Mobilização do povo e unidade ampla para derrotar o governo golpista

Manifestação de 16 de dezembro reuniu uma multidão organizada por todo o país

Importa agora, diante da emergência que o país está vivendo, sob golpe de Estado, empenhar-se para fazer convergir posições a fim de enfrentar o governo golpista

 

Por José Reinaldo Carvalho – de São Paulo

 

Com as eleições às mesas da Câmara dos Deputados e do Senado Federal, a designação das lideranças da coalizão governista nas duas casas e a nomeação de mais um membro da cúpula tucana para o núcleo político do Planalto, o regime do golpe completa o alinhamento das suas fileiras para dar continuidade à brutal ofensiva antinacional e antipopular no início do ano político de 2017.

Manifestações contra governo golpista tende a aumentar nos próximos meses
Manifestações contra governo golpista tende a aumentar nos próximos meses

A esquerda, por seu turno, aprofundou suas divisões, não somente com o confronto entre partidos do mesmo campo, mas também no interior de cada um.

Superado o debate sobre a posição do PCdoB nas eleições das mesas da Câmara e do Senado, viro a página, com olhos postos no rumo da luta por transformações revolucionárias no Brasil e no mundo, e nas tarefas imediatas.

Identidade

Importa agora, diante da emergência que o país está vivendo, sob golpe de Estado, empenhar-se para fazer convergir posições a fim de enfrentar o governo golpista e suas medidas lesivas aos direitos do povo, batalha que se prenuncia dura, porquanto os presidentes eleitos das duas casas legislativas, embora afirmando que promoverão o diálogo em torno das matérias legislativas correspondentes a essas medidas, foram taxativos em dizer que darão toda a prioridade à sua aprovação, destacadamente as reformas previdenciária e trabalhista, ainda neste semestre, explicitando de antemão sua identidade com estas.

As forças progressistas devem ter a consciência de que se confrontarão com o rolo compressor da maioria governamental tanto na Câmara quanto no Senado, onde a “defesa da autonomia do Legislativo” será grandiloquente, por razões corporativas, nos embates contra um Judiciário discricionário e legiferante, mas se adaptará ao ditame do Executivo, com o qual alterna relações de submissão e cumplicidade.

Não se espera das atuais maiorias no parlamento e das suas lideranças senão empenho extremado para viabilizar a agenda do governo. Assim, objetivamente, nos embates em torno dessa agenda os presidentes recém-eleitos agirão, como se depreende de suas declarações e atitudes, não como chefes de um poder independente, sua precípua função, mas como líderes de fato do governo golpista.

Golpe de Estado

O povo brasileiro espera das forças progressistas que atuam no parlamento oposição firme e consequente à agenda do governo e de sua base de apoio, capacidade de denúncia na tribuna e no plenário, resistência e luta, o exercício do direito à obstrução, a criação de condições para deter a virulenta ofensiva da coalizão governista, de que fazem parte as mesas diretoras. E o voto contrário a todas e quaisquer medidas lesivas à soberania nacional e aos direitos sociais, trabalhistas, previdenciários, civis, humanos e democráticos.

Será tanto mais eficaz esta luta, quanto for plena a compreensão sobre o caráter do regime instituído desde o golpe de Estado de 2016, cujo desfecho teve como protagonista principal esta mesma maioria parlamentar reacionária e golpista.

Por isso, a ação no parlamento no atual momento político, do ponto de vista das forças progressistas, tem como pressuposto a luta contra o regime golpista, a oposição tenaz, firme, inconciliável e consequente ao governo usurpador e ilegítimo de Michel Temer, o uso dos meios disponíveis para impedir a aplicação da sua agenda, em consonância com os movimentos sindicais e populares, agrupados em torno da Frente Brasil Popular, e as ações nas ruas e em outros âmbitos da luta social.

‘Mal menor’

É preciso compreender o caráter central na tática das forças progressistas da luta pela derrubada do governo e para derrotar sua agenda. Com o golpe de 2016, o Brasil está vivendo uma etapa política inteiramente nova. Se não se tiram todas as lições disso, corre-se o risco de fazer uma luta apenas retórica contra o regime do golpe, focando a ação parlamentar e política apenas sobre os seus efeitos mais nocivos.

A propósito, é falsa a tese de que diante do “golpe dentro do golpe” e da proeminência da Operação Lava Jato na situação política, o “mal menor” seria a permanência, mesmo enfraquecido, do presidente usurpador, ilegítimo e golpista no poder até 2018. Falso também arriar a bandeira “Fora, Temer!” sob a alegação de que não há correlação de forças para derrubar o governo e o pretexto de que seria “quase impossível” convocar eleições diretas antecipadas, e vencê-las, na hipótese de que se realizassem.

Assim, a luta pela eleição direta para presidente da República deveria, segundo esse argumento, ser feita sem ênfase, entrando no foco como palavra de ordem de ação apenas “caso o governo Temer se inviabilize”.

Campo golpista

Mais falso ainda e prejudicial ao combate das forças progressistas, porque as atiraria no colo do inimigo, é a tese recorrente de que a saída para a crise política é o entendimento, a conciliação nacional entre o governo, as forças que o apoiam e a oposição. Partindo da constatação de que a divisão de campos “não se restringe a uma disputa entre golpistas e não golpistas”, propõe-se a aliança com uma das alas do golpe, supostamente o centro político. Certamente, é necessária uma formulação não simplista, que corresponda à complexidade da situação, mas a pior de todas elas seria a que escamoteasse a existência de um campo golpista.

O combate ao arrocho draconiano que o governo está promovendo na economia também tem de ser feito com frontalidade, porquanto implica perda de direitos do povo. Em pleno período do pré-golpe, as vacilações quanto a esse combate se expressavam por meio da tese de que o arrocho fiscal era obrigatório, “com Dilma ou sem Dilma”.

Esquerda

A luta contra o governo Temer e a coalizão que o sustenta será dura, intensa e de longo fôlego. Exigirá a mobilização e a organização do povo nas ruas, locais de trabalho, moradia e estudo, parlamento nacional, parlamentos estaduais e municipais e demais instituições de poder local.

Seu êxito dependerá da unidade das esquerdas e da ampla união de forças democráticas, progressistas e patrióticas.

Para os comunistas será sempre imperioso combinar uma tática ampla, combativa e flexível com uma estratégia revolucionária de emancipação nacional e social, com perspectiva socialista. Qualquer dissonância entre tática e estratégia nos levaria ao oportunismo – de direita ou de “esquerda”.

José Reinaldo Carvalho é membro do Comitê Central, Comissão Política e Secretariado Nacional do PCdoB e editor do site Resistência.

Os médicos brasileiros e a morte da ex-primeira-dama

“Alguns colegas médicos conseguem superar-se em sua desumanidade – ultrapassando de longe o comportamento abjeto de manipular pacientes em consultas para votar contra o PT (lembrem-se de 2014) ou de recusar-se a atender ‘petistas”

 

Por Maria Fernanda Arruda – do Rio de Janeiro

 

Recebi e publico o texto do médico Manoel Olavo Teixeira. Trata-se de uma observação que, infelizmente, precisamos fazer a alguns profissionais da Medicina que abandonaram o senso ético. Algo lamentável sob qualquer ponto de vista, seja humano, seja cidadão.

Leia, adiante, o texto irreparável de Manoel Olavo Teixeira:
A Polícia Civil e o Ministério Público do Distrito Federal (DF) realizaram nesta quinta-feira a operação "Trackcare", que investiga a emissão de atestados médicos
“Falo de princípios básicos de humanismo e respeito ao sofrimento humano. De algo chamado ética médica”, afirma em seu texto o médico Manoel Olavo Teixeira

Não tem sido raro ver médicos se divertindo ou fazendo piadas sádicas às custas da doença e morte de Dona Marisa. Algumas destas abominações vazaram para as redes sociais. Pra quem usa branco, não é preciso ir muito longe para ouvir piadinhas de mau gosto sobre o caso, contadas por algum colega – (antes que alguém faça graça: não, eu não uso branco. Psiquiatras usam roupas comuns, exceto em situações excepcionais).

A minha classe, por dever de ofício, deveria ter, no mínimo, algum pudor quanto a gozar sadicamente com o sofrimento e a morte de outro ser humano. A profissão médica envolve compromissos sérios. Não gosto de dizer o óbvio (Brecht dizia durante o nazismo: que tempos são esses em que é preciso dizer o óbvio?), mas o juramento de Hipócrates compromete o médico com a defesa e o respeito à vida, em sua acepção mais ampla. Sem distinção de pessoas. Falo de princípios básicos de humanismo e respeito ao sofrimento humano. De algo chamado ética médica, que estudamos em deontologia e diceologia, lá pelo 4 ano do curso de medicina. Lembram-se?

Vergonha

Porém, de novo, alguns colegas conseguem superar-se em sua desumanidade – ultrapassando de longe o comportamento abjeto de manipular pacientes em consultas para votar contra o PT (lembrem-se de 2014) ou de recusar-se a atender “petistas”. Mais uma vez, uma parcela de minha classe me enche de vergonha. Sinto algum alívio por saber que existem respeitáveis exceções. Felizmente, com muitas delas tive e tenho o prazer de compartilhar meu percurso profissional.

Há alívio, sim, mas permanece o choque de perceber que muitos médicos brasileiros estão agindo como monstros morais. Muitos deles são jovens recém-formados. Acham que sua adesão à militância de direita antipetista justifica qualquer tipo de atrocidade, mesmo ética ou profissional, para tripudiar sobre o suposto inimigo.

Corporativismo

De repente, me ocorreu que, nos primeiros anos de ascensão do nazismo, o maior número de militantes do partido nacional socialista era composto por médicos. Que contribuíram decisivamente na elaboração das teorias de superioridade racial ariana – (principalmente psiquiatras, para não dizerem que estou sendo corporativo dentro do corporativismo). É a triste sina histórica da Medicina, fruto do oportunismo político e, sobretudo, da origem de classe da maior parte dos seus membros. Ao longo da história, a Medicina é uma profissão para os filhos da elite. É uma ciência, um conhecimento, um saber, uma arte, mas é também uma marca de distinção social e poder.

E não podemos nos esquecer que estamos no Brasil. O país onde seu coronel mandava o filho estudar Medicina (ou Direito) em Coimbra ou Montpellier, para voltar como doutor e somar credibilidade intelectual ao poder político do dono do grande latifúndio.

Médicos elitistas

Num país com o nível de desigualdade social e cultural como o nosso, o peso da distinção social conferido pela formação médica é ainda maior. Estudantes de Medicina de classe média baixa, rapidamente, incorporam valores conservadores, argentários e consumistas durante sua formação. Valores identificados como padrões característicos da elite brasileira. O compromisso ético e humanitário fica em segundo plano.

Não podemos nos esquecer que, entre outros crimes, os governos petistas mexeram nesse vespeiro. Pela primeira vez, em 31 anos de profissão, vi negros e pessoas de origem social humilde cursando graduação, residência e pós-graduação em medicina. Por razões evidentes, isto é imperdoável.

Pântano do fascismo

Apesar desta reflexão, uma pergunta fica ecoando em meus ouvidos. É possível entender um médico assumir posições conservadoras, na defesa de seus valores corporativos e meritocráticos? É possível entender um médico desumanizar-se por colocar o ganho financeiro como seu único valor? É possível compreender um médico jovem se identificar com os valores da elite, para perseguir sua sonhada ascensão sócio-econômica?

Mas eu não consigo entender como um médico pode, conscientemente, fazer chacota e festejar publicamente a morte dolorosa de uma mulher de 66 anos. Aí saímos do terreno da sociologia das profissões e entramos no perigoso pântano do horror fascista.

Este é o meu maior temor.

Manoel Olavo Teixeira é médico.

A vida como imperativo cósmico

Durante séculos os cientistas tentaram explicar o universo por meio de leis físicas, expressas por equações matemáticas

Mas tudo mudou quando a partir dos anos 20 século passado, o astrônomo Hubble provou que o estado natural do universo não é a estabilidade mas a mudança

Por Leonardo Boff – do Rio de Janeiro:

Durante séculos os cientistas tentaram explicar o universo por meio de leis físicas, expressas por equações matemáticas. O universo era representado como uma imensa máquina que funcionava sempre de  forma estável. A vida e a consciência não tinham lugar nesse paradigma. Era assunto das religiões.

Durante séculos os cientistas tentaram explicar o universo por meio de leis físicas, expressas por equações matemáticas
Durante séculos os cientistas tentaram explicar o universo por meio de leis físicas, expressas por equações matemáticas

Mas tudo mudou quando a partir dos anos 20 século passado, o astrônomo Hubble provou que o estado natural do universo não é a estabilidade mas a mudança. Ele começou a se expandir a partir da explosão de um ponto extremamente pequeno mas imensamente quente e repleto de virtualidades: o big bang.

A partir daí formaram-se os quarks  e os léptons, as partículas mais elementares que, uma vez, combinadas, deram origem aos pr ótons e nêutrons, base dos átomos. E a partir deles, todas as coisas.

Expansão, auto-organização, complexificação e  emergência de ordens cada vez mais sofisticadas são características do Universo. E a vida?

Não sabemos como surgiu se vinda de algum meteoro ou das próprias virtualidades da Terra.  O que podemos dizer é que  a Terra e o inteiro Universo trabalharam bilhões e bilhões  de anos para criar as condições do nascimento  desta belíssima criança que é a vida.

Terra

É  frágil porque pode facilmente adoecer e  morrer. Mas também é forte, porque nada até hoje, nem os vulcões, nem os terremotos, nem os meteoros, nem as dizimações em massa em eras passadas,  conseguiram extingui-la totalmente.

Para que surgisse a vida foi preciso que o Universo fosse dotado de três qualidades. Ordem, vinda do caos, complexidade, oriunda de seres simples e informação, originada pelas conexões de todos com todos. Mas faltava ainda um dado:  a criação  dos tijolinhos com os quais se constrói a casa da vida.

Esses tijolinhos foram forjados dentro do coração das grandes estrelas vermelhas que arderam por vários bilhões de anos. São os ácidos químicos e demais elementos que permitem  todas as combinações e todas as transformações.  Assim não há vida sem que haja a presença do carbono, do hidrogênio, do oxigênio,do nitrogênio, do ferro, do fósforo e dos 92 elementos  da escala periódica de Mendeleev.

Quando estes vários elementos se  unem, formam o que chamamos de molécula. A menor porção de matéria viva. Isso ocorreu há 3,8 bilhões de anos.  A união com outras moléculas criou os organismos e os órgãos que constituem os seres vivos, das bactérias aos seres humanos.

 

Leonardo Boff, é teólogo, escritor e professor universitário, expoente mundial da Teologia da Libertação.

Como foi a resistência ao golpe de 1964

Setores neoconservadores ressuscitam discurso anticomunista e tomam o golpe de 1964 não como episódio de vergonha para o país, mas como exemplo a ser seguido

Após o golpe, à direita e à esquerda, quem acreditou em enfrentamento direto ao novo bloco de poder, quebrou a cara

 

Por Breno Altman – de São Paulo

 

Também se constituiu em um processo de derrota estratégica, como agora. Derrubado o governo João Goulart, as forças progressistas deixaram de ser alternativa de poder e tiveram que reorganizar sua política.

À direita e à esquerda, quem acreditou em enfrentamento direto ao novo bloco de poder, quebrou a cara.

Setores neoconservadores ressuscitam discurso anticomunista e tomam o golpe de 1964 não como episódio de vergonha para o país, mas como exemplo a ser seguido
Setores neoconservadores ressuscitam discurso anticomunista e tomam o golpe de 1964 não como episódio de vergonha para o país, mas como exemplo a ser seguido

A oposição liberal-burguesa, parte da qual havia apoiado o golpe, ficou a ver navios com suas expectativas de eleições presidências já em 1965.

A primeira leva de alternativas guerrilheiras, cujo epicentro foi o movimento de Caparaó, inspirado por Brizola, em 1966. Sucumbiu sem entrar em combate.

Grandes passeatas

O que funcionava era a luta de massa, por agendas concretas, que paulatinamente tirava o povo da letargia e da intimidação.

Começou com a mobilização estudantil contra os excedentes (1966), em uma escalada de lutas reivindicatórias que conflui para as grandes passeatas de 1968.

Os estudantes, a partir de sua luta concreta, vertebraram o amplo sentido de oposição que vinha se acumulando no país, arrastando a classe média para as ruas.

Golpe e ditadura

A politização crescia na medida em que os estudantes enfrentavam o aparato repressivo da ditadura, atraindo a solidariedade de outros setores no combate à ditadura.

A classe operária e os camponeses, muito mais reprimidos depois de 1964, travavam lutas mais tímidas, mas também em 1968 tivemos as greves de Contagem e Osasco, por plataformas econômicas, com a consciência dos trabalhadores se elevando conforme o regime militar avançava nas medidas repressivas e na negação de básicos direitos econômicos.

Houve, então, em 1968, o primeiro ciclo de embates frontais contra a ditadura, quatro anos depois do golpe. A partir de um processo de acumulação com base em batalhas concretas por direitos.

O campo popular foi novamente derrotado, tendo como desenlace o AI-5 e a configuração do regime em uma ditadura militar-fascista. A razão mais importante da nova derrota talvez tenha sido a baixa presença da classe trabalhadora naquele ciclo de mobilização.

Enfrentamento direto

Um setor da esquerda resolveu adotar novamente a estratégia de enfrentamento direto, sem base de massa e sem capacidade militar real. Adotaram o método da luta armada. Heróica e exemplar, em poucos anos havia sido destroçada, com a morte de centenas de combatentes e o isolamento da guerrilha junto ao povo.

Passou-se um período duríssimo, no qual estavam no chão a velha esquerda, atropelada em 1964, e a nova esquerda, armada, que já não sobrevivia em 1973.

Mais uma vez foram as lutas de massa setoriais que permitiram a reorganização da resistência.

Reivindicações estudantis e operárias começavam a brotar, arrastando a simpatia popular.

Também as batalhas institucionais começaram a dar frutos. Mesmo controladas, as eleições de 1974 e 1978 representaram derrotas do partido da ditadura, com o povo insatisfeito pela crise econômica vigente após 1973.

Esse movimento reivindicativo foi crescendo e se unificando.

Jornadas de luta

As jornadas estudantis de 1977 foram o primeiro ensaio de mobilização unitária contra a ditadura. Estimuladas por uma onda de prisão contra militantes nos primeiros meses daquele ano.

Mas estas só foram possíveis porque as faculdades e escolas já viviam forte efervescência por agendas concretas.

A partir de 1978, ao contrário do que ocorrera dez anos antes, a classe operária entra em cena, a partir da greve da Scania, em São Bernardo.

O movimento se alastra. A reivindicação não era política, mas econômica: reposição de perdas salariais.

Logo chegaríamos as greves gerais dos metalúrgicos do ABC.

Progressivamente os trabalhadores e as camadas médias, entre os quais muitos cidadãos tinham apoiado a ditadura em algum momento, começaram a se dar conta que o centro de seus problemas e das dificuldades do país era a existência do regime militar.

Estudantes

O surgimento do PT, da CUT e do MST são produtos dessa atmosfera. Bem como a reconstrução da UNE e da UBES, entre outras entidades.

O ápice desse ciclo foi a campanha das diretas já, entre 1983 e 1984. O acúmulo de forças, então, de consciência e organização, tornara possível um movimento unitário com objetivo claramente antiditatorial.

A ditadura estava com os dias contados. O resto da história até os mais jovens conhecem.

Breno Altman é jornalista, diretor do site Opera Mundi.

Da democracia ao golpe, um balanço de nossas vidas

A catatonia em que nos encontramos, todos, após o golpe, permite que o fascismo avance e seres hediondos, verdadeiros monstros, sem piedade, exterminem direitos civis, trabalhistas, sociais

 

Por Gilberto de Souza – do Rio de Janeiro

 

O golpe de Estado, no Brasil, não leva embora apenas a democracia. Carrega para sempre o tempo de cada brasileiro. Do mais novo aos idosos, cada dia vivido sob a exceção de um regime de ultradireita, que a cada semana vende um pedaço maior do país, significa passar um intervalo da nossas existências encarcerados. Imobilizados. Incapazes de decidir sobre nosso próprio futuro.

O tempo perdido, e irrecuperável, em que o Brasil vive nesse golpe de Estado entra para a conta dos inconsequentes
O tempo perdido, e irrecuperável, em que o Brasil vive nesse golpe de Estado entra para a conta dos inconsequentes

A catatonia em que nos encontramos, todos, após o golpe, permite que o fascismo avance. Seres hediondos, verdadeiros monstros, sem piedade, exterminam direitos civis, trabalhistas, sociais. Além de roubar nosso tempo, mancham o passado de lutas e a memória de heróis como Marighella, Che Guevara, Mandela. Homens que dedicaram suas vidas por um mundo mais justo e igualitário.

Tenho 56 anos. Destes, 20 se passaram sob a ditadura civil-militar. Meu netinho nem completou seu primeiro ano de vida e já ouve gritos de revolta, nas ruas. É embalado ao som das bombas de efeito moral e gemidos causados pelas balas de borracha.

Tempus fugit

Somos reféns da inconsequência e da tentativa estúpida que, ao longo de mais de uma década, desperdiçou o combustível que move da resistência contra a tirania, na tentativa estéril de misturar os interesses do capital ao do trabalho. A política de enriquecer a direita ao mesmo tempo em que aumentava em alguns gramas a ração dos miseráveis, para que deixassem de ser miseráveis e passassem à condição de pobres, exauriu as últimas gotas das conquistas de toda uma geração. Entregou de mão beijada, aos nossos piores algozes, a esperança por dias melhores.

Esse modelo de nação, em que a prepotência e a selvageria tomam de assalto o poder, não pode nos representar. Não àqueles que ainda pretendem deixar para os descendentes um país mais gentil com seus filhos. Ainda que todas as tevês, em cada um dos lares brasileiros, apresentem notícias em contrário, dessas que tentam tapar o sol com a peneira, vivemos “tempos estranhos”. Tem razão o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Marco Aurelio Mello. São tempos muito estranhos mesmo.

Perderemos outras tantas décadas até recuperarmos um décimo do terreno deixado para trás na fatídica noite de 13 de Maio deste ano terrível de 2016. Aqueles da minha geração ou da idade da minha filha já não têm mais tanto tempo assim. Exerceremos, com sorte, o dever de restaurar a democracia perdida já a partir das próximas eleições que, na hipótese mais provável, acontecerão em 2022. A janela de 2018 fecha-se, rapidamente, com a possível eleição indireta, na mais que possível cassação da chapa Dilma-Temer. Tempus fugit.

Até lá, nesse período difícil que temos pela frente, corremos o risco de não reconhecer mais o país em que nascemos.

Gilberto de Souza é jornalista, editor-chefe do Correio do Brasil.

Tucanos se bicam em SP: ‘Doria é mais falso que o botox que aplica’

O paulistano parece que gosta de sofrer. No seu masoquismo, votou no desconhecido Celso Pitta, em 1996, e depois se arrependeu amargamente. Anos depois, em 2008, elegeu Gilberto Kassab, que assumira a prefeitura em 2006 com a renúncia traiçoeira de José Serra, e novamente se deu mal. Em ambos os casos, a mais rica cidade brasileira foi literalmente abandonada, com gestões desastrosas e elitistas

Por Altamiro Borges – de  São Paulo:

Agora, segundo as duvidosas pesquisas de opinião, o eleitor da capital paulista está prestes a dar um novo tiro no pé. João Doria, o milionário empresário que já foi apelidado de “João Dólar”, surge à frente nas sondagens e parece já ter o seu lugar assegurado na disputa do segundo turno.

Metido a bem informado, mas descuidando do senso crítico diante de uma mídia manipuladora e partidarizada, o paulistano médio nem se dá ao trabalho de pesquisar a história dos seus candidatos. No caso de “João Dólar”, a sua biografia é das mais sinistras. Até os chamados “tucanos autênticos” abandonaram o novato no ninho por considerá-lo um oportunista.

Tucanos se bicam
Tucanos se bicam

Cerca de um terço dos dirigentes do PSDB paulistano divulgou um documento na semana passada com duras críticas ao apadrinhado de Geraldo Alckmin. Na quarta-feira foi o ex-governador Alberto Goldman, fundador da sigla e representante do alto tucanato, que detonou o “correligionário” em seu blog. O “fogo amigo” foi pesado, mas não obteve repercussão na mídia chapa-branca. Vale conferir trechos da sua postagem:

Documento

Quem é esse personagem que se apresenta como “o novo” como se isso, por si só, fosse uma virtude? Vou mostrar que usa métodos velhos, que tem sido a marca de atuação de grande parte dos candidatos em nosso país, e o faço através de seu histórico público e privado e de suas declarações.

Dória diz não ser político, mas administrador, empresário. Não é verdade. Ele mesmo se vangloria em ter sido presidente da Paulistur, no governo Mario Covas, e presidente da Embratur, no governo José Sarney, ambas empresas estatais da área do Turismo.

Seu material de propaganda divulga que foi coordenador da campanha “Diretas Já”, o que também não é verdade. Exerceu cargos políticos, remunerados, profissionalmente. Agora é candidato a prefeito.

Erro

Dória comete um grave erro ao colocar o “político” em contraposição ao “administrador”. No exercício das funções públicas essas duas características não são polos opostos. Pelo contrário, têm que se amalgamar.

Quando se trata da “administração” da coisa privada bastam os instrumentos de conhecimento, informações, estudos, pesquisas, e materiais, computadores, tratores, enxadas, escavadeiras, que se usa para cumprir as tarefas necessárias para produzir lucros.

Contudo, quando se trata da coisa pública não bastam instrumentos intelectuais e materiais. É essencial, imprescindível, a visão política, isto é, o resultado social. A política é a alma das tarefas realizadas para atender o interesse público. É ela que diferencia o público do privado.

Dória se diz empresário. Tem várias empresas, é verdade, e divulga em seu material de propaganda que, através delas, é um dos principais geradores de negócios do Brasil.

No entanto, como empresas de eventos, não produzem qualquer bem ou serviço diretamente, apenas estabelecem e ampliam relações entre empresários e agentes públicos (deputados, senadores, secretários, ministros, governadores), atividade lícita que se chama de lobby, que lhe permitiu acumular um patrimônio declarado surpreendente de centenas de milhões de reais.

Esse sucesso financeiro o faz afirmar que é um administrador, um gestor.

Recursos públicos

No entanto, administrar recursos públicos em benefício do povo é uma atividade bem diferente de administrar recursos privados para benefício próprio. São processos e objetivos distintos, nem sempre sem conflitos e contradições, e exigem uma visão política e social de natureza muito especial.

Esse curto período de campanha já permite analisar o seu perfil. Dória não relutou em usar de todos os recursos lícitos e ilícitos, operacionais e financeiros, para angariar votos em uma prévia que está sendo avaliada pela Justiça Eleitoral.

Nesse período prévio a lei veda o uso de quaisquer recursos financeiros para buscar votos para decisão dos filiados ao partido. Despesas só podem ser feitas pelo diretório municipal, mas ele as fez com recursos próprios.

Além disso, não titubeou em usar as relações pessoais com o governador para obter apoios através da pressão de dirigentes do Estado sobre os filiados ao partido.

A sua falta de zelo pela coisa pública ficou evidente quando, conforme apuração da Folha de São Paulo constatou-se que tomou ilegalmente uma área de terra para somar à sua propriedade em Campos de Jordão.

Acordo

Na entrevista à Jovem Pan ainda justificou que a incorporação era produto de um acordo de desafetação onerosa, feito com o prefeito anterior do município, em que ele teria trocado o imóvel por algum equipamento doado para a cidade, acordo esse que não foi “homologado”, segundo suas palavras, pela Câmara Municipal do município.

Ora, se não foi “homologado”, não aconteceu, não houve um ato jurídico perfeito. Nunca poderia incorporar bens públicos apenas através de um “acordo” com o prefeito ou com o Executivo municipal. O fato é que tomou a área, mostrou não respeitar a diferença entre o interesse público e o interesse privado e, processado, foi tentar um arranjo que legalizasse o mal feito.

Doria diz que vai abrir mão do salário. Para um homem com o patrimônio de centenas de milhões que significado tem isso? Todos os dirigentes públicos que recebem o seu salário não são dignos de respeito? Muitos vivem disso, e só disso, honestamente. Merecem nosso profundo respeito ou valem menos que Um Dória?

Em entrevista ao ser perguntado se vai lotear os cargos da prefeitura, caso eleito, nega que o fará ao mesmo tempo em que justifica a mesma atitude do governo do Estado para obter apoio político para a sua pretensão eleitoral.

Uma contradição evidente. Perguntado sobre o acordo com o PP de Paulo Maluf disse que agora o PP não é do Maluf, é do Guilherme Mussi. Curioso. Mudou alguma coisa?

Enfim alguns toques sobre a personalidade de João Dória. Vamos acompanhar com a lupa. Afinal é candidato a prefeito da nossa metrópole e é candidato do meu partido, o que me demanda uma responsabilidade bem maior que a de qualquer cidadão.

Mais corrosivo do que as “reflexões partidárias” do velho tucano Alberto Goldman, porém, foi o desabafo postado pelo jornalista Luiz Carlos Franco, ex-assessor de João Doria, em seu perfil no Facebook.

Sem meias palavras ou falsa diplomacia, ele garante que o candidato do PSDB “é mais falso do que o botox que anda aplicando”. E dá vários exemplos da falta de caráter do picareta.

Também vale conferir a postagem, já que a mídia chapa-branca, que abocanha volumosos recursos em publicidade do Palácio dos Bandeirantes – novamente optou por esconder o desabafo:

Meus amigos sabem que não costumo falar de política no Face, mas a bem da verdade, e aqui quem quiser usar com fins eleitoreiros, que use, preciso entrar na disputa aos 45 do segundo tempo.

É na condição de ex-assessor de Joãodoria45 na extinta Paulistur, hoje SP Turis, nos idos de 1985, única vez em que deixei a iniciativa privada, que resolvi falar.

Joãodoria45 é tão verdadeiro quanto nota de R$ 30,00, ou como o tingimento de seus cabelos ou o botox que andou aplicando.

Cruzamos caminhos algumas vezes, e após eu ter investido dois anos de minha vida profissional para torná-lo presidente da Embratur, foi capaz de oferecer seus serviços de agência à TAM, Linhas Aéreas, onde eu trabalhava, o que implicaria, se o comandante Rolim aceitasse, na minha demissão.

Também pediu minha cabeça ao sr. Frias, dono da Folha, por discordar de artigos que publiquei. Tive certeza da sua fidelidade ao ser informado pelo comandante Rolim sobre sua proposta; e pelo jornalista Adilson Laranjeira, meu chefe à época na Folha da Tarde, que ele havia pedido minha cabeça.

Não bastasse, ao levar um cliente em seu programa, na TV Band, aproveitou a oportunidade para fazê-lo de escada e mostrar o quanto era íntimo da empresa do fundador da companhia. Para azar de Dória, a mãe do entrevistado em questão era outra, e o filho, um bem-sucedido empresário nascido fora do casamento.

Sei que por estar à frente nas pesquisas vão se opor ao que estou falando, mas a verdade dos fatos fala mais alto.

Vomito quando vejo Dória falando de Mário Covas, que não o digeria. Mário entrava na sala de João, no Anhembi, batendo cinzas de cigarro no chão, por não aturar o executivo imposto pelo grande governador Franco Montoro. Covas não o suportava, e ele vem dizer que era amigo e que muito aprendeu com Covas.

E depois vem dizer que não é político, mente tanto quanto a classe que representa.

Por último, um reparo: nem toda a mídia tem blindado o filhote de Geraldo Alckmin. A Folha tucana, que nunca escondeu suas estreitas ligações com José Serra, rival do atual governador, até tem publicado algumas matérias picantes contra o candidato do PSDB.

Falsidade

Na quinta-feira, o jornal mostrou a falsidade e o cinismo do empresário na reportagem intitulada “Privatista, Doria recebeu R$ 10,6 milhões de governos”. Pena que a denúncia não repercutiu em outros veículos, principalmente na rádio e na televisão, o que ajudaria o eleitor paulistano a evitar uma nova tranqueira em São Paulo.

Segundo a reportagem, assinada por Thais Bilenky, “apesar de seu discurso privatista, o candidato a prefeito João Doria recebeu aportes em suas empresas de pelo menos R$ 10,6 milhões de entes estatais desde 2005.

Dados

Doria não informa o faturamento de seu negócio, que inclui o Lide, organização de empresários que promove encontros periódicos entre a iniciativa privada e autoridades públicas. Dados obtidos via Lei de Acesso à Informação revelam repasses da administração federal durante as gestões petistas de Luiz Inácio Lula da Silva e Dilma Rousseff de cerca de R$ 6 milhões”.

“Do governo do Estado, comandado por seu padrinho político, Geraldo Alckmin (PSDB), as empresas de Doria receberam R$ 4,5 milhões entre 2010 e 2015. Todos os valores foram corrigidos pelo IGP-M.

A Desenvolve SP, banco de desenvolvimento do governo, patrocinou 33 eventos em valores que somam R$ 2,7 milhões. Além disso, o Executivo estadual fez anúncios nas revistas da Editora Doria que custaram R$ 1,8 milhão entre 2014 e 2015″, descreve a matéria, que conclui:

“Em sua campanha pela prefeitura, Doria promete firmar diversas parcerias com a iniciativa privada. Ele argumenta que concessões e privatizações na cidade economizarão recursos públicos e que ‘não faz sentido o Estado ser gordo e ineficiente como é’. Como candidato, Doria combate o “jeito petista de administrar”. Mas ele fez diversos contratos com gestões petistas”. Haja cinismo!

Altamiro Borges, é jornalista

Diretas Já! volta ao palco da história

Val Carvalho é revolucionário e articulista do Correio do Brasil
Val Carvalho é revolucionário e articulista do Correio do Brasil

As esquerdas brasileiras, historicamente, não conseguiram elevar a consciência democrática do povo para além da defesa de eleições diretas para presidente

 

Por Val Carvalho – do Rio de Janeiro

 

Passados 32 anos dos grandes comícios das Diretas Já!, a maior mobilização popular que o país já viu, essa bandeira volta a empolgar a resistência democrática nas ruas do país. Por que, depois de tanto tempo, essa bandeira continua mobilizando o povo?

As esquerdas brasileiras, historicamente, não conseguiram elevar a consciência democrática do povo para além da defesa de eleições diretas para presidente. De fato, a eleição de presidentes nacionalistas ou de esquerda foi o caminho concreto que o povo trilhou para conquistar seus direitos .

O povo, na rua, pede a saída de Temer e a realização de eleições diretas, já!
O povo, na rua, pede a saída de Temer e a realização de eleições diretas, já!

Nesse processo histórico, podemos mencionar a eleição de Vargas em 1950, a de JK em 1955 e a eleição do vice Goulart junto com o demagogo direitista Jânio Quadros, em 1960. O golpe da implantação do parlamentarismo, depois da renúncia de Jânio em agosto de 1961, foi derrotado em janeiro de 1963 num plebiscito onde o povo votou majoritariamente pela volta do presidencialismo. Em novo plebiscito realizado em 1993, o povo voltou a apoiar amplamente o presidencialismo contra o parlamentarismo – o regime dos sonhos de uma direita sem votos.

Em 1984, após vinte anos de ditadura militar, o povo sai nas ruas com o movimento pelas Diretas-Já, e que levou à derrota do regime um ano mais tarde. Mas nas primeiras eleições diretas para presidente, em 1989, a base popular elege um “coronel” de Alagoas no lugar de Lula. Faltou-lhes para isso a conexão histórica com as lutas do passado e necessária experiência democrática para usar o voto direto como arma de classe.

O povo teve que passar pela experiência desastrosa de Collor, do impeachment deste, e dos governos excludentes de FHC para poder ver em Lula a retomada de sua luta histórica. A partir da eleição de Lula em 2002, não mais o abandonou, e reelegeu Lula e Dilma por mais três mandatos.

Mas, se os treze anos de governo petista foram plenos de conquistas sociais, não o foram de educação política das massas, o que as deixou a mercê das manipulações do monopólio midiático da direita. Desse modo, o novo golpe das elites reacionárias enfrentou um governo sem defesas e um povo com baixo nível de organização.

Em decorrência disso, ao enfrentar o golpe e lutar contra a extinção de seus direitos, esse povo não vê outro caminho senão trilhar novamente a luta pela conquista de eleições direitas para presidente. É a luta que corresponde ao nível de consciência política das amplas massas e a única maneira de se avaliar a correção de uma palavra de ordem.

Val Carvalho é articulista do Correio do Brasil.

Os desafios do golpe continuado

Michel Temer chegou no fim da linha

A conspiração para o golpe (que sempre contou com agentes dentro do próprio governo) sai da escuridão quando o vice perjuro deixa à mostra suas garras ao pretextar motivos para abandonar a coordenação política do governo e ingressar, a partir daí abertamente, na conjuração

 

Por Roberto Amaral – do Rio de Janeiro

 

O golpe de Estado que confiscou o mandato da presidente Dilma Rousseff e feriu de morte a soberania do voto, pedra angular da democracia representativa, não se consumou no dia 31 de agosto, quando o Senado Federal, prostrando-se de cócoras para ficar no mesmo nível da Câmara dos Deputados do dia 17 de abril, votou o impedimento. A arquitetura do processo golpista remonta ao final das eleições de 2014, quando o PSDB primeiro tenta eivar de fraude o processo eleitoral, e em seguida, interpõe recurso junto ao TSE visando à cassação da chapa Dilma-Temer, o que, não sabiam os tucanos naquele então, poderá brevemente lhes trazer sérias dores de cabeça.

Michel Temer chegou no fim da linha
Michel Temer chegou no fim da linha após admitir que pediu dinheiro a empreiteiro

Outra peça dessa articulação golpista, que não foi obra dos céus nem produto do acaso, foi a eleição de Eduardo Cunha (o líder efetivo do PMDB) e, na sequência, a utilização da Câmara dos Deputados como instrumento de desestabilização do governo. O presidente defenestrado da Câmara, líder do baixo clero e de seus pleitos nada republicanos, não tinha estatura para ser sujeito nesse projeto, não contasse, como efetivamente contou, com o apoio do PMDB e nele do seu presidente Michel Temer, além dos partidos que se coligaram na oposição (PSDB, DEM, PSB, PPS, PP etc.). Financiando a uns e a outros, e muitas vezes investindo diretamente, atuaram as grandes corporações, como a FIESP – o grande clube dos sonegadores de impostos – e a mídia, monopolizada política e ideologicamente: os grandes jornais se reproduzem nos jornais de província, e o telespectador assiste à rede Globo mesmo quando sintoniza a Bandeirantes ou a Record ou o SBT, ou essa ou aquela emissora.

A conspiração (que sempre contou com agentes dentro do próprio governo) sai da escuridão quando o vice perjuro deixa à mostra suas garras ao pretextar motivos para abandonar a coordenação política do governo e ingressar, a partir daí abertamente, na conjuração. Registre-se: a liderança do golpe é assumida à luz do dia pelo ex-coordenador político do governo, vice-presidente da República e beneficiário direto do impeachment.

O primeiro grande lance, porem, é desferido pelo STF, quando o ministro Gilmar Mendes (sempre ele) concede liminar nos autos de mandado de segurança virtualmente proibindo – um escândalo no presidencialismo – a presidente da República de nomear o ministro chefe de sua Casa Civil.

Minoritária no Congresso, acossada por um STF partidarizado, sabotada internamente sua administração, a presidente Dilma tinha a governança seguidamente ferida. Com esse pano de fundo caminhava na Câmara o pedido de impeachment. A longa tramitação nas duas Casas, e, afinal, o decreto cassatório no Senado Fderal, tanto quanto a campanha de imprensa e as mobilizações de rua, são peças de um processo único e ainda não concluído, pois seu objetivo de longo prazo é um governo anti-popular e antinacional, no qual será possível reprimir a emergência político-social das massas. O ponto de partida é o ‘ajuste’ imposto pela banca internacional e operado pelo banqueiro goiano Henrique Meirelles, com o apoio da avenida Paulista.

Os golpistas, tendo claro o objetivo final, adotaram uma metodologia de implantação gradual, e não recuarão até terem completado a implantação do novo regime. Não se deve, portanto, tê-lo (o golpe), hoje, como obra finda e acabada. Trata-se de golpe de implantação peça a peça; trata-se de ‘golpe continuado’, em operação contínua. Noutras palavras, muitas operações ainda estão por surpreender os que não acompanham o processo histórico.

A burocrática presença do ministro Ricardo Lewandosky na presidência da sessão do Senado, e a liturgia barroca do ‘julgamento’ de cartas marcadas, tinham por objetivo simplesmente passar para a opinião pública nacos de formalismo legal encobrindo uma pantomima desde a origem carente de legitimidade. Nem a liturgia era séria, nem os senadores são julgadores (de ‘juízes’ foram chamados pelo presidente do STF) no sentido estrito do vocábulo, nem o STF é isento, como não se cansa de demonstrar o inefável ministro Gilmar Mendes.

O formalismo vazio e a pompa démodé foram levados com extremo rigor, mas em vão, pois o país sabe que a confirmação pelo Senado do impeachment anunciado com tanta antecedência (e carente de requisito indispensável em tal processo, que é a evidência de crime de responsabilidade, como exige a Cnstituição) consiste num golpe de Estado, atípico, vestibular da regressão social que pede o Estado policial.

As recentes manifestações populares, a começar pela massiva concentração de São Paulo (100 mil? 80 mil pessoas?) no último domingo (4/9), antecipando as vaias ao presidente de fato na Parada de 7 de setembro em Brasília e na abertura das Paraolimpíadas no Maracanã, revelam que a população brasileira não apenas está convencida de que Dilma Rousseff foi vitima de um golpe de Estado, como o repele da forma a mais profunda e significativa. E rejeita o governo de seu beneficiário.

O ‘Fora, Temer’ percorre hoje o país como verdadeiro rastilho de pólvora e brevemente o ‘Diretas-já’ de 2016 poderá transformar-se numa reivindicação popular de consequências imprevisíveis.

Esse sentimento foi renovado, ainda no 7 de setembro, no tradicional ‘Grito dos Excluídos’, transformado em ação contra Temer, com mobilizações populares, movimentações de massa que se repetiram em quase todas as capitais do país. E em todas elas, destacou-se um público majoritariamente jovem, aguerrido, generoso, que, encontrando o caminho das ruas, dele não deverá afastar-se, tão cedo, e muito menos de mãos vazias.

Nos seus primeiros momentos pós impeachment, Michel Temer era um presidente sem liderança e desabonado de voto popular. Hoje, ainda mais impopular, é um dirigente rejeitado, e assim, incapaz de realizar o governo para cuja implantação o golpe foi dado. As medidas que lhe cobram como pagamento pelo passe aumentarão esse fosso e essa rejeição, impondo-lhe a opção pelo Estado policial – de que foi significativa, para quem quiser ver, a repressão brutal da polícia de Geraldo Alckmin à manifestação ordeira e pacífica do domingo paulistano.

A direita brasileira não tem, jamais teve, compromissos com a democracia, que muitas vezes reivindica para poder destruí-la, como fez com o golpe de 1964. Da mesma forma, essa direita jamais teve compromissos com a legalidade – basta lembrar 1954, 1955, 1961 e 1964 – ou com a ordem constitucional. Tampouco tem compromisso com o processo eleitoral, que nega, quando não atende aos seus interesses, como quando tentou impedir a posse de Juscelino Kubitscheck e agora, quando rasga os mais de 54 milhões de votos dados a Dilma Rousseff. A trajetória da direita, no Brasil, em toda a nossa História mas particularmente na República, está vinculada a regimes de exceção e a golpes de Estado, e este em implantação é apenas mais um, como a ‘ditadura constitucional’ que necessariamente implantará para poder cumprir com seus objetivos.

A direita de hoje é a direita de ontem e agirá como sempre agiu. Estamos apenas no começo do drama.

Mas, ensina a terceira lei de Newton (do movimento) que “a toda ação corresponde uma ação contrária da mesma intensidade”. Ou seja, não há uma força isolada, mas sempre uma interação. Assim na física como na vida social. A ação reacionária, com suas ameaças, trouxe o povo de volta às ruas e o reconciliou com as lideranças de esquerda, e, como se cumprisse um ofício pedagógico, está ensinando que a ação é possível e necessária.

Não nos esqueçamos, porém, de que a ação, a descoberta da possiblidade da ação, não é tudo, embora importe em grande avanço. Ela cobra um salto de qualidade, que se chama Organização.

Ademais, como se cumprisse um ofício pedagógico, está ensinando que a ação não só é possível como é necessária. A experiência do movimento social traz à tona, mais uma vez, o imperativo da unidade e da política de frente conduzindo a ação. Está, pois, colocada para as forças populares, para as forças sindicais, para os assalariados de um modo geral e para a juventude – que retoma seu papel de sujeito – a grande oportunidade da inadiável revisão de procedimentos e de práticas, sem prejuízo da intervenção imediata. A crise de hoje questiona a primazia do eleitoralismo sobre o processo revolucionário, e questiona o pragmatismo como a melhor via de construção partidária.

Quando nossos partidos farão a necessária autocrítica?

Os partidos da esquerda organizada – que recém perderam o papel de condutores do processo – têm, agora, a oportunidade do reencontro com as grandes massas. O contraponto à ofensiva da direita pode ser o grande instrumento de politização das massas e de retomada, pela esquerda, dos princípios da democracia plena.

Roberto Amaral é escritor e ex-ministro de Ciência e Tecnologia.

Reunião na CIA, em janeiro de 2015

Enquanto isso, na CIA: “Temos ao nosso dispor para ajudar em qualquer projeto que decidirmos a mídia comercial local, que é nossa, o empresariado brasileiro, com raríssimas exceções”

 

Por Paulo Metri – do Rio de Janeiro

 

Em uma sala de reuniões ampla, com cortinas fechadas em um de seus lados, vê-se no centro da sala, uma mesa retangular em torno da qual estão umas vinte pessoas acomodadas em cadeiras confortáveis. Cada pessoa tem à sua frente um mesmo dossiê. O cidadão da cabeceira começa a falar.

— Não serão feitas apresentações e não precisam se identificar ao falar. Todos sabem do que iremos tratar. Por favor, comece.
Esta última frase é dita enquanto olha para o cidadão ao seu lado. Este toma a palavra.

Serra e Temer, integrantes de um governo alinhado com os interesses de Washington
Serra e Temer, integrantes de um governo alinhado com os interesses de Washington e dispostos a vender os principais ativos do país

— Hoje, o Brasil não é somente um mercado para o consumo dos bens e serviços das nossas empresas, além de um grande fornecedor de grãos e minérios de baixo valor no mercado internacional. Com a descoberta por parte deles da enorme jazida do pré-sal, mais as novas províncias petrolíferas, que ainda irão ser descobertas, na área que os nacionalistas brasileiros chamam de território marítimo brasileiro, que vai além do seu mar territorial, o Brasil poderá se tornar o maior exportador mundial de petróleo, acima da Arábia Saudita e da Venezuela.

— Os nativos sabem disso?

— Não. A grande massa não sabe de nada. Pouquíssimos brasileiros nacionalistas sabem. Alguns dos nossos aliados no país sabem da possível extensão das províncias petrolíferas que o país possui, porque os informamos. Mas só demos estas informações aos confiáveis.

Neste ponto, o coordenador interrompe a apresentação para dizer:

— Seria melhor se as perguntas fossem anotadas e feitas no final. Continue, por favor.

— Creio que todos aqui sabem que o petróleo ainda será vital para as economias mundiais por no mínimo uns 50 anos, os desenvolvimentos tecnológicos para fornecimento de calor e movimento para as sociedades não encontrarão competidores em custo com os derivados de petróleo, a menos que restrições ambientais sejam impostas. Sumariamente, o petróleo continuará sendo um insumo essencial para as economias mundiais. Além disso, o petróleo do Brasil terá papel primordial no futuro do mercado internacional de petróleo, porque no resto do globo só ocorrerão descobertas de petróleo caro e, quando for de petróleo acessível, elas serão em regiões conflituosas.

O coordenador da reunião agradece a exposição do último interlocutor e passa a palavra a outro presente, dizendo:

— Assim, chegamos ao objetivo principal da nossa reunião. Tenha a palavra.

— Ocorreu, recentemente, no final de 2014, a eleição para presidente do Brasil e, apesar de todos os esforços por nós despendidos, que não foram poucos, a presidente Dilma foi reeleita. Não vou fazer uma análise profunda do que ocorreu, para não roubar tempo do que é principal para este reunião. Mas, faço questão de frisar, até porque será útil para qualquer ação futura nossa, que existe no Brasil hoje um fator que nos desestabiliza. Trata-se do ex-presidente Lula. Ele é um fenômeno na capacidade de comunicação com as massas e, hoje, é muito mais perigoso que no passado. Nós erramos em 2002, quando dissemos que não importaria, se ele ganhasse a Presidência naquele ano. Não imaginávamos que o Lula de 2002 evoluiria para um político que valoriza o nacionalismo. Possivelmente, o contato com lideres da China, Rússia, Índia e de outros países, a interferência do seu chanceler Celso Amorim e o entendimento da riqueza que representa o Pré-Sal o levaram a ser mais consciente da questão geopolítica.

— Encaminhe a nossa proposta de reversão desta perda eleitoral. É preciso deixar claro que para nós é inconcebível o pré-sal não ficar aberto a nossas empresas.

— Obviamente, temos que recuperar o poder para as nossas mãos. Um golpe através dos militares não é mais viável porque, primeiro, eles saíram muito marcados do período recente em que estiveram no poder, pois a população guarda lembrança de torturas e assassinatos de lideranças neste período e, em segundo lugar, não sabemos ao certo como pensa, atualmente, o militar brasileiro. Temos ao nosso dispor para ajudar em qualquer projeto que decidirmos a mídia comercial local, que é nossa, o empresariado brasileiro, com raríssimas exceções, a grande maioria dos políticos do país, que são sem escrúpulos e corruptíveis. Temos também parcela do judiciário local, que é uma casta complexa em que residem egos avantajados. Temos uma arma secreta que é o treinamento de pessoal da Justiça e de ocupantes do Ministério da Justiça aqui, conosco. O mote para nossas ações a ser transmitido para todos os brasileiros será a luta contra a corrupção.

A verdade é que a corrupção vem acontecendo no Brasil há anos. Por exemplo, somos conhecedores da corrupção dentro da Petrobras desde o governo de Fernando Henrique Cardoso, mas, se tivermos que entregar a nossos aliados no Brasil, divulgaremos só os fatos dos períodos Lula e Dilma. Aliás, um ponto que precisa ser providenciado urgentemente é quebrar esta empresa, por tudo que ela representa. Ela é o próprio “vírus” nacionalista. Não podemos deixar no Brasil uma concorrente das nossas empresas querendo roubar o pré-sal de nós. O pior que pode nos acontecer é nosso plano ser identificado como contrário aos interesses brasileiros. Não se pode deixar o sentimento nacionalista brotar.

Por isso, é recomendável não se aliar a ninguém que tenha algum compromisso nacionalista por mínimo que seja, a menos de torcer pela seleção de futebol do Brasil. Devemos reconhecer que o período neoliberal globalizante, cujo auge foi durante o governo de Fernando Henrique, alijou quase por completo qualquer sentimento nacionalista. Trabalhamos bem, então. A partir daí, o nacionalismo foi vinculado ao atraso, ao passado distante e ao autoritarismo. Depois desta época, candidatos têm procurado reabilitar as teses nacionalistas, mas têm sido massacrados nas eleições. Naquela época, o brasileiro “foi conquistado”, em grande parte graças à nossa mídia “brasileira”, que nos ajuda muito.

— Acabou, Greg? Porque creio que chegou a hora de falarmos dos suportes financeiros para as ações que desenvolveremos. Antes, é preciso deixar claro que todas as ações de inteligência e o suporte das embaixadas serão dados sem custo algum. Mesmo o custo para corromper será rateado entre as nossas empresas beneficiadas e o nosso governo. Falará, agora, nosso especialista em compor estruturas de financiamento de projetos.

— Obrigado. Representantes de todas as grandes empresas com interesses econômicos no Brasil foram chamadas. Trata-se de investir neste projeto, agora, para podermos usufruir principalmente de recursos minerais a preços baixos por horizonte confortável, alem de usufruir com a venda de nossos produtos no mercado brasileiro. Obviamente, não há certeza absoluta do sucesso do projeto, mas se trabalharmos de forma inteligente sem nos atrapalharmos, a grande probabilidade é que, logo, logo, fecharemos contratos de 30 a 40 anos que serão usados para garantir o processo de dominação.

A qualquer época, eles serão acenados como contratos juridicamente perfeitos que precisam ser honrados. As petrolíferas, por serem grandes beneficiárias, serão as que contribuirão com maiores parcelas. Não vamos entrar em detalhes agora. Mas este material está à disposição das empresas. A boa notícia é que os deputados e senadores brasileiros eleitos junto com a presidente Dilma, na sua maioria, são nossos e não foram baratos para nós. Inclusive esta “compra” já foi feita e os senhores não precisam mais contribuir.

A partir de agora, sabemos que, para cada projeto específico, eles serão favoráveis, bastando acertar algum valor adicional. O grande projeto de retirada do poder das mãos de Dilma e entrega a pessoa de nossa confiança ainda está sendo planejado. Tudo leva a crer que será uma obra intrincada envolvendo o Judiciário, Ministérios do governo, a mídia comercial, políticos das duas Casas do Congresso do Brasil e movimentos sociais financiados por nós. Contudo, a mídia terá o papel principal, pois irá gerar a novela da deposição da presidente, consistente e compreensível pelo grande público.

— Muito bem. Acho que chegamos ao fim da reunião. Comunicaremos sempre fatos relevantes. Quaisquer informações que tenham, por favor, nos passem. Este processo será um pouco demorado. Leiam os jornais e tudo que inocentemente acontecer podem ter certeza que foi providenciado.

Paulo Metri é conselheiro do Clube de Engenharia.

A síndrome de Estocolmo planetária e a festa caipira que diverte o capitalismo

 Para o capitalismo mundial é importante que o país seja paralisado naquilo que poderia impulsioná-lo, e impulsionar os pontos capazes de o enfraquecer

 

Por Sergio Nogueira Lopes – do Rio de Janeiro

 

As Olimpíadas terminam, no Rio de Janeiro, com um legado invisível. Intocável. Etéreo feito a matéria escura que permeia as galáxias. Embora vistosa e sedutora, pela magia que é a Publicidade, a herança dos dias atuais, no Brasil, tem o dom de sequestrar o bom senso e a sabedoria até dos altruístas, o que se dirá dos incautos. A ação do capital sobre a consciência coletiva é silenciosa, ainda que cercada por estalidos e gritos de torcidas sorridentes, nos filmes brilhantes dos patrocinadores. Sim, os patrocinadores. Sempre eles. Os donos das grandes corporações também são os mesmos. O sistema é assim.

Enquanto meninas e meninos saudáveis se lançam no espaço para buscar uma bola, o mergulho perfeito, o tiro mais preciso, aquele segundo a menos, os grandes conglomerados financeiros avançam no seu objetivo de consolidar o lucro desse ano. São meticulosos e pragmáticos. Trabalham de forma célere para a remoção de qualquer obstáculo capaz de atrasar o ingresso de cifras inimagináveis para aquele cidadão, na arquibancada, que acaba de abrir um refrigerante, daquela determinada marca e, ato seguinte, destroçar um sanduíche da lanchonete patrocinadora. Ele nem imagina que a carne é uma das commodities mais valorizadas no agronegócio. O mesmo que mantém lobbies poderosos nos Parlamentos do mundo todo. Um dos bês das bancadas Boi, Bala e Bíblia (BBB).

Na charge de Junião, a representação da bancada do boi, da bala e da Bíblia no Congresso
Na charge de Junião, a representação da bancada do boi, da bala e da Bíblia no Congresso

Para assegurar lucros em alta constante, as grandes empresas assumem o controle de nações inteiras. Compram; subornam; matam. Fazem o necessário para gerenciar bilhões de seres humanos, todos consumindo aquele disco de carne misturada à gordura e soja transgênica, entre um gole e outro de uma substância gaseificada e viciante. Deixam que o marketing cuide para que o hábito seja perene. Dia após dia. Uma vida inteira, ainda que bastante encurtada devido aos efeitos colaterais dos produtos consumidos. Mas, vidas geralmente prolíficas, com descendentes de sobra, devidamente encaminhados para o mesmo destino. A roda gira.

Capitalismo doente

Até aqui, nenhuma novidade. O mundo está assim há séculos. A rotina é simples; inteligível até para a mais alegre das antas. Basta convencer determinada sociedade que há um plano pré-definido, o de que cada ser daquele país, daquele Estado, daquele município, cada rua, cada casa, cada cama consumirá e consumirá e consumirá como se o consumo fosse sagrado. Estabelece-se esse conceito por meio de telenovelas bem elaboradas, eventos esportivos emocionantes, e endorfina. Muita endorfina, claro. O capitalismo tem uma composição biológica inexorável. Garante-se a eficácia da fórmula em manchetes bem calculadas, nos jornais e revistas criados para a subserviência completa aos preceitos capitalistas. Assegura-se o funcionamento pleno do sistema no Parlamento, que votará um código a ser cumprido pela nação, sob pena imposta pelo braço de ferro do Judiciário à perda da liberdade — ou seja, encarcera-se o bicho que se rebelar ou enlouquecer. E toca a manada.

Ao capitalismo internacional pouco importa se nas lutas domésticas sairá vencedor Maria ou João, importante é que a disputa desses grupos transpareça ao “povo” a ilusão de que discutem e pareçam decidir alguma coisa sobre os destinos do país. O “governo” seja de que partido for obedece à direção de cena como atores numa peça diante do Diretor. No fim, mercê de inúteis eleições, a plateia sempre aplaudirá.

Não faz a menor diferença, para o sistema em vigor, se os recursos destinados à educação dos trabalhadores brasileiros foram reduzidos ao pó servido nas bandejas de prata, em baladas de Londres ou Nova York. Pouco importa se isso levar milhares de pessoas à ignorância onde, mergulhadas na estupidez, elevem os níveis de violência a extremos impensáveis. Tornem o ar irrespirável. Destruam o planeta. O máximo a se fazer, segundo o modelo em vigor, será lucrar com mais aparelhos de ar-condicionado até estragar, de vez, a camada de ozônio. E melhorar o serviço de entregas em domicílio, posto que sair às ruas será impensável.

Para disfarçar a lambança estratosférica, foi preciso formatar um sistema de comunicação global, com dispositivos cada vez mais sofisticados, interligados por satélites — para oferecer a sensação de liberdade —, e disseminar redes sociais com a falsa impressão de viver entre milhares de amigos quando, na verdade, já não encontra o Zé faz tempo.

Quem ousar uma nova proposta, diferente desse ciclo mortal de consumo e lucro, será taxado com aqueles velhos adjetivos que a mídia usa tão bem quando precisa noticiar revoluções, levantes, desobediências civis, manifestações, protestos. Para o capitalismo mundial, é importante que o país seja paralisado naquilo que poderia impulsioná-lo, e impulsionar os pontos capazes de o enfraquecer. Sempre com uma contagem de corpos aceitável, pois o número de bocas sobreviventes são importantes para manter o consumo em dia. Sem esquecer aquele sorrisão estampado, igual o das vítimas de sequestro ao verem chegar seus algozes, em plena síndrome de Estocolmo generalizada, epidêmica, planetária.

Sérgio Nogueira Lopes é sociólogo, escritor e embaixador da Sociedade Pestalozzi do Brasil (SPB).