil e tivesse presidido o Conselho da Petrobras.

Mas tão logo se desinfetou o poder talhando-se na carne, revelaram-se novos setores e políticos infectados pela gangrena. Caiu Dilma e o PT mas, logo depois, chegou a vez do autor da queda de Dilma, ex-presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha, e agora vai chegando a vez do presidente do Senado, Renan Calheiros, que esperneando consegue o milagre, ele que já conseguira o fatiamento da destituição de Dilma – a união de todos os bandidos contra o corajoso juiz que ousou denunciar os malfeitores e dar início a um novo conceito de ética na política brasileira.

Os mesmos ladinos enganadores de nossas ilusões por um Brasil melhor e mais justo, que ensinavam aos seus ingênuos, dóceis e cegos seguidores as palavras de ordem – Fora Gilmar, Fora Cunha, Fora Temer – agora se unem aos amigos-inimigos de sempre, com um novo slogan:

– Fora Moro!

Quem é Moro?

Como disse o presidente do Senado Renan Calheiros referindo-se ao juiz federal Vallisney de Souza Oliveira, Moro também não passa de um juizeco de primeira instância, um juiz de provincia interiorana, longe dos grande centros políticos.

Se o PT quiser, desta vez unido com seus ex-inimigos agora cúmplices na tentaiva de salvar Lula, poderá,  com o apoio de Cunha, Renan, Aloysio e todos os de rabo preso na Operação Lava Jato, liquidar Sérgio Moro como a Máfia italiana liquidou o juiz Giovanne Falcone em 1992.

E talvez isso aconteça.

Lula, Cunha, Renan, todos estarão salvos.

Perdido estará o Brasil.

Rui Martins é o editor do Direto da Redação.